Tarifa de 50% do Trump: Bolsonaro garante: ‘posso resolver isso
Bolsonaro diz ser contra tarifa de 50% dos EUA sobre o Brasil, afirma que poderia ajudar se tivesse liberdade e critica Lula por provocar Trump.
Por Vitória Monckes
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou nesta terça-feira (15), em entrevista ao portal Poder360, que é contrário à tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos importados do Brasil. A medida, anunciada recentemente pelo governo norte-americano liderado por Donald Trump, gerou grande repercussão e preocupações no setor produtivo brasileiro. Bolsonaro, réu em processo no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, disse que poderia contribuir com a solução do impasse, caso tivesse liberdade para dialogar com o ex-aliado americano.
Atualmente, o ex-presidente está impedido de sair do país por decisão judicial. Seu passaporte foi apreendido em fevereiro de 2024, como parte das investigações que apuram a tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito após as eleições de 2022. Bolsonaro alegou que gostaria de ir pessoalmente aos EUA para negociar com Trump, mas, devido às restrições impostas pela Justiça, não tem sequer acesso ao próprio passaporte.
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Durante a entrevista, Bolsonaro reforçou sua posição contra o chamado “tarifaço” de 50% imposto sobre produtos brasileiros, especialmente do setor agropecuário e metalúrgico. Ele negou qualquer envolvimento na decisão do governo norte-americano e ressaltou que tanto ele quanto seu filho, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), também são contrários à medida.
“Eu sou contra, seria contra o tarifaço. Meu filho Eduardo seria contra também. Mas temos um problema mais grave: se o Brasil continuar avançando à esquerda, com o Lula falando besteira o tempo todo, esse inconsequente, provocando os Estados Unidos… Essa taxa de 50% pode ser diminuída. Acho que tenho o poder de resolver esse assunto – parte dele – mas tenho que ter liberdade de conversar com Trump. No momento, nem passaporte eu tenho.”
Tentativa de liberação para viajar aos EUA
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), teria procurado ministros do STF para pedir a liberação de Bolsonaro para que ele pudesse viajar aos Estados Unidos e tratar pessoalmente da questão com Trump. A proposta, no entanto, foi considerada “totalmente fora de cogitação” por membros da Corte.
A possibilidade de o ex-presidente realizar qualquer articulação diplomática ou comercial enquanto réu em processo penal e com restrição de deslocamento internacional contraria o entendimento da maioria dos magistrados, que veem a situação como juridicamente inviável e politicamente arriscada.
Eduardo Bolsonaro e a influência nos bastidores
Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro e tem se aproximado de grupos conservadores radicais do Partido Republicano, alinhados à agenda de Trump. Esses grupos teriam atuado para inserir na carta oficial da Casa Branca, que anunciava o aumento tarifário, uma exigência para que o Brasil encerrasse os processos contra Bolsonaro no STF.
Ao ser questionado sobre essa articulação, Bolsonaro disse que não iria “dar palpite na vida de Trump”, mas demonstrou gratidão e saudade do relacionamento com o ex-presidente norte-americano:
“Tenho profunda gratidão por ele. Tivemos um excelente relacionamento. Fizemos planos. Parece que estávamos até namorando. Fizemos muitos planos para o Brasil na questão dos minérios”, afirmou.
Apesar da proximidade passada, Bolsonaro admitiu que Trump é imprevisível, o que tornaria qualquer tentativa de negociação direta um desafio.
Críticas ao governo Lula
Imagem: Agência Brasil
Bolsonaro usou a entrevista também como espaço para criticar duramente o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Afirmou que Lula “só faz besteira”, que “provoca o americano o tempo inteiro” e que o caos parece ser desejado pelo governo atual. O ex-presidente citou como provocações a Trump a defesa de Lula pelo uso de moedas locais em transações internacionais, sua posição crítica ao governo de Israel e uma declaração recente em que o petista teria ironizado o ex-presidente norte-americano ao afirmar que lhe ofereceria jabuticabas.
“’É vira-lata, fuck you’. Parece que para esse governo, o caos é importante”, disparou Bolsonaro, em referência ao clima diplomático entre Brasil e EUA.
Segundo ele, caso estivesse na Presidência, o Brasil já teria negociado um acordo com os EUA semelhante ao firmado com a Argentina, no qual 80% dos produtos não são taxados.
Processo no STF e impedimentos legais
As declarações de Bolsonaro ocorreram um dia após a Procuradoria-Geral da República (PGR) pedir sua condenação por tentativa de golpe de Estado, em um processo que envolve outros sete aliados próximos. O ex-presidente é acusado de diversos crimes, entre eles:
Liderança de organização criminosa armada;
Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;
Dano qualificado contra o patrimônio da União;
Deterioração de patrimônio tombado.
Réus também denunciados:
Alexandre Ramagem (PL-RJ), deputado e ex-diretor da Abin;
Almir Garnier, ex-comandante da Marinha;
Anderson Torres, ex-ministro da Justiça;
Augusto Heleno, ex-ministro do GSI;
Mauro Cid, ex-ajudante de ordens;
Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil.
O procurador-geral Paulo Gonet sustenta na denúncia que houve “grave ameaça à ordem democrática” com uso de recursos públicos, desinformação e articulações com setores militares. A manutenção do passaporte de Bolsonaro apreendido faz parte das medidas cautelares relacionadas à gravidade dos fatos imputados.
Reações políticas e diplomáticas
As falas de Bolsonaro repercutiram negativamente entre integrantes do governo Lula e parlamentares da base aliada, que consideraram as declarações irresponsáveis e uma tentativa de autopromoção política em meio à crise jurídica que enfrenta.
Do lado diplomático, o Itamaraty não comentou oficialmente a nova tarifação dos EUA, mas interlocutores próximos ao presidente afirmam que o governo trabalha nos bastidores para tentar reverter ou suavizar a decisão junto ao Departamento de Comércio dos EUA, reforçando os canais oficiais de negociação internacional.
Implicações econômicas da tarifa
Imagem: Evan El-Amin/shutterstock.com
A tarifa de 50% anunciada pelos EUA sobre produtos brasileiros afeta diretamente setores como:
Agropecuária (soja, café, carnes)
Siderurgia e mineração (ferro, alumínio, aço)
Produtos manufaturados de pequeno e médio porte
Empresários do agronegócio e da indústria têm alertado que a medida pode provocar perda de competitividade, redirecionamento de mercados e redução de exportações em até US$ 5 bilhões anuais, dependendo da permanência da tarifa.
O governo brasileiro, por sua vez, considera que o movimento tem motivações políticas, especialmente em ano de eleição nos EUA, com Trump buscando endurecer sua retórica protecionista e, ao mesmo tempo, pressionar países que considera ideologicamente adversários.
Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.