O reajuste de 15,04% do Bolsa Família, anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 17 de setembro, elevou o valor mínimo do programa para R$ 691 a partir de outubro. Pouco mais de uma semana depois, entretanto, a pesquisa BTG/Nexus mostrou uma mudança nas intenções de voto entre eleitores que recebem o benefício ou vivem com alguém beneficiário.
No cenário de segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), Lula passou de 71% para 61% nesse grupo, enquanto Flávio avançou de 23% para 34%. Os números foram divulgados em 28 de setembro e fazem parte do levantamento registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-07557/2026.
A pesquisa, porém, não demonstra que o reajuste provocou a mudança eleitoral. A coleta ocorreu entre 25 e 27 de setembro, enquanto o anúncio da correção aconteceu em 17 de setembro. Outros fatores políticos e econômicos podem ter influenciado as respostas dos entrevistados.
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O que mudou nas intenções de voto entre beneficiários do Bolsa Família?

O levantamento da Nexus comparou os resultados da rodada anterior, divulgada em 21 de setembro, com os dados coletados entre 25 e 27 de setembro.
Entre os entrevistados que recebem o Bolsa Família ou moram com alguém que recebe o benefício, Lula registrou 56% no primeiro turno, ante 64% na pesquisa anterior. Flávio Bolsonaro passou de 17% para 27%.
Na simulação de segundo turno, a diferença também se alterou. Lula caiu de 71% para 61%, enquanto Flávio subiu de 23% para 34%.
| Grupo | Lula | Flávio Bolsonaro |
|---|---|---|
| Beneficiários — 1º turno, rodada anterior | 64% | 17% |
| Beneficiários — 1º turno, nova rodada | 56% | 27% |
| Beneficiários — 2º turno, rodada anterior | 71% | 23% |
| Beneficiários — 2º turno, nova rodada | 61% | 34% |
Os números representam a fotografia eleitoral do período pesquisado. Eles não significam que todos os beneficiários mudaram de candidato nem permitem atribuir a variação exclusivamente ao reajuste do programa.
E entre quem não recebe o Bolsa Família?
O movimento foi diferente entre os entrevistados que não recebem o programa.
No cenário de segundo turno, Lula passou de 42% para 44%, enquanto Flávio Bolsonaro recuou de 49% para 47%, segundo os dados divulgados sobre o levantamento.
A diferença entre os grupos chama atenção porque a variação observada entre beneficiários foi mais acentuada. Ainda assim, a pesquisa não identifica por si só a razão dessa diferença.
Por que o Bolsa Família foi reajustado?
O reajuste foi oficializado pelo Decreto nº 13.120, de 17 de setembro de 2026. O texto determina a correção dos benefícios pela variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026.
Segundo o governo federal, o objetivo é recompor a perda do poder de compra provocada pela inflação acumulada desde a reformulação do programa.
A correção foi de 15,04%. Com ela, o valor mínimo garantido por família passou de R$ 600 para R$ 691. O benefício médio estimado, considerando os diferentes componentes pagos pelo programa, subiu de aproximadamente R$ 675 para R$ 777.
A mudança também alterou valores adicionais destinados a determinados integrantes das famílias beneficiárias.
Quais são os novos valores?
A partir de outubro, o decreto estabelece:
- R$ 164 por integrante no Benefício de Renda de Cidadania;
- R$ 691 como valor mínimo garantido por família;
- R$ 173 por integrante enquadrado no Benefício Primeira Infância;
- R$ 58 no Benefício Variável Familiar.
O pagamento dos valores corrigidos começa em outubro. De acordo com informações divulgadas sobre o calendário, os primeiros depósitos estão previstos para 19 de outubro.
O reajuste muda automaticamente o valor recebido?
Sim. As famílias que já estão habilitadas ao Bolsa Família não precisam fazer um novo pedido exclusivamente por causa do reajuste.
A atualização ocorre conforme as regras do programa e os dados registrados no Cadastro Único. O valor efetivamente recebido depende da composição familiar e dos benefícios adicionais aos quais cada integrante tenha direito.
Por isso, duas famílias podem receber valores diferentes mesmo após a correção do piso.
Quanto o reajuste vai custar aos cofres públicos?
A atualização também produz impacto nas contas públicas.
Segundo informações divulgadas pelo governo, o reajuste deve representar um impacto de aproximadamente R$ 5,8 bilhões em 2026. Para 2027, a estimativa apresentada é de cerca de R$ 22 bilhões.
O governo afirma que a despesa foi incorporada ao planejamento orçamentário e relaciona a atualização à recomposição inflacionária prevista na legislação do programa.
A pesquisa mostra que o reajuste prejudicou Lula?
Não é possível concluir isso apenas com os dados da Nexus.
Existe uma coincidência temporal: o governo anunciou o reajuste em 17 de setembro e a pesquisa seguinte foi realizada entre 25 e 27 de setembro. Nesse intervalo, os números entre beneficiários do Bolsa Família mudaram de maneira significativa.
Mas uma pesquisa eleitoral transversal não consegue determinar, sozinha, qual foi a causa da mudança. Para afirmar que o reajuste provocou a alteração seria necessário controlar outros acontecimentos ocorridos no período e identificar diretamente a influência da medida sobre a decisão dos entrevistados.
Portanto, a formulação mais precisa é que a queda de Lula entre beneficiários ocorreu após o anúncio do reajuste, e não que o reajuste necessariamente provocou a queda.
Como foi feita a pesquisa BTG/Nexus?
A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual e realizada pelo Instituto Nexus.
Foram entrevistados 2.000 eleitores, por telefone, entre 25 e 27 de setembro de 2026. O levantamento abrangeu eleitores de 16 anos ou mais residentes em todo o país.
A margem de erro geral é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-07557/2026.
No cenário geral de primeiro turno, Lula aparece com 42% e Flávio Bolsonaro com 37%. Em uma eventual disputa de segundo turno entre os dois, Lula registra 46% e Flávio, 44%, resultado considerado empate técnico diante da margem de erro.
O que os números significam na prática?
Os dados mostram que o comportamento eleitoral dos beneficiários do Bolsa Família apresentou uma mudança expressiva entre duas rodadas da mesma pesquisa.
Isso não significa, entretanto, que o reajuste tenha sido rejeitado pelos beneficiários ou que eles tenham mudado de posição por causa do aumento. A pesquisa mede intenção de voto, e não a avaliação específica do reajuste.
Para compreender se a política de transferência de renda alterou efetivamente a percepção dos eleitores, seriam necessários levantamentos que perguntassem diretamente sobre o impacto da medida, além de análises que considerassem outros acontecimentos políticos e econômicos do período.
O reajuste, por sua vez, está oficialmente previsto no Decreto nº 13.120/2026 e passa a produzir efeitos financeiros em outubro.
O que acontece agora?

Os novos valores do Bolsa Família começam a ser aplicados nos pagamentos de outubro, sem necessidade de uma nova solicitação por parte das famílias já beneficiárias.
Na esfera política, novas pesquisas poderão mostrar se a mudança registrada entre 25 e 27 de setembro foi mantida ou se representou apenas uma oscilação dentro de um cenário eleitoral em transformação.
Por enquanto, o que os dados permitem afirmar é objetivo: o Bolsa Família foi reajustado em 15,04%, o piso passou para R$ 691 e, na pesquisa BTG/Nexus, Lula registrou queda de 10 pontos no segundo turno entre entrevistados que recebem o benefício ou vivem com alguém que o recebe. A relação causal entre os dois acontecimentos, contudo, não foi demonstrada pela pesquisa.
Conclusão
O reajuste do Bolsa Família amplia o valor mínimo pago às famílias beneficiárias a partir de outubro, enquanto a nova pesquisa BTG/Nexus mostra uma mudança relevante nas intenções de voto entre esse grupo. Apesar da coincidência temporal entre o anúncio do aumento e a oscilação registrada no levantamento, os dados não permitem afirmar que uma situação tenha provocado a outra. O cenário ainda pode mudar nas próximas pesquisas, que deverão indicar se essa alteração representa uma tendência ou apenas uma variação pontual do período.
