A possibilidade de enfrentar uma doença grave, uma invalidez ou a perda de um familiar está entre as principais preocupações dos brasileiros. Apesar disso, uma parcela significativa da população ainda não adotou medidas para proteger a renda ou organizar o futuro financeiro.
A diferença entre preocupação e planejamento foi um dos principais temas debatidos no XII Fórum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada, promovido pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi), em São Paulo.
O encontro reuniu representantes do setor financeiro, especialistas, integrantes do governo e órgãos reguladores para discutir os desafios da proteção financeira no país, incluindo seguro de vida, previdência complementar, mudanças no mercado de trabalho e envelhecimento da população.
Uma pesquisa realizada pela FenaPrevi em parceria com o Datafolha mostrou que muitos brasileiros reconhecem riscos futuros, mas ainda não transformaram essa preocupação em ações práticas de planejamento.
Leia mais:
Brasil abre 165,8 mil vagas com carteira assinada em agosto
Pesquisa revela distância entre preocupação e preparação financeira

A quarta edição da pesquisa FenaPrevi/Datafolha ouviu 1.908 brasileiros com 18 anos ou mais, em todas as regiões do país, em julho de 2026. O levantamento possui margem de erro máxima de dois pontos percentuais, considerando nível de confiança de 95%.
Os dados mostram que situações relacionadas à saúde e à perda de renda estão entre os maiores receios da população.
A falta de acesso a atendimento médico em caso de doença preocupa 72% dos entrevistados. Porém, apenas 28% afirmam ter tomado alguma medida de preparação para enfrentar esse tipo de situação.
A morte de um familiar aparece como preocupação para 70% das pessoas ouvidas. Nesse grupo, somente 22% dizem ter adotado alguma iniciativa de proteção.
Já uma doença grave preocupa 63% dos brasileiros, enquanto 34% afirmam ter realizado algum planejamento para lidar com esse risco.
A pesquisa indica que existe uma percepção sobre a necessidade de proteção, mas nem sempre ela se transforma em contratação de produtos financeiros ou seguros.
Quantos brasileiros possuem seguro ou previdência privada?
Segundo o levantamento, 41% dos entrevistados afirmam possuir algum tipo de seguro ou plano de previdência privada.
Entre os produtos citados, o seguro funeral aparece como o mais comum, mencionado por 30% dos participantes. O seguro de vida foi citado por 18%, enquanto a previdência privada aparece em 9% das respostas.
Para representantes do setor, a baixa adesão está relacionada a diferentes fatores, como falta de informação, dificuldade de planejamento financeiro e desconhecimento sobre os produtos disponíveis.
O presidente da FenaPrevi e CEO da Zurich Brasil, Edson Franco, afirmou durante o evento que a questão não envolve apenas renda disponível, mas também educação financeira e conhecimento sobre alternativas de proteção.
Segundo ele, muitas pessoas se preocupam com determinados riscos, mas não sabem quais soluções existem para cada necessidade.
Por que muitos brasileiros deixam o seguro para depois?
Um dos obstáculos apontados pela pesquisa é a percepção de que seguros e planos de proteção têm custo elevado.
Entre os entrevistados que não possuem seguro de vida e consideram o produto caro, 45% disseram não saber quanto ele realmente custa. Além disso, apenas 10% afirmaram já ter feito uma cotação.
O resultado indica que parte da população pode formar uma opinião sobre o preço sem conhecer valores ou opções disponíveis no mercado.
O seguro de vida, por exemplo, pode apresentar diferentes modalidades, com coberturas e valores variados conforme idade, perfil, necessidades e condições contratadas.
Além da proteção em caso de morte, alguns produtos podem incluir coberturas relacionadas a invalidez, doenças graves ou afastamento temporário das atividades profissionais.
Autônomos e trabalhadores por conta própria enfrentam novos desafios
O crescimento do trabalho independente também foi discutido durante o fórum.
Profissionais autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e trabalhadores que atuam por plataformas digitais dependem diretamente da própria capacidade de trabalhar para manter a renda.
Para esse grupo, um acidente ou uma doença pode representar uma interrupção imediata dos ganhos.
Durante os debates, especialistas defenderam que produtos de proteção precisam acompanhar as mudanças no mercado de trabalho, com soluções mais simples, acessíveis e adaptadas a diferentes perfis.
Entre as possibilidades discutidas estão coberturas voltadas para perda temporária de renda e modelos de contratação integrados a plataformas digitais.
Seguro de vida universal entra no debate do mercado brasileiro
Outro tema abordado no encontro foi o seguro de vida universal, modalidade já utilizada em outros países e que está em discussão no mercado brasileiro.
O produto busca oferecer maior flexibilidade ao longo da vida do segurado, permitindo adaptações conforme mudanças financeiras e familiares.
O painel sobre o tema contou com representantes do Ministério da Fazenda, da Superintendência de Seguros Privados (Susep) e empresas do setor.
A discussão envolveu as possibilidades de expansão desse tipo de produto e os desafios regulatórios para sua implementação no Brasil.
Corretores terão papel maior na orientação dos consumidores
A ampliação do acesso aos seguros também passa pela preparação dos profissionais responsáveis pela distribuição desses produtos.
Durante o painel sobre desafios da distribuição, representantes de seguradoras e corretores discutiram temas como tecnologia, especialização profissional e atendimento personalizado.
Bernardo Castello, primeiro vice-presidente da FenaPrevi e diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência, afirmou que o trabalho dos corretores exige conhecimento além das coberturas tradicionais.
Segundo ele, esses profissionais precisam compreender temas como tributação, legislação, Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) e mudanças tributárias para orientar melhor os clientes.
Previdência privada empresarial aparece como alternativa para o futuro
A previdência complementar também esteve entre os assuntos centrais do evento.
Representantes do setor discutiram a participação das empresas na formação de reservas financeiras dos trabalhadores.
Segundo dados apresentados durante o fórum, os planos corporativos ainda representam uma parcela pequena dos ativos da previdência privada aberta no Brasil.
Especialistas citaram experiências internacionais em que empresas participam mais diretamente da construção da aposentadoria dos funcionários.
Um dos exemplos mencionados foi o modelo de adesão automática utilizado no Reino Unido, conhecido como “auto enrollment”, no qual trabalhadores são incluídos inicialmente em planos previdenciários, podendo optar pela saída.
Brasileiros querem se aposentar cedo, mas muitos não sabem quanto receberão
O planejamento da aposentadoria foi outro ponto de destaque.
A pesquisa FenaPrevi/Datafolha mostra que 59% dos brasileiros que ainda trabalham gostariam de se aposentar até os 60 anos.
Entretanto, apenas 28% acreditam que conseguirão atingir esse objetivo.
Outros 32% estimam que continuarão trabalhando depois dos 61 anos.
Entre os entrevistados que ainda não se aposentaram e pretendem depender do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), 65% afirmaram não saber qual será o valor recebido quando deixarem o mercado de trabalho.
O dado reforça uma dificuldade comum: muitas pessoas pensam na aposentadoria como um evento distante, mas não acompanham quanto precisarão acumular para manter o padrão de vida desejado.
Envelhecimento da população aumenta desafio da proteção financeira
O aumento da expectativa de vida também esteve no centro das discussões.
Com mais pessoas vivendo por períodos maiores, crescem os desafios relacionados ao financiamento da aposentadoria, aos gastos com saúde e aos cuidados necessários durante a velhice.
Especialistas destacaram que a longevidade exige mudanças na forma como brasileiros, empresas e governo pensam o planejamento financeiro.
Além disso, novas formas de trabalho podem alterar a relação tradicional entre emprego formal, contribuição previdenciária e benefícios futuros.
FenaPrevi cria prêmio para incentivar educação securitária
Durante o encerramento do fórum, a FenaPrevi anunciou o lançamento do Prêmio FenaPrevi Multiplica, iniciativa voltada ao reconhecimento de projetos relacionados à educação securitária e previdenciária.
A primeira edição irá selecionar três iniciativas já em funcionamento que apresentem resultados e impacto.
Podem participar projetos de comunicação, educação, engajamento e produção acadêmica.
A avaliação será realizada por um comitê independente, e a cerimônia de premiação está prevista para o início de 2027.
O que o brasileiro pode fazer para melhorar sua proteção financeira?

Especialistas defendem que o primeiro passo é identificar quais riscos podem comprometer a renda e quais objetivos precisam ser protegidos.
Algumas medidas práticas incluem:
- organizar o orçamento mensal;
- criar uma reserva financeira para emergências;
- conhecer as regras da aposentadoria;
- avaliar seguros compatíveis com a própria realidade;
- comparar coberturas antes de contratar produtos financeiros;
- revisar periodicamente o planejamento conforme mudanças familiares e profissionais.
A proteção financeira não depende apenas da contratação de um produto específico, mas de uma estratégia construída de acordo com cada fase da vida.
Conclusão
A pesquisa mostra que muitos brasileiros reconhecem os riscos que podem afetar a renda e o futuro financeiro, mas ainda existe uma diferença entre preocupação e planejamento. Com o aumento da longevidade e as mudanças no mercado de trabalho, organizar a proteção financeira se torna uma medida cada vez mais relevante.
Avaliar seguros, previdência privada e outras formas de planejamento pode ajudar famílias e trabalhadores a enfrentar imprevistos com mais segurança e previsibilidade.
