O Brasil entra em uma nova fase de disputa por capital internacional em um cenário no qual investidores buscam diversificar suas carteiras e reduzir a concentração em ativos ligados ao dólar. A avaliação foi apresentada por Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, e Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú Unibanco, durante a B3 Week, realizada em São Paulo.
Segundo os especialistas, o país reúne características que podem favorecer a entrada de recursos, principalmente pela disponibilidade de commodities, energia e oportunidades relacionadas à infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, a trajetória das contas públicas e o comportamento do real diante do dólar continuam entre os fatores acompanhados pelo mercado.
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A busca por diversificação dos investimentos internacionais abre espaço para economias emergentes. De acordo com a discussão realizada na B3 Week, o desempenho desses mercados tem mostrado uma dinâmica diferente daquela observada em outros períodos de maior aversão ao risco.
O Brasil possui alguns ativos estruturais que podem aumentar seu potencial de atração. Entre eles estão a produção de petróleo, a disponibilidade de recursos naturais e uma matriz energética com forte participação de fontes renováveis.
Esse diferencial ganha relevância justamente quando a inteligência artificial amplia a demanda mundial por infraestrutura computacional. Grandes data centers precisam de grandes volumes de eletricidade e de uma estrutura confiável para operar continuamente.
O governo federal também passou a criar mecanismos específicos para esse segmento. Em setembro de 2026, foi sancionado o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que estabelece incentivos para investimentos no setor e impõe contrapartidas relacionadas a pesquisa, sustentabilidade, energia e oferta de capacidade ao mercado brasileiro.
Energia limpa aumenta potencial do país
A disponibilidade de energia renovável é apontada como uma das vantagens brasileiras na disputa por novos projetos de tecnologia.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), reforça a manutenção de uma matriz elétrica majoritariamente renovável e prevê a expansão da oferta energética.
Ao mesmo tempo, a expansão dos data centers cria desafios para o sistema elétrico. A EPE já trabalha em estudos para preparar a transmissão diante do crescimento de cargas eletrointensivas, como centros de processamento de dados e projetos de hidrogênio produzido por eletrólise.
Assim, não basta ter energia disponível. O país também precisa garantir transmissão, conexão ao sistema, previsibilidade regulatória e capacidade de atendimento de grandes consumidores.
Contas públicas podem definir o ritmo dos investimentos
O potencial brasileiro, entretanto, convive com um ponto de atenção conhecido dos investidores: a situação fiscal.
Durante o painel da B3 Week, Honorato e Guillen destacaram que a credibilidade da trajetória das contas públicas será importante para determinar se o ambiente favorável aos ativos brasileiros poderá persistir.
Na prática, a preocupação fiscal influencia diversas variáveis ao mesmo tempo. Quando investidores percebem maior risco na sustentabilidade das contas públicas, podem exigir retornos maiores para aplicar recursos no país. Isso pode pressionar juros, custo de financiamento e preços dos ativos.
Por outro lado, uma trajetória fiscal considerada previsível tende a reduzir incertezas e pode contribuir para condições financeiras mais favoráveis. O efeito não é automático, mas a percepção de risco fiscal costuma fazer parte das decisões de investidores locais e estrangeiros.
O que o dólar tem a ver com os investimentos no Brasil
O câmbio é outro componente fundamental desse cenário porque o investidor estrangeiro avalia não apenas o desempenho de um ativo brasileiro, mas também o comportamento da moeda.
Uma ação, título ou projeto pode apresentar retorno positivo em reais e, ainda assim, entregar resultado diferente quando convertido novamente para dólares.
Por isso, mudanças nas expectativas sobre os juros dos Estados Unidos podem afetar o fluxo de recursos para mercados emergentes. Uma política monetária americana mais restritiva, por exemplo, pode aumentar a atratividade relativa dos ativos em dólar e influenciar moedas como o real.
No painel da B3 Week, Guillen mencionou uma cotação próxima de R$ 5,30 por dólar em sua avaliação para o câmbio. Essa referência representa uma projeção apresentada pelo economista, e não uma cotação oficial ou garantia sobre o comportamento futuro da moeda.
Data centers podem ampliar a entrada de capital

O setor de tecnologia aparece como uma das novas fronteiras para investimentos estrangeiros no Brasil.
O Ministério da Fazenda informou que cerca de 60% dos dados dos brasileiros estão atualmente fora do país e que o Redata busca estimular a instalação de infraestrutura nacional para processamento e armazenamento. O programa também exige que empresas beneficiadas cumpram requisitos de energia limpa ou de baixa emissão e realizem investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
A iniciativa ocorre em um momento de forte expansão da inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais. Para o Brasil, isso cria uma oportunidade de transformar sua disponibilidade energética e posição geográfica em vantagem para a instalação de infraestrutura tecnológica.
Há, contudo, obstáculos. Projetos desse porte exigem elevado investimento inicial, acesso à rede elétrica, conectividade, segurança jurídica, licenciamento e disponibilidade de água ou alternativas eficientes para resfriamento.
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