O governo brasileiro deu início a um dos mais relevantes processos comerciais do ano ao acionar formalmente a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o recente aumento de tarifas impostas pelos Estados Unidos. A medida, protocolada em Genebra, representa um capítulo tenso na relação bilateral e afeta diretamente o agronegócio e o setor exportador brasileiro.
Novos capítulos Brasil x EUA: Brasil desafia tarifas dos EUA e aciona OMC por violação comercial
Governo brasileiro questiona na OMC tarifas dos EUA que atingem exportações como carne e café. Pedido foi formalizado em Genebra.
O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) confirmou que o Brasil solicitou a abertura de consultas formais com os EUA, etapa obrigatória que antecede a instalação de um painel arbitral na OMC. O motivo central do litígio: tarifas adicionais de até 50% sobre produtos brasileiros, como carne e café, anunciadas pela Casa Branca no fim de julho e que entraram em vigor no início de agosto.
O que motivou a ação do Brasil na OMC

- Em 31 de julho de 2025, o ex-presidente norte-americano Donald Trump, atualmente candidato à reeleição, assinou uma ordem executiva impondo novas tarifas sobre produtos estrangeiros.
- A medida combinou dois pacotes anteriores de tarifas: uma de 10% em abril e outra de 40% no fim de julho.
- Estima-se que 35,9% das exportações brasileiras para os EUA sejam impactadas.
- Produtos como carne bovina, café, couro, derivados de soja e frutas tropicais estão entre os mais atingidos.
Fontes oficiais confirmam que cerca de 700 produtos ficaram isentos da nova tarifa, incluindo minério de ferro, petróleo, aeronaves, castanhas e suco de laranja.
Como funciona o processo de disputa na OMC
Etapas do procedimento
- Solicitação de consultas: primeira fase, onde as partes têm até 60 dias para tentar resolver o conflito diretamente.
- Formação de painel: se não houver acordo, o país reclamante pode solicitar a criação de um painel arbitral.
- Decisão final: o painel julga o caso e pode autorizar retaliações comerciais caso identifique violações.
O que o Brasil alega na OMC
O Itamaraty argumenta que os EUA:
- Violam o princípio da nação mais favorecida, previsto no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT).
- Ultrapassam limites tarifários consolidados junto à OMC.
- Tomaram decisões sem embasamento técnico nem justificativas de segurança nacional, o que compromete a legalidade das tarifas.
Produtos afetados pelas novas tarifas

A medida dos EUA gerou fortes impactos em cadeias produtivas brasileiras. Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os seguintes setores estão entre os mais prejudicados:
Agronegócio
- Carne bovina e suína
- Café verde e industrializado
- Frutas frescas e secas
- Açúcar refinado
- Etanol
Indústria
- Couro e calçados
- Celulose e papel
- Produtos têxteis
- Autopeças
Mineração e energia (não afetados)
- Minério de ferro
- Petróleo bruto
- Gás natural liquefeito (GNL)
- Aeronaves
Impacto econômico das tarifas sobre o Brasil
O comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos movimenta, em média, US$ 70 bilhões por ano. Em 2024, o agronegócio respondeu por cerca de 47% das exportações brasileiras para os EUA.
Possíveis consequências:
- Queda nas exportações em até US$ 15 bilhões por ano, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
- Redução de empregos diretos nas cadeias de produção agrícola e industrial.
- Desaceleração do superávit comercial do Brasil em 2025.
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o crescimento do PIB brasileiro pode ser afetado negativamente em 0,4 ponto percentual, caso as tarifas permaneçam inalteradas ao longo do segundo semestre.
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O que acontece se os EUA não recuarem
Caso os EUA se recusem a rever a política tarifária durante a fase de consultas, o Brasil poderá:
- Solicitar a criação de um painel arbitral na OMC.
- Receber autorização para retaliar comercialmente os Estados Unidos com tarifas equivalentes.
- Buscar apoio de outros países membros da OMC, ampliando a pressão internacional sobre Washington.
Em casos anteriores, o Brasil já conseguiu vitórias semelhantes, como na disputa contra os subsídios ao algodão norte-americano, em 2004.
Histórico de disputas comerciais do Brasil na OMC

O Brasil já participou de mais de 30 disputas na OMC, seja como reclamante ou como parte interessada. Entre os casos mais notórios estão:
- Subsídios dos EUA ao algodão (DS267) – Brasil venceu.
- Taxas da União Europeia sobre o frango – Brasil venceu parcialmente.
- Disputa contra Indonésia por barreiras à carne bovina – Brasil venceu.
Esse histórico reforça a credibilidade jurídica brasileira no comércio internacional e deve influenciar positivamente na condução do atual litígio contra os EUA.
Apoio a exportadores brasileiros
Enquanto o processo na OMC avança, o governo federal anunciou medidas emergenciais para mitigar os efeitos das tarifas:
- Criação de linhas de crédito especiais para produtores rurais e exportadores afetados.
- Expansão do Programa de Financiamento às Exportações (Proex).
- Reforço na atuação de adidos agrícolas brasileiros em Washington.
- Lançamento de campanhas de diplomacia econômica para diversificar destinos das exportações.
