Uma nova proposta de melhoria para o Bitcoin, batizada de BIP-177, foi introduzida em abril de 2025 pelo desenvolvedor John Carvalho. A proposta visa reformular completamente a forma como as unidades do Bitcoin são expressas, substituindo os satoshis pela unidade “bit”, de modo a facilitar o uso do Bitcoin no cotidiano.
Debate entre ‘sats’ e ‘bits’ reaquece: proposta para mudar unidade base do Bitcoin divide comunidade
Discussão sobre alterar a unidade padrão do Bitcoin ganha força com apoio de Jack Dorsey. Proposta de substituição dos satoshis por bits divide especialistas.
Segundo Carvalho, a ideia é abolir os satoshis — menores subdivisões do Bitcoin, equivalentes a 0,00000001 BTC — e, em vez disso, dividir os 21 milhões de Bitcoins em 21 quatrilhões de unidades. A proposta visa eliminar a necessidade de lidar com casas decimais excessivamente pequenas, que podem confundir usuários novatos.
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A origem do termo “bit”
A ideia dos “bits” não é totalmente nova. Em 2017, o desenvolvedor Jimmy Song sugeriu o uso de “bits” como uma forma mais acessível de mensurar o Bitcoin, onde 1 bit equivaleria a 100 satoshis ou 0,000001 BTC. A proposta, no entanto, não vingou amplamente na época.
John Carvalho argumenta que a solução de Song apenas transfere a complexidade para outro ponto, sem resolver o problema central de usabilidade. Para ele, a proposta atual é mais radical e eficaz, já que muda a convenção sem comprometer a estrutura econômica do Bitcoin.
Jack Dorsey entra no debate
A discussão ganhou nova dimensão com o apoio de Jack Dorsey, CEO da Block Inc. e conhecido entusiasta do Bitcoin. Em uma publicação no X (antigo Twitter) feita em 18 de maio, Dorsey declarou:
“Bits de Bitcoin são melhores, e apenas Bitcoin é o ideal.”
O argumento central de Dorsey é que os “sats” confundem iniciantes e não têm apelo intuitivo. Ele citou conversas anteriores com usuários que pensavam que satoshis eram outro tipo de token, totalmente diferente do Bitcoin.
O ponto de vista da Spiral
Stevie Lee, líder de produto na Spiral (empresa ligada à Block), complementou o argumento ao afirmar que poucas pessoas realmente compreendem o que são os satoshis:
“Todo mundo conhece o Bitcoin, mas quase ninguém conhece os sats.”
Para ele, o foco deve estar em simplificar a experiência do usuário, e não em manter convenções técnicas que não colaboram com a adoção em massa.
Resistência dentro da comunidade
Nem todos estão convencidos de que a mudança seja benéfica. Cory Klippsten, CEO da Swan Bitcoin, e Michelle Weekley, diretora de produto da Byte Federal, se posicionaram contra a proposta.
Weekley comparou os satoshis aos centavos de dólar, dizendo:
“As pessoas entendem centavos em um dólar, vão entender os sats em um Bitcoin.”
Klippsten, por sua vez, argumenta que alterar a forma como o Bitcoin é representado pode gerar mais confusão do que solução.
Temores sobre percepção de valor
A consultora Magdalena Gronowska alertou que uma mudança abrupta poderia causar interpretações erradas sobre o valor do Bitcoin. Em suas palavras:
“Isso pode levar alguns a pensarem que o preço do Bitcoin despencou ou que seu fornecimento foi inflado.”
Essa percepção errada poderia prejudicar a confiança no ativo, principalmente entre investidores menos experientes.
Um olhar histórico: o que dizia Satoshi Nakamoto?
Robin Linus, criador da BitVM (Bitcoin Virtual Machine), lembrou que o próprio Satoshi Nakamoto era aberto a mudanças na forma como os valores em Bitcoin são exibidos.
Em uma mensagem de 2010, Satoshi afirmou:
“Se ficar cansativo lidar com números pequenos, podemos mudar onde o visor mostra o ponto decimal. Mesma quantidade de dinheiro, apenas uma convenção diferente.”
Essa declaração mostra que o criador do Bitcoin via a representação numérica como uma questão de usabilidade, e não como parte essencial da arquitetura monetária da rede.
Atualizações no protocolo: estagnação ou maturidade?
A última grande mudança implementada na rede Bitcoin foi o Taproot, em novembro de 2021, que trouxe melhorias em eficiência e privacidade. Desde então, nenhuma nova Proposta de Melhoria (BIP) foi ativada.
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A falta de atualizações pode ser vista por alguns como sinal de estabilidade e amadurecimento do protocolo, mas outros a consideram um obstáculo para o avanço na usabilidade.
A proposta BIP-177 pode, portanto, ser vista como uma tentativa de revitalizar o debate sobre melhorias, voltando o foco para a experiência do usuário.
Consequências para a adoção do Bitcoin

Usabilidade como prioridade
Com o crescimento da adoção institucional e popularização de pagamentos com Bitcoin em diversos países, torna-se cada vez mais urgente pensar na usabilidade da moeda.
Representações complexas podem desestimular o uso do Bitcoin no varejo e em microtransações. A proposta de mudar de “sats” para “bits” visa justamente facilitar essas operações.
Implicando educação e comunicação
A mudança não se daria apenas no nível técnico, mas exigiria também uma nova abordagem na educação financeira. Plataformas, carteiras, corretoras e meios de comunicação teriam que se adaptar e reeducar seus usuários.
Esse processo poderia gerar resistências adicionais e confusão temporária, o que levanta a questão: os ganhos em usabilidade compensariam os custos da transição?
Conclusão: mudar ou manter?
A discussão entre “sats” e “bits” toca em questões fundamentais sobre o futuro do Bitcoin: acessibilidade, adoção, comunicação e percepção de valor.
Enquanto nomes como Jack Dorsey pressionam por mudanças que tornem o Bitcoin mais fácil de entender, uma parte significativa da comunidade defende a manutenção das convenções atuais como parte da cultura cripto.
Resta saber se o BIP-177 conseguirá apoio suficiente para se tornar a próxima grande evolução do Bitcoin desde o Taproot — ou se permanecerá apenas como mais um capítulo em sua história de resistência a mudanças radicais.
