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Brasil fica atrás de Paraguai, Chile, Uruguai e Peru em selo de grau de investimento

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
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O Brasil continua fora do chamado grau de investimento, classificação atribuída pelas principais agências de risco a países considerados com maior capacidade de honrar suas dívidas. Em 2026, o tema permanece diretamente relacionado à trajetória das contas públicas, ao nível da dívida e ao custo de financiamento da economia.

Nas três principais agências internacionais, o país ainda está abaixo do nível considerado grau de investimento. A S&P Global mantém o Brasil em BB, com perspectiva estável, enquanto a Moody’s atribui Ba1, também com perspectiva estável.

A questão vai além de um simples selo. A classificação de risco influencia a percepção dos investidores sobre o país e pode afetar o custo para captar recursos, especialmente quando se considera a relação entre dívida pública, juros e capacidade de geração de resultados fiscais.

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Por que o Brasil perdeu o grau de investimento?

Juros
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O Brasil recebeu o grau de investimento pela primeira vez em 2008, mas perdeu essa condição durante a deterioração fiscal que marcou a segunda metade da década seguinte.

Desde então, o país não conseguiu recuperar a classificação. O principal desafio apontado nas avaliações de risco continua relacionado às contas públicas.

Dados do Banco Central mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026, equivalente a cerca de R$ 10,8 trilhões. No mesmo mês, a dívida líquida alcançou 68,5% do PIB.

Além do estoque da dívida, existe o efeito dos juros. A despesa financeira elevada faz com que uma parcela importante dos recursos públicos seja direcionada ao serviço da dívida, dificultando a estabilização da relação entre endividamento e PIB.

O que dizem as agências de classificação

A S&P, ao manter a nota brasileira em junho de 2026, destacou que a posição externa do país, as reservas internacionais, o mercado financeiro doméstico e a flexibilidade da moeda ajudam a compensar parcialmente as fragilidades fiscais. Ao mesmo tempo, a agência apontou a necessidade de enfrentar rigidezes orçamentárias para melhorar a trajetória da dívida.

A Moody’s também mantém o Brasil em Ba1, um nível abaixo do grau de investimento, com perspectiva estável. A própria agência discute entre os fatores relevantes para uma eventual mudança de classificação a situação fiscal e a credibilidade das políticas econômicas.

Portanto, estar fora do grau de investimento não significa que o Brasil esteja próximo de deixar de pagar suas obrigações. A classificação representa uma avaliação relativa do risco de crédito soberano.

Como o grau de investimento afeta os juros

Um dos principais canais de transmissão está no custo de financiamento.

Quando investidores consideram um país mais arriscado, podem exigir uma remuneração maior para comprar seus títulos. O rendimento dos papéis públicos, por sua vez, funciona como uma referência para diversas operações financeiras dentro da economia.

Isso pode atingir empresas que precisam emitir dívida, bancos que captam recursos no mercado e consumidores que contratam financiamentos.

Na prática, portanto, uma percepção maior de risco fiscal pode contribuir para manter o custo do dinheiro elevado. O efeito não acontece de maneira automática nem depende exclusivamente do rating, já que inflação, Selic, cenário internacional, câmbio e condições de liquidez também influenciam as taxas.

O próprio Banco Central mostra como os juros têm peso significativo na dinâmica da dívida. Em junho, os juros nominais apropriados representaram impacto de 0,8 ponto percentual do PIB sobre a dívida bruta naquele mês.

O que o FMI projeta para a dívida brasileira

A situação fiscal também aparece nas projeções do Fundo Monetário Internacional.

Na consulta do Artigo IV publicada em julho de 2026, o FMI projetou a dívida bruta do governo geral brasileiro, pela metodologia própria da instituição, em 97,8% do PIB em 2026, chegando a aproximadamente 105,3% em 2031. Essa metodologia é diferente da utilizada pelo Banco Central, razão pela qual os números não devem ser comparados diretamente.

O FMI também estima que o resultado primário do governo geral permaneça negativo em 2026 e passe gradualmente para terreno positivo nos anos seguintes, condicionado à implementação das medidas fiscais previstas.

A instituição defendeu um esforço fiscal mais ambicioso para colocar a dívida em uma trajetória de queda e, ao mesmo tempo, preservar investimentos prioritários e despesas sociais direcionadas.

O que seria necessário para recuperar o selo

Não existe uma fórmula única para conquistar o grau de investimento. As agências analisam um conjunto de fatores que inclui dívida, resultado fiscal, crescimento, estabilidade institucional, ambiente externo e capacidade de financiamento.

Uma melhora consistente das contas públicas seria, portanto, um dos elementos centrais para uma eventual elevação da nota.

Isso envolve produzir resultados primários suficientes para estabilizar a dívida, controlar o crescimento das despesas e aumentar a previsibilidade das regras fiscais. Também é importante que as medidas sejam percebidas como sustentáveis ao longo de vários anos, e não apenas como ajustes temporários.

O FMI avalia que a implementação de reformas estruturais, incluindo a continuidade da reforma tributária sobre o consumo, pode contribuir para o crescimento potencial brasileiro. Para 2026, o Fundo projeta crescimento de 2,4% para a economia brasileira.

O mercado pode reagir antes da mudança da nota

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Uma eventual recuperação do grau de investimento não necessariamente seria o primeiro sinal de melhora.

Investidores costumam antecipar mudanças quando percebem que a trajetória fiscal está se tornando mais sustentável. Se houver melhora consistente nas expectativas para a dívida e para os resultados fiscais, os prêmios de risco podem cair antes de qualquer anúncio formal das agências.

O inverso também pode ocorrer. Uma deterioração percebida pelos mercados pode provocar aumento dos juros e saída de recursos antes de uma eventual revisão negativa do rating.

Por isso, o grau de investimento funciona mais como consequência de um conjunto de fundamentos econômicos do que como uma solução isolada para os problemas fiscais.

Imagem: iStock/ Alex Sholom

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