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Bolsonaro terá direito a cumprir pena em casa? Veja as regras e possibilidades

A possibilidade de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) cumprir pena em prisão domiciliar caso seja condenado pela tentativa de golpe de Estado tem ganhado força entre seus aliados.

O cenário foi impulsionado por uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou o ex-presidente Fernando Collor a cumprir sua pena em casa, alegando motivos de saúde e idade.

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O precedente de Collor

Ex-presidente e senador Fernando Collor em uma mesa com um olhar desconfiado
Imagem: Sérgio Lima

Em maio, o ministro Alexandre de Moraes concedeu a Collor o direito de cumprir sua pena por corrupção em regime domiciliar, mesmo ela tendo sido inicialmente fixada em regime fechado. A justificativa foi a combinação de fatores como idade avançada (75 anos) e o diagnóstico de enfermidades como Doença de Parkinson, apneia do sono e transtorno afetivo bipolar.

A decisão, considerada um marco, reacendeu debates sobre a chamada “prisão domiciliar humanitária”, que, embora não esteja prevista de forma expressa na legislação brasileira, tem sido reconhecida por decisões judiciais com base em princípios constitucionais, como a dignidade da pessoa humana.

A situação de Bolsonaro

Jair Bolsonaro tem atualmente 70 anos e passou por sete cirurgias abdominais desde a facada que sofreu durante a campanha presidencial de 2018. Seus advogados alegam que ele possui histórico de saúde delicado, o que, a exemplo do caso de Collor, poderia ser usado como argumento para solicitar o cumprimento da pena em regime domiciliar.

Contudo, há divergências sobre a viabilidade jurídica e política dessa possibilidade. O ex-presidente responde a inquérito por suposta tentativa de golpe de Estado e, se condenado, pode receber pena máxima de até 43 anos de prisão. A definição da pena caberá ao Supremo Tribunal Federal.

O que diz a lei sobre prisão domiciliar

Segundo o Código de Processo Penal (CPP) e a Lei de Execução Penal (LEP), a prisão domiciliar pode ser concedida em dois casos:

  1. Substituição da prisão preventiva: antes da condenação, para pessoas com saúde frágil, idade avançada, gestantes ou mães de crianças.
  2. Regime aberto: após a condenação, para cumprimento da pena em casa, desde que a pena permita e a situação pessoal do condenado justifique.

Nenhuma dessas hipóteses contempla diretamente condenações em regime fechado, como no caso de Collor. Entretanto, tribunais têm flexibilizado essas exigências com base em fundamentos constitucionais.

O conceito de prisão domiciliar humanitária

Imagem focada no rosto de Bolsonaro
Imagem:  Marcelo Chello / Shutterstock.com

A “prisão domiciliar humanitária” não consta como um instituto formal na legislação penal brasileira. Contudo, especialistas apontam que esse termo vem sendo adotado na prática por decisões judiciais que priorizam princípios constitucionais.

Segundo a professora Eloísa Machado, da Fundação Getulio Vargas (FGV), essa concessão tem ganhado espaço por meio da jurisprudência, inclusive em tribunais estaduais e federais.

“A prisão domiciliar humanitária para condenados em regime fechado e semiaberto, fora das hipóteses legais, tem sido reconhecida pelos tribunais em geral, e não apenas pelo STF”, explica Eloísa.

Já o professor Gustavo Sampaio, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que essa jurisprudência é aplicada de forma restrita e seletiva.

“Ela tem sido usada com pouca frequência e, quase sempre, em casos de personalidades públicas, como políticos, que conseguem mobilizar estruturas jurídicas que a maioria da população carcerária não acessa.”

STF aplicará o mesmo entendimento a Bolsonaro?

A resposta para essa pergunta ainda divide os juristas. De um lado, o precedente estabelecido por Alexandre de Moraes no caso de Collor pode indicar que o Supremo seguirá o mesmo raciocínio para outros réus idosos com problemas de saúde. De outro, há fatores que diferenciam os casos.

Argumentos a favor da concessão

  • Idade: Bolsonaro tem 70 anos, idade que o enquadra no grupo prioritário de proteção segundo o Estatuto do Idoso.
  • Histórico médico: as cirurgias abdominais e eventuais complicações de saúde poderão ser utilizadas como base para o pedido.
  • Precedente judicial: o caso de Collor oferece jurisprudência favorável.

Além disso, há a expectativa de que outros envolvidos na suposta tentativa de golpe, como o general Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), também possam ser beneficiados por esse entendimento.

Argumentos contrários

A professora Eloísa Machado é cautelosa. Segundo ela, há diferenças significativas entre as duas situações:

  • Gravidade da pena: a eventual condenação de Bolsonaro pode ultrapassar 30 anos, diferentemente da de Collor.
  • Menor tempo decorrido: a condenação de Bolsonaro, caso ocorra, seria próxima à data dos fatos investigados, enquanto no caso de Collor houve um intervalo maior.
  • Atividade política: Bolsonaro segue atuante, discursando publicamente, o que poderia indicar que tem condições físicas e psicológicas de cumprir pena em presídio.

“A atuação política ativa de Bolsonaro contraria a ideia de que ele não teria condições de cumprir pena”, afirma Eloísa.

Bolsonaro deve pedir prisão domiciliar?

Aliados próximos ao ex-presidente já discutem estratégias de defesa que possam incluir o pedido de prisão domiciliar, caso ele seja condenado. A ideia é preparar o terreno com laudos médicos e estratégias jurídicas para reforçar o argumento da condição de saúde delicada.

Além disso, há um movimento político para tentar reforçar a narrativa de perseguição, o que pode ser usado como base para pedidos de medidas alternativas à prisão tradicional, apelando para instâncias internacionais, caso necessário.

Laudos médicos serão decisivos

Se houver um pedido oficial de prisão domiciliar, os laudos médicos de Bolsonaro passarão por rigorosa análise técnica e pericial. Apenas a idade, embora relevante, não é suficiente para garantir o benefício. A defesa precisará demonstrar que a prisão em estabelecimento penal comprometeria sua integridade física ou emocional.

O peso da opinião pública

Bolsonaro
Imagem: Alf Ribeiro / shutterstock.com

Outro fator que deve influenciar a decisão é o impacto da medida na opinião pública. Conceder prisão domiciliar a um ex-presidente acusado de tentar derrubar as instituições democráticas poderá ser interpretado como um privilégio indevido.

A imagem do Supremo Tribunal Federal, especialmente do ministro Alexandre de Moraes, figura central no processo, também será considerada. Em um contexto de polarização política, qualquer decisão terá repercussões dentro e fora do Judiciário.

Conclusão: possibilidade existe, mas cenário é complexo

A prisão domiciliar humanitária está longe de ser uma garantia para Jair Bolsonaro, caso ele seja condenado. Embora haja precedentes, como o de Fernando Collor, a aplicação dependerá de vários fatores: gravidade da pena, condições de saúde, tempo decorrido desde os crimes, posicionamento político atual e avaliação técnica do STF.

A tendência é que, se houver condenação, a defesa de Bolsonaro explore todos os caminhos legais disponíveis, inclusive o domiciliar. No entanto, a decisão final caberá ao Supremo Tribunal Federal, que terá de equilibrar jurisprudência, saúde do réu e responsabilidade institucional.