A família brasileira está mudando. O mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio do Censo Demográfico de 2022, confirma uma tendência já percebida por especialistas nas últimas décadas: as mulheres estão tendo menos filhos e, quando decidem engravidar, o fazem em idade mais avançada.
Censo confirma mudança de perfil: menos filhos e maternidade mais tardia
Descubra o que os dados do Censo 2022 revelam sobre a queda da fecundidade no Brasil. Leia o artigo completo agora.
A nova realidade revela uma profunda transformação social, com impactos diretos na economia, na política e no planejamento de políticas públicas.
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Queda da taxa de fecundidade no Brasil

Um declínio de longo prazo
Segundo o Censo do IBGE, a taxa de fecundidade total — número médio de filhos por mulher em idade reprodutiva (15 a 49 anos) — caiu para 1,55 em 2022.
Para se ter uma ideia da magnitude da mudança, em 1960 esse número era de 6,28 filhos por mulher. Desde então, o índice vem caindo de forma contínua:
- 1970: 5,76;
- 1980: 4,35;
- 1991: 2,89;
- 2000: 2,38;
- 2010: 1,90.
Desde 2010, o Brasil já opera abaixo da taxa de reposição populacional, estimada em 2,1 filhos por mulher — o patamar necessário para manter a população estável ao longo do tempo.
Fatores que explicam o fenômeno
A queda da fecundidade está associada a múltiplos fatores: aumento da escolarização feminina, maior participação das mulheres no mercado de trabalho, acesso ampliado a métodos contraceptivos e mudanças nos valores sociais, como o adiamento ou a renúncia à maternidade.
“O ritmo de crescimento populacional, o envelhecimento da população e as transformações na pirâmide etária estão diretamente relacionados ao número de nascimentos”, destaca a pesquisadora do IBGE Marla Barroso.
Regiões e estados: a queda da fecundidade de Norte a Sul
Sudeste lidera queda com menor taxa do país
A Região Sudeste teve a redução mais acentuada da taxa de fecundidade, atingindo 1,41 filho por mulher — o índice mais baixo do país. O Rio de Janeiro é o estado com menor taxa: 1,35, segundo o Censo. Já o Distrito Federal (1,38) e São Paulo (1,39) também estão entre os que menos registram nascimentos.
Norte e Nordeste ainda acima da média
Apesar da queda geral, o Norte apresenta a maior taxa regional: 1,89 filhos por mulher. Roraima é o único estado com índice acima da reposição populacional, com 2,19 filhos por mulher. Amazonas (2,08) e Acre (1,90) completam a lista dos estados com maiores taxas.
Evolução nas demais regiões
- Sul: 1,50;
- Centro-Oeste: 1,64;
- Nordeste: 1,60.
Em todos os casos, os números atuais estão abaixo da média histórica e refletem o avanço da transição demográfica em todo o território nacional.
Maternidade tardia: idade média sobe para 28,1 anos
Tendência nacional
Outro dado relevante do Censo 2022 é o aumento da idade média na qual as mulheres têm filhos. Em 2000, essa média era de 26,3 anos. Em 2022, subiu para 28,1 anos. O fenômeno é generalizado, sendo observado em todas as regiões do país.
Diferenças regionais e estaduais
- Sudeste e Sul: 28,7 anos;
- Norte: 27 anos;
- Distrito Federal: maior média do país com 29,3 anos;
- Pará: menor média, com 26,8 anos.
Esse adiamento da maternidade está diretamente relacionado ao aumento da escolaridade, à priorização da carreira e à maior autonomia sobre decisões reprodutivas.
Cresce o número de mulheres que não têm filhos
O levantamento do Censo também revela que 16,1% das mulheres entre 50 e 59 anos não tiveram filhos nascidos vivos em 2022. Em 2000, esse percentual era de 10%. O aumento é expressivo e marca uma mudança de mentalidade sobre a maternidade como obrigação social ou biológica.
- Sudeste: passou de 11% (2000) para 18% (2022);
- Norte: de 6,1% para 13,9%;
- Rio de Janeiro: maior percentual (21%);
- Tocantins: menor percentual (11,8%).
Impactos da religião e raça na fecundidade
Taxas por religião
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As diferenças na taxa de fecundidade reveladas no Censo também variam conforme a religiosidade:
- Evangélicas: 1,74 filhos por mulher;
- Católicas: 1,49;
- Sem religião: 1,47;
- Umbanda e Candomblé: 1,25;
- Espíritas: 1,01.
Apesar dessas variações, o IBGE alerta que a religião por si só não explica os padrões de fecundidade, já que fatores como renda, escolaridade e localização geográfica também influenciam fortemente.
Recorte racial
- Mulheres amarelas: 1,2 filho;
- Brancas: 1,4;
- Pretas: 1,6;
- Pardas: 1,7;
- Indígenas: 2,8 — única acima da taxa de reposição.
A idade média de fecundidade também varia, segundo o Censo: brancas (29 anos), pretas (27,8) e pardas (27,6).
Escolaridade como fator determinante

A escolarização feminina tem papel central na queda da fecundidade. O Censo 2022 revela:
- Sem instrução/ensino fundamental incompleto: 2,01 filhos;
- Fundamental completo ou médio incompleto: 1,89;
- Médio completo/superior incompleto: 1,42;
- Superior completo: 1,19 filhos.
“A mulher com mais escolaridade tem mais acesso à informação e métodos contraceptivos, podendo planejar melhor sua vida reprodutiva”, afirma Izabel Marri, do IBGE.
A idade média de fecundidade entre mulheres com ensino superior é de 30,7 anos, contra 26,7 para aquelas com baixa escolaridade.
Considerações finais: o Brasil diante de um novo perfil populacional
A queda da fecundidade e a maternidade mais tardia avaliadas pelo Censo confirmam que o Brasil vive uma profunda transformação demográfica.
Esse novo cenário terá efeitos duradouros, como o envelhecimento da população, desafios para a previdência social, necessidade de revisão de políticas públicas de saúde, educação e trabalho, e uma nova compreensão da maternidade e dos papéis de gênero.
Os dados do Censo 2022 são um alerta e, ao mesmo tempo, um convite à reflexão sobre como a sociedade brasileira deve se preparar para um futuro com menos nascimentos e uma população mais envelhecida.
Imagem: blankita_ua / Pixabay
