O Brasil investe US$ 3.762 por estudante da educação básica ao ensino superior, valor equivalente a cerca de um terço da média registrada entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O dado faz parte do Education at a Glance 2026, relatório divulgado pela entidade nesta terça-feira, 29 de setembro.
A comparação, porém, precisa ser interpretada com cuidado. O levantamento não compara o Brasil com uma suposta “média mundial”, mas com os países da OCDE e outras economias participantes. Na média da organização, o gasto por estudante chega a US$ 13.859.
Ao mesmo tempo, quando o indicador é calculado como proporção da economia, o cenário brasileiro muda. O país direciona 4,3% do PIB para o financiamento público da educação, acima dos 3,6% observados, em média, pela OCDE.
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Quanto o Brasil gasta por aluno?
O número revela uma diferença importante entre o volume total de recursos destinado à educação e o valor disponível para cada estudante.
O gasto por aluno é influenciado pelo tamanho da população estudantil, pela estrutura das redes de ensino, pelos salários dos profissionais, pelo número de professores, pelo tamanho das turmas e pelos custos de manutenção das instituições. Por isso, gastar uma parcela maior do PIB não significa necessariamente apresentar o mesmo nível de investimento por estudante de países com sistemas educacionais menores ou com maior renda.
Na comparação latino-americana apresentada pela OCDE, o investimento brasileiro por estudante fica abaixo de países como Argentina, Chile e Costa Rica, mas supera o registrado em México e Peru.
Outro aspecto destacado pelo levantamento é a distribuição dos recursos. No Brasil, o gasto público por estudante no ensino superior, incluindo pesquisa e desenvolvimento, é relativamente próximo ao destinado aos níveis anteriores de ensino. A OCDE aponta que isso diferencia o país de muitos outros sistemas educacionais analisados.
Professores aparecem entre os principais desafios
A situação dos docentes é outro ponto de destaque do relatório de 2026. A OCDE identifica a escassez de professores como um problema presente em diversos sistemas educacionais e relaciona o fenômeno a fatores como remuneração, condições de trabalho, envelhecimento da força de trabalho e competição com outras profissões.
No Brasil, apenas 22,3% dos professores declararam satisfação com seus salários, contra 38,7% na média dos países analisados pela OCDE. A satisfação com as condições de emprego, excluindo a remuneração, ficou em 44,3%, enquanto a média internacional considerada foi de 68,4%.
Isso não significa, entretanto, que a maioria dos professores brasileiros queira abandonar a carreira. A própria pesquisa mostra que 87% dos docentes brasileiros afirmam estar satisfeitos com o trabalho em geral. O resultado indica que remuneração e condições de emprego são dimensões diferentes da satisfação profissional.
Falta de profissionais preocupa as redes públicas
O relatório também chama atenção para a disponibilidade de professores qualificados. Na educação básica brasileira, parte dos profissionais ainda não atende integralmente aos requisitos de qualificação estabelecidos para a função.
A questão ganha importância porque a simples contratação de mais docentes não resolve necessariamente o problema. É preciso considerar onde estão as vagas, quais disciplinas apresentam maior carência e quais regiões possuem maior dificuldade para atrair profissionais.
A OCDE destaca que a escassez tende a ser particularmente relevante em áreas como matemática e ciências, além de regiões rurais, remotas ou socialmente vulneráveis.
Escolaridade dos brasileiros também avançou
Apesar dos problemas apontados, o estudo mostra mudanças positivas na trajetória educacional da população brasileira.
Entre os jovens adultos de 25 a 34 anos, a parcela que não concluiu o ensino médio caiu de 35% em 2016 para 26% em 2024. O movimento indica aumento da permanência escolar entre as novas gerações.
Também houve redução na proporção de jovens que não estudam nem trabalham. Esse grupo, conhecido pela sigla NEET, apresentou queda ao longo do período analisado, embora continue representando uma parcela relevante da população jovem.
O avanço da escolarização é importante porque o próprio relatório da OCDE relaciona níveis mais elevados de formação a melhores resultados no mercado de trabalho. No Brasil, adultos com ensino superior apresentam uma vantagem de rendimento particularmente elevada em comparação com trabalhadores que possuem apenas ensino médio.
Ensino médio ainda concentra um desafio importante

A transição entre o ensino fundamental e o médio também aparece no levantamento.
No Brasil, 87% dos estudantes permanecem matriculados no ensino médio ou em outro programa educacional um ano depois da conclusão do ensino fundamental II. Outros 4% ainda estão repetindo o último ano dessa etapa, enquanto 8% não estão matriculados em uma modalidade formal de educação.
Para o estudante e sua família, esses números ajudam a dimensionar um problema que vai além da matrícula inicial: garantir que o jovem permaneça na escola e conclua a educação básica.
A permanência também está relacionada às condições oferecidas pelas escolas, à necessidade de conciliar estudo e trabalho e à capacidade das redes de manter os alunos envolvidos com a aprendizagem.
(Royalty-free/Getty Images)
