Bolsonaro nega fuga e diz que pode ser preso: ‘tudo pode acontecer’
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, na última terça-feira (15), que não tem qualquer intenção de sair do país, mesmo diante da possibilidade de ser condenado por suposta tentativa de golpe de Estado. Em entrevista ao portal Poder360, Bolsonaro declarou que está com a saúde debilitada e deseja estar presente no julgamento que corre no Supremo Tribunal Federal (STF).
A declaração ocorre em meio à intensificação do processo da Ação Penal nº 2.668, que apura uma suposta trama golpista envolvendo o ex-presidente e aliados. A Procuradoria-Geral da República (PGR), por meio do procurador Paulo Gonet, já apresentou parecer final solicitando a condenação de Bolsonaro por cinco crimes graves.
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“Estou cheio de problemas de saúde”, afirma Bolsonaro
Ao ser questionado sobre a possibilidade de deixar o país, Bolsonaro foi direto:
“Estou cheio de problemas de saúde, como que eu vou pra outro país? E outra, eu quero ver esse julgamento meu”, declarou.
Desde o início de julho, o ex-mandatário comunicou que suspenderia sua agenda por tempo indeterminado em razão de crises persistentes de soluços e episódios de vômito. As declarações também surgem em meio a especulações sobre um possível exílio voluntário, hipótese que Bolsonaro rechaça.
Além de negar qualquer fuga, Bolsonaro demonstrou indignação com o andamento do processo e criticou abertamente o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF.
Críticas ao STF e à prisão de aliados
Durante a entrevista, Bolsonaro também comentou sobre a prisão do general Braga Netto, seu ex-candidato a vice, que está detido preventivamente sob acusação de obstrução de Justiça. Ele utilizou o caso como exemplo do que poderia acontecer com ele próprio.
“Tudo pode acontecer hoje em dia, né? Porque o Braga Netto está preso? Uma prisão preventiva durar tanto assim? Qual acusação do Braga Netto? Interferência num inquérito que já tinha acabado”, questionou.
Em seguida, acusou o ministro Alexandre de Moraes de concentrar poderes e desrespeitar garantias processuais:
“Uma pessoa que sequestrou o Supremo Tribunal Federal e faz o que bem entende: prende, interroga, julga, diz que é vítima porque tinha um plano para matá-lo”, declarou Bolsonaro.
As críticas reforçam a linha de argumentação que o ex-presidente tem adotado desde o início do processo, alegando que está sendo alvo de perseguição política e jurídica.
PGR pede condenação de Bolsonaro por cinco crimes
Na segunda-feira (14/7), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, encaminhou ao STF seu parecer final sobre o caso. O documento de 517 páginas foi entregue pouco antes da meia-noite e pede a condenação de Bolsonaro e demais envolvidos na investigação.
Entre os crimes apontados pela PGR estão:
- Liderança de organização criminosa armada
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito
- Golpe de Estado
- Dano qualificado pela violência e grave ameaça
- Prejuízo ao patrimônio da União, com deterioração de bem tombado
Segundo o parecer, Bolsonaro teve papel de liderança na tentativa de ruptura institucional, especialmente no contexto das eleições de 2022 e das ações que se seguiram à sua derrota nas urnas.
Etapas do processo no STF
Após o envio do parecer pela PGR, inicia-se a etapa final do processo. O primeiro prazo aberto é para manifestação da defesa de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e um dos principais delatores do caso.
Depois disso, há um prazo conjunto para os demais réus apresentarem suas alegações finais — incluindo o ex-presidente. O processo segue tramitando normalmente mesmo durante o recesso do Judiciário, que ocorre em julho, pois os prazos não são suspensos nessa fase.
A expectativa é de que todas as manifestações sejam entregues até 11 de agosto, possibilitando o julgamento ainda no terceiro trimestre de 2025.
Possível julgamento entre agosto e setembro
De acordo com apuração da imprensa, a previsão é que o STF marque o julgamento de Bolsonaro e dos demais réus entre agosto e setembro de 2025. A relatoria segue com o ministro Alexandre de Moraes, que também conduziu os principais inquéritos envolvendo os atos de 8 de janeiro e investigações paralelas sobre milícias digitais e desinformação.
A depender do ritmo das defesas e da liberação para pauta, o processo poderá ser apreciado ainda durante o mês de agosto, logo após a conclusão do recesso do Judiciário.
Defesa aposta em delações e contexto político
A estratégia da defesa de Bolsonaro parece se apoiar em dois pilares: o argumento de perseguição institucional e a tentativa de descredibilizar os depoimentos dos delatores, especialmente Mauro Cid. Aliados do ex-presidente também argumentam que o ambiente político conturbado e a condução dos processos por figuras como Moraes comprometem a imparcialidade do julgamento.
Nos bastidores, há expectativa de que a defesa apresente uma contestação robusta nos próximos dias, com base em laudos médicos, falhas processuais e nulidades apontadas ao longo da investigação.
Repercussão política e divisão entre aliados
As declarações de Bolsonaro movimentaram a cena política. Parlamentares da oposição saíram em defesa do ex-presidente, afirmando que ele é vítima de perseguição. Já setores da base governista veem as falas como tentativa de se colocar como mártir político em ano pré-eleitoral.
A possibilidade de uma eventual condenação e prisão de Bolsonaro também reacende o debate sobre o papel das instituições democráticas e o impacto da radicalização política no Brasil.
Considerações finais: julgamento histórico à vista
O julgamento de Jair Bolsonaro no STF promete ser um marco na história política e jurídica do país. Envolvendo crimes de extrema gravidade e com potencial impacto institucional, o caso coloca à prova a solidez das instituições democráticas brasileiras.
O ex-presidente, por sua vez, segue apostando na narrativa de resistência, ao mesmo tempo em que enfrenta problemas de saúde e crescentes desafios jurídicos. Sua permanência no país, ao menos por ora, parece uma tentativa de reforçar essa imagem perante seus apoiadores e o próprio Supremo.
A expectativa agora recai sobre os próximos movimentos da defesa e a definição da data do julgamento. Enquanto isso, os desdobramentos seguem sob forte atenção nacional e internacional.