Quando os líderes mundiais chegam a Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas, existe uma tradição que chama a atenção: o Brasil costuma ser o primeiro país a discursar no Debate Geral. Em 2026, a prática foi novamente mantida, com Luiz Inácio Lula da Silva abrindo os pronunciamentos de chefes de Estado em 22 de setembro.
A escolha não está prevista como uma regra obrigatória da Carta da ONU. Trata-se de uma tradição diplomática consolidada ao longo de décadas, associada à participação histórica do Brasil na criação e nos primeiros anos de funcionamento da organização.
A própria ONU informa que o Brasil abre o Debate Geral desde 1955, quando ocorreu a 10ª sessão da Assembleia Geral. Depois do representante brasileiro, tradicionalmente fala o país-sede, os Estados Unidos.
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Como começou a tradição do Brasil na ONU

A origem da preferência brasileira está ligada ao período de formação da ONU e à atuação do diplomata Oswaldo Aranha.
O Brasil é membro fundador da organização, criada em 1945. Em 1947, Aranha presidiu a II Sessão da Assembleia Geral e também teve participação de destaque na delegação brasileira durante as discussões envolvendo a Palestina. A atuação ajudou a projetar o país dentro da nova estrutura multilateral.
A tradição de abrir o Debate Geral surgiu alguns anos depois. Segundo registros oficiais do governo brasileiro, a escolha do Brasil esteve relacionada ao contexto da Guerra Fria. Naquele período, a disputa entre Estados Unidos e União Soviética criava uma situação delicada sobre qual das duas grandes potências deveria iniciar os debates.
A solução foi colocar o Brasil nessa posição. Em vez de privilegiar uma das superpotências, a escolha recaía sobre um país que ocupava uma posição intermediária no cenário internacional.
A prática acabou se transformando em um costume diplomático. A ONU atualmente descreve a abertura brasileira como uma honraria concedida ao país, embora ressalve que ela não esteja formalizada como uma obrigação institucional.
Oswaldo Aranha teve papel importante
A trajetória de Oswaldo Aranha ajuda a entender por que o Brasil ganhou espaço dentro da organização desde seus primeiros anos.
Em 1947, ele representou o Brasil no Conselho de Segurança e presidiu a Assembleia Geral. Sua atuação ocorreu em um momento decisivo para a diplomacia internacional do pós-guerra, inclusive durante as discussões sobre a Palestina.
Esse histórico contribuiu para fortalecer a imagem do Brasil como participante ativo do sistema multilateral, contexto que ajudou a consolidar a posição especial do país nas cerimônias e debates da ONU.
Por que o Brasil continua abrindo os discursos?
A tradição sobreviveu às mudanças de governos e às diferentes orientações da política externa brasileira.
Desde 1955, o Brasil aparece na abertura do Debate Geral de forma recorrente. A ONU destaca que essa sequência não representa uma vantagem jurídica sobre os demais países, mas uma prática diplomática mantida ao longo das sessões.
O simbolismo, entretanto, é relevante. O primeiro discurso acontece quando a atenção internacional está concentrada na abertura da principal semana diplomática da organização.
Em 2026, o Debate Geral da 81ª sessão ocorre de 22 a 28 de setembro, reunindo representantes dos 193 Estados-membros. O tema escolhido é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Na prática, isso faz da fala brasileira uma oportunidade para apresentar prioridades de política externa diante de governos, diplomatas, organismos internacionais e imprensa de diversos países.
O que o primeiro discurso representa para o Brasil?
Ser o primeiro a falar não significa que o Brasil tenha autoridade superior dentro da Assembleia Geral. Cada um dos 193 Estados-membros possui direito a um voto, independentemente de seu tamanho ou poder econômico.
A importância está principalmente na visibilidade diplomática.
O discurso de abertura permite ao governo brasileiro apresentar sua interpretação sobre conflitos internacionais, desenvolvimento, meio ambiente, combate à fome, comércio, direitos humanos e funcionamento das instituições multilaterais.
Ao longo das décadas, presidentes brasileiros utilizaram a tribuna para tratar de diferentes temas conforme o cenário internacional e as prioridades de cada governo. Os próprios arquivos da ONU preservam discursos de presidentes brasileiros, mostrando como a posição do país diante dos principais assuntos globais mudou ao longo do tempo.
Brasil fala antes dos Estados Unidos
Outro aspecto que aumenta a visibilidade da tradição é a posição dos Estados Unidos logo depois do Brasil.
Como país anfitrião, os Estados Unidos tradicionalmente ocupam a segunda posição. A combinação faz com que a abertura brasileira ocorra diante de uma audiência internacional especialmente concentrada no início do Debate Geral.
A ordem, contudo, não é absolutamente imutável. Ao longo da história, houve alterações decorrentes de questões de agenda e circunstâncias específicas. O próprio governo brasileiro registra episódios em que os Estados Unidos falaram antes do Brasil.
A tradição ainda tem importância em 2026?

Sim, mas seu significado deve ser entendido principalmente no campo diplomático e simbólico.
A Assembleia Geral continua sendo o principal fórum da ONU para o debate multilateral entre os Estados-membros. Em 2026, líderes de quase 200 países participam da programação da chamada Semana de Alto Nível, em Nova York.
Nesse contexto, iniciar o Debate Geral mantém para o Brasil uma posição protocolar de destaque. A tradição permite que o país seja um dos primeiros a apresentar sua visão sobre os principais desafios internacionais de cada ano.
Mais do que uma simples formalidade, portanto, a abertura brasileira é resultado de uma combinação de fatores históricos: a participação do país na criação da ONU, a atuação de Oswaldo Aranha nos primeiros anos da organização e uma prática diplomática consolidada desde a década de 1950.
A posição permanece até hoje não por uma regra que obrigue a ONU a escolher o Brasil, mas porque uma tradição iniciada no contexto do pós-guerra foi incorporada ao funcionamento do Debate Geral e continua sendo preservada.
Foto: UN Photo/Cia Pak
