A relação do governo Luiz Inácio Lula da Silva com o setor produtivo tem sido marcada por divergências em torno de impostos, regras trabalhistas, importações e custos para as empresas. Ao mesmo tempo, algumas medidas recentes podem produzir efeitos diferentes sobre a economia, especialmente no consumo das famílias.
Duas delas chamam atenção neste momento: o reajuste do Bolsa Família e a discussão sobre novas restrições às apostas online, as chamadas bets.
No caso do programa de transferência de renda, a mudança já foi oficializada. O governo corrigiu os benefícios em 15,04%, com efeitos financeiros a partir de outubro. O valor mínimo garantido por família passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777.
Já no mercado de apostas, o cenário ainda está em discussão. O governo prepara uma Medida Provisória para endurecer as regras, com possibilidade de proibição dos cassinos online, como os jogos associados ao chamado Jogo do Tigrinho, além de novas limitações para publicidade e funcionamento das plataformas.
O impacto econômico das duas medidas, porém, ocorre por caminhos diferentes.
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Como o reajuste do Bolsa Família pode chegar ao comércio

O aumento do Bolsa Família representa uma recomposição de renda para milhões de famílias que já recebem o benefício. Como os novos valores foram calculados pela variação acumulada do INPC entre março de 2023 e agosto de 2026, a medida foi apresentada pelo governo como uma atualização dos valores do programa.
A partir da folha de outubro, o benefício mínimo passa a ser de R$ 691. O valor médio estimado chega a R$ 777.
Isso não significa, entretanto, que todas as famílias receberão exatamente R$ 691 ou R$ 777. O Bolsa Família é calculado de acordo com a composição familiar e os benefícios adicionais a que cada integrante tem direito.
O Benefício de Renda de Cidadania, por exemplo, passa de R$ 142 para R$ 164 por integrante. O Benefício Primeira Infância sobe de R$ 150 para R$ 173 por criança de até sete anos incompletos, enquanto o Benefício Variável Familiar passa de R$ 50 para R$ 58 por integrante que se enquadre nos critérios.
Na prática, uma parte desse dinheiro pode retornar rapidamente à economia por meio do consumo.
Alimentação deve continuar entre as prioridades
Para famílias de menor renda, uma parcela significativa do orçamento costuma ser destinada a despesas essenciais. Por isso, supermercados, farmácias, pequenos estabelecimentos de bairro e outros segmentos ligados ao consumo básico podem sentir os efeitos de uma renda disponível maior.
O próprio Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social destaca que a recomposição busca preservar o poder de compra diante da inflação acumulada e atender principalmente despesas essenciais, como alimentação e outros itens básicos.
Isso cria um mecanismo relativamente simples: o recurso entra na conta da família, é utilizado para pagar despesas e retorna para empresas que fornecem produtos e serviços.
Eletrodomésticos, roupas e serviços também podem ser beneficiados
O efeito não precisa ficar restrito à alimentação.
Quando uma família consegue equilibrar melhor o orçamento mensal, também pode haver espaço para despesas que antes estavam sendo adiadas. É o caso de roupas, calçados, pequenos eletrodomésticos, produtos para a casa, transporte e determinados serviços.
O impacto efetivo, porém, dependerá de fatores como inflação, endividamento das famílias, preços praticados no comércio e outras despesas obrigatórias.
Por isso, o reajuste do benefício não deve ser interpretado automaticamente como um aumento equivalente nas vendas. Ele representa uma ampliação da renda disponível, mas o destino desse dinheiro depende das decisões de cada família.
Restrição às bets abre outro caminho para o consumo
O debate sobre as bets apresenta uma lógica diferente.
O governo prepara uma MP para restringir o funcionamento de determinadas modalidades de jogos online e aumentar as limitações sobre o mercado de apostas. Entre as possibilidades discutidas está a proibição de cassinos online, enquanto as regras para apostas esportivas também podem ficar mais rígidas.
A discussão ocorre em um momento de forte expansão das apostas digitais no país e de preocupação de autoridades com endividamento, lavagem de dinheiro e proteção de consumidores.
A Receita Federal, por exemplo, participou em agosto da Operação Jogo de Sombras, que investigou suspeitas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro relacionadas à exploração de apostas de quota fixa.
O dinheiro que deixa de ir para as apostas pode mudar de destino
Um dos argumentos econômicos presentes no debate é que parte do dinheiro destinado às plataformas poderia ser utilizada em outras atividades de consumo caso o acesso às apostas seja reduzido.
Esse efeito, entretanto, não é automático.
Uma pessoa que deixa de apostar pode simplesmente guardar o dinheiro, utilizá-lo para quitar uma dívida ou direcioná-lo para outra despesa. Portanto, não é possível afirmar antecipadamente que todo o valor retirado das bets será convertido em vendas no comércio.
Ainda assim, a possibilidade de mudança no padrão de consumo é relevante para empresas dos setores de comércio e serviços.
Governo enfrenta dilema entre arrecadação e restrição às apostas
A discussão também envolve as contas públicas.
As apostas de quota fixa passaram a operar dentro de um ambiente regulado no país, e o governo criou mecanismos de autorização, fiscalização e tributação para o setor. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda continua trabalhando na regulamentação do mercado. Em setembro, inclusive, encerrou consulta pública sobre as regras para autorização das empresas.
Por isso, uma restrição mais ampla teria consequências fiscais além dos efeitos sobre empresas, clubes de futebol e publicidade.
Reportagens recentes apontam que integrantes da equipe econômica demonstraram preocupação com a perda de receitas caso o mercado seja reduzido de maneira significativa. Ao mesmo tempo, setores do governo defendem medidas mais duras diante dos efeitos sociais atribuídos às apostas.
O formato final da medida é, portanto, determinante para dimensionar o impacto econômico.
Bolsa Família e bets podem produzir efeitos diferentes
Embora as duas medidas estejam sendo discutidas no mesmo contexto econômico, elas não funcionam da mesma maneira.
O reajuste do Bolsa Família aumenta diretamente a renda disponível das famílias beneficiárias. Já a restrição às bets pode alterar o destino de uma parcela do dinheiro que atualmente é utilizada em apostas.
Em um cenário hipotético, uma família que receba mais do programa e, simultaneamente, reduza seus gastos com apostas teria duas mudanças no orçamento: maior entrada de recursos e menor saída para essa atividade.
Esse dinheiro poderia ser destinado a alimentação, contas domésticas, produtos, serviços, educação, transporte ou pagamento de dívidas.
O resultado para o comércio dependerá, portanto, de como as famílias reorganizarão seus orçamentos.
Petrobras também chama atenção no cenário econômico
Enquanto o debate sobre consumo envolve diretamente as famílias, outro dado recente ganhou destaque no setor empresarial.
A Petrobras apresentou margem líquida de 29,15% no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento realizado pelo Dieese em parceria com a Federação Única dos Petroleiros (FUP). O percentual ficou acima dos 25,48% registrados pela Saudi Aramco no mesmo levantamento.
A estatal brasileira registrou lucro líquido de R$ 85,1 bilhões nos seis primeiros meses do ano.
O estudo compara a margem de grandes companhias petrolíferas internacionais. Além da Petrobras e da Saudi Aramco, aparecem na comparação empresas como Chevron, ExxonMobil, BP, Equinor, Shell e TotalEnergies.
É importante destacar que maior margem de lucro não significa maior lucro absoluto. Os indicadores medem aspectos diferentes do desempenho financeiro.
Segundo o levantamento citado, a margem da Petrobras ficou em 29,15%, enquanto a Saudi Aramco registrou 25,48%. A diferença está relacionada à proporção da receita que permaneceu como lucro líquido após os custos e demais despesas considerados no cálculo.
Pequenos negócios precisam acompanhar a Reforma Tributária
Outro ponto que pode afetar diretamente o setor produtivo é a adaptação à Reforma Tributária.
O Sebrae mantém ferramentas para que empresários possam simular os impactos da nova tributação sobre suas operações. A calculadora permite comparar cenários e visualizar a incidência de tributos como CBS, IBS e Imposto Seletivo.
A reforma foi estabelecida pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e altera de forma gradual o sistema de tributação sobre o consumo.
Para os pequenos negócios, o desafio não está apenas no valor final dos tributos. Mudanças na formação de preços, emissão de notas fiscais, aproveitamento de créditos e organização financeira também exigem atenção.
Por isso, o Sebrae disponibiliza conteúdos, cursos e ferramentas voltados especialmente às micro e pequenas empresas.
Simulação pode ajudar o empresário a se preparar
Uma das recomendações práticas para o empreendedor é não esperar a mudança completa do sistema para avaliar os efeitos sobre o próprio negócio.
A calculadora disponibilizada pelo Sebrae permite comparar cenários e observar como a tributação pode interferir na operação. O resultado pode servir como ponto de partida para conversas com o contador e para a revisão do planejamento financeiro.
Esse cuidado é especialmente relevante para empresas que trabalham com margens apertadas.
Uma alteração aparentemente pequena na tributação pode afetar preço final, margem de lucro e competitividade dependendo do setor e do regime tributário.
O que pode mudar para o consumidor e para as empresas
O cenário econômico brasileiro reúne, neste momento, movimentos diferentes.
De um lado, o reajuste do Bolsa Família aumenta os valores pagos às famílias beneficiárias a partir de outubro. A atualização de 15,04% foi oficializada pelo Decreto nº 13.120/2026, e os novos valores serão aplicados na folha de outubro.
De outro, o governo discute mudanças importantes no mercado de apostas, cujo formato definitivo ainda precisa ser conhecido para que seus efeitos possam ser medidos com maior precisão.
Ao mesmo tempo, empresas brasileiras enfrentam a transição para um novo sistema tributário, enquanto grandes companhias, como a Petrobras, apresentam resultados financeiros expressivos.
Para o consumidor, o ponto mais imediato é o aumento da renda das famílias que recebem o Bolsa Família. Para o comércio, o possível efeito positivo depende de quanto desse dinheiro será efetivamente transformado em consumo.
Para as empresas, a combinação de demanda, custos, impostos e mudanças regulatórias continuará sendo determinante.
No caso das bets, será necessário acompanhar o texto final da Medida Provisória e sua tramitação para saber exatamente quais modalidades serão atingidas, como ficará a publicidade e quais serão as consequências para arrecadação, empresas e consumidores.
Já no Bolsa Família, a mudança está definida: a partir de outubro, o valor mínimo passa a R$ 691 e o benefício médio estimado chega a R$ 777, preservando a atualização dos valores do programa pela inflação acumulada no período estabelecido pelo governo.
