Os títulos da dívida brasileira negociados no exterior chegam ao primeiro turno das eleições de 2026 com um dos menores prêmios de risco dos últimos anos. Segundo levantamento do JPMorgan, o spread dos bonds soberanos do Brasil caiu para 158 pontos-base, menor nível desde maio de 2013.
O dado ganha importância porque o primeiro turno está marcado para 4 de outubro, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
A combinação entre preços elevados dos títulos, cenário eleitoral e fatores internacionais aumenta a atenção dos investidores para os próximos movimentos do mercado. O próprio JPMorgan, segundo a análise divulgada, considera que o espaço para uma nova compressão dos spreads está mais limitado.
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O que significa o spread dos bonds brasileiros

O spread é uma medida utilizada para comparar o prêmio exigido pelos investidores para comprar um título de determinado país em relação a uma referência considerada de menor risco, normalmente os Treasuries dos Estados Unidos.
Quando o spread diminui, significa que o mercado está exigindo um prêmio menor para carregar aquele risco. Quando aumenta, ocorre o contrário: os investidores passam a pedir uma remuneração adicional maior.
No caso brasileiro, o spread de 158 pontos-base está 18 pontos abaixo da média dos países classificados na faixa BB, segundo os dados atribuídos ao JPMorgan.
Isso ajuda a explicar por que uma nova valorização pode exigir mudanças relevantes nas expectativas dos investidores. Quanto menor o prêmio, menor tende a ser o espaço para uma redução adicional sem que novos fatores favoráveis apareçam.
Por que a eleição entrou no radar?
A eleição presidencial é um dos eventos capazes de alterar expectativas sobre política econômica, trajetória fiscal e relação do próximo governo com investidores.
O primeiro turno de 2026 ocorrerá em 4 de outubro, e o resultado definirá se haverá segundo turno nas disputas majoritárias que não forem decididas na primeira votação.
No relatório citado, o JPMorgan relaciona o comportamento recente dos bonds às expectativas do mercado em torno do cenário eleitoral. Essa é uma interpretação dos analistas do banco, e não uma previsão oficial sobre o resultado da eleição.
Bonds e CDS mostram movimentos diferentes
Outro ponto destacado pelo banco é a diferença entre o comportamento dos bonds e do CDS de cinco anos, instrumento utilizado no mercado para proteção contra o risco de crédito de um emissor.
Enquanto os títulos soberanos brasileiros tiveram forte valorização em setembro, o CDS de cinco anos avançou na última semana, chegando a aproximadamente 125 pontos-base, segundo o levantamento divulgado. O bond brasileiro com vencimento em 2030, por sua vez, apresentava spread de cerca de 80 pontos-base.
Essa diferença é observada pelos participantes do mercado porque os dois instrumentos podem responder de maneira diferente à procura por proteção antes de eventos de maior volatilidade.
O JPMorgan apresentou uma estratégia de arbitragem envolvendo os dois ativos. Essa recomendação é específica do banco e não deve ser interpretada como uma indicação geral de investimento para o público.
Crédito corporativo brasileiro também chama atenção
O movimento não está restrito aos títulos emitidos pelo governo. Os bonds de empresas brasileiras também apresentam spreads relativamente baixos em comparação com períodos eleitorais anteriores.
Segundo o JPMorgan, o índice CEMBI Brasil estava em 198 pontos-base, menor nível registrado às vésperas de uma eleição desde o início da série utilizada pelo banco, em 2006. Em 2022, o indicador estava em 445 pontos-base no mesmo tipo de comparação.
Há, entretanto, uma ressalva importante nessa comparação. Parte da redução do índice ocorreu porque empresas como Raízen e Braskem deixaram sua composição após eventos de crédito registrados em 2026. Portanto, comparar simplesmente o nível atual com o de 2022 pode esconder mudanças na composição da carteira analisada.
Inadimplência aumenta a cautela
O mercado de crédito corporativo também apresenta sinais que exigem atenção. Conforme os dados citados pelo JPMorgan, a inadimplência dos bonds brasileiros classificados como high yield chegou a 15,7% no acumulado do ano até agosto, o maior nível da série do banco, iniciada em 2010.
High yield é uma classificação associada a títulos de maior risco de crédito e, consequentemente, que costumam oferecer remuneração mais elevada para compensar esse risco.
Esse cenário mostra por que o comportamento dos bonds corporativos não depende apenas da eleição. A situação financeira de cada companhia, seu endividamento, geração de caixa, setor de atuação e capacidade de refinanciamento podem provocar diferenças importantes entre os papéis.
Juros americanos e petróleo também podem mexer com os títulos

Embora o calendário eleitoral seja um fator relevante neste momento, o mercado brasileiro continua exposto às condições financeiras internacionais.
Os juros dos Estados Unidos influenciam a atratividade relativa dos ativos emergentes. Uma mudança nas taxas americanas pode alterar o fluxo de recursos para países como o Brasil e modificar o prêmio exigido pelos investidores.
O petróleo também aparece entre as variáveis acompanhadas pelos analistas. Para o Brasil, mudanças nos preços da commodity podem afetar empresas exportadoras, receitas externas e expectativas para inflação e atividade econômica.
Por isso, uma eventual mudança nos spreads dos bonds não necessariamente será consequência direta do resultado eleitoral. Diferentes fatores podem atuar simultaneamente, e o efeito de cada um dependerá das condições do mercado no momento.
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