A discussão sobre justiça social e proteção a pessoas em situação de vulnerabilidade voltou ao centro das atenções em Brasília. Um novo projeto que tramita na Câmara dos Deputados quer corrigir uma desigualdade histórica entre aposentados por invalidez e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas). O Projeto de Lei nº 4680/2024, apresentado pelo deputado Zé Vitor (PL–MG), propõe conceder um adicional de 25% no BPC para idosos e pessoas com deficiência que comprovem a necessidade de ajuda permanente de um cuidador.
BPC pode ter aumento de 25%! Projeto beneficia idosos e pessoas com deficiência com cuidador
Projeto na Câmara quer garantir adicional de 25% ao BPC para idosos e pessoas com deficiência que precisam de cuidador. Entenda impactos e quem terá direito.
A iniciativa promete mudar a realidade de milhões de brasileiros que dependem desse benefício, mas enfrentam despesas extras para garantir cuidados básicos no dia a dia. Atualmente, o adicional de 25% existe apenas para aposentados por invalidez do INSS, excluindo o público atendido pelo BPC — justamente quem, muitas vezes, possui maior vulnerabilidade socioeconômica.
Para especialistas, defensores públicos e entidades de assistência social, o projeto representa um passo essencial para a equiparação de direitos e para o reconhecimento de que cuidar exige investimento, dignidade e apoio do Estado.
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O que é o BPC e por que o tema é tão urgente
O Benefício de Prestação Continuada é garantido pela Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742/1993). Ele assegura um salário mínimo mensal a idosos com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que comprovem renda per capita inferior a ¼ do salário mínimo.
Apesar de ser uma das principais políticas de proteção social do país, o benefício não prevê qualquer tipo de acréscimo, mesmo em casos em que o beneficiário necessita de acompanhante para atividades simples, como comer, tomar banho ou se locomover.
Quem tem direito hoje ao adicional de 25%
Atualmente, apenas aposentados por invalidez do INSS podem receber o adicional de 25%, previsto no artigo 45 da Lei 8.213/1991. O valor é permanente e pode elevar o benefício acima do teto previdenciário.
O BPC, por outro lado, não permite acréscimos. Se o projeto for aprovado, essa exclusão deixará de existir.
Por que essa diferença existe
A lacuna jurídica surgiu porque o BPC não é uma aposentadoria, e sim um benefício assistencial. Entretanto, na prática, muitos beneficiários do BPC possuem limitações semelhantes — ou até mais severas — do que aposentados por invalidez.
Um benefício criado para quem mais precisa, mas sem proteção suficiente
Apesar de garantir um salário mínimo, o BPC:
- Não paga 13º salário;
- Não deixa pensão por morte;
- Não permite adicional de 25%.
Para famílias que precisam pagar cuidadores — profissionais ou mesmo parentes que deixam de trabalhar para cuidar do beneficiário —, o valor recebido mal cobre o básico.
O que o projeto propõe na prática
O texto do PL 4680/2024 altera o artigo 20 da Lei 8.742/1993 para permitir o adicional de 25% ao BPC quando houver comprovação da necessidade de cuidador.
Principais pontos da proposta
Valor adicional
O beneficiário que comprovar necessidade de ajuda contínua receberá 25% a mais sobre o valor mensal do BPC.
Avaliação técnica
A condição será atestada por equipe multiprofissional do INSS ou do órgão responsável pela assistência social.
Vigência enquanto durar a condição
O adicional será pago enquanto houver laudo que comprove dependência permanente.
Proteção ampliada
O valor extra não será considerado no cálculo da renda familiar — protegendo o acesso a outros programas sociais, como tarifa social de energia, Farmácia Popular, programas municipais e estaduais e auxílios eventuais.
Esse último ponto é considerado crucial, porque evita que o adicional seja usado para excluir famílias de direitos já assegurados.
Impacto financeiro para o governo
A Consultoria de Orçamento da Câmara estima um impacto anual de aproximadamente R$ 6,5 bilhões — valor considerado suportável dentro do Fundo Nacional de Assistência Social, especialmente se implementado de forma progressiva.
Especialistas apoiam a medida
O defensor público Felipe Figueiredo afirma:
“A legislação atual cria uma discriminação injustificável. O custo de um cuidador é o mesmo, seja o idoso aposentado, seja o idoso assistido pelo BPC.”
Entidades como o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI) e o Fórum Nacional de Trabalhadores do SUAS também apoiam o texto, afirmando que o adicional reduzirá a sobrecarga das famílias e evitará institucionalização desnecessária — quando idosos são levados para abrigos apenas porque a família não consegue arcar com os custos.
A desigualdade jurídica que o PL tenta corrigir
Em 2018, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que o adicional poderia se estender a outras aposentadorias. A discussão chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu que só uma lei poderia alterar esse direito — exatamente o que o PL 4680/2024 faz agora.
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Ou seja: não falta decisão judicial. Falta lei.
Quem será beneficiado
Se o projeto for aprovado, o alcance da medida será imediato e significativo.
Estimativa de beneficiários
Havia, até outubro de 2024:
- 2,8 milhões de beneficiários do BPC no país;
- Cerca de 70% com limitações severas, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Situações que poderão justificar o adicional
- Dependência para alimentação;
- Uso de cadeira de rodas ou cama permanente;
- Demência e limitações cognitivas;
- Doenças degenerativas;
- Necessidade de ajuda para higiene pessoal.
A equipe multiprofissional considerará tanto aspectos médicos quanto sociais.
Repercussão do projeto
A proposta já ganhou força nas redes sociais e em organizações que defendem idosos e pessoas com deficiência. Para a coordenadora da ONG Viva Melhor Idade, Dra. Célia Duarte:
“Essa lei reconhece que envelhecimento e deficiência exigem cuidado permanente e amparo financeiro. É um avanço civilizatório.”
Zé Vitor, autor do PL, resume:
“É uma questão de dignidade. Quem precisa de cuidador não pode receber menos proteção do que quem é aposentado por invalidez.”
Conclusão
O Projeto de Lei nº 4680/2024 traz argumentos sólidos e impacto social relevante. Ele não apenas corrige uma desigualdade histórica, mas reconhece que cuidar também é um direito social. Se aprovado, permitirá que milhões de brasileiros tenham acesso à assistência necessária sem comprometer sua subsistência.
A votação ainda não tem data, mas o debate já mobiliza especialistas, entidades e famílias de beneficiários.
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