A relação dos brasileiros com a inteligência artificial (IA) está deixando de ser apenas funcional. Uma pesquisa apresentada pela CNN Brasil em parceria com o Instituto Locomotiva mostra que parte significativa da população já recorre aos sistemas de IA para conversar, desabafar e buscar compreensão emocional.
Os resultados indicam uma mudança no comportamento dos usuários: aquilo que começou com pedidos de receitas, textos, planilhas e outras tarefas práticas passou a ocupar também um espaço mais pessoal. O fenômeno chama atenção porque levanta questões sobre dependência emocional, relações humanas e os limites do uso de chatbots como companhia.
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Pesquisa mostra mudança na relação com a inteligência artificial

Segundo os dados apresentados no quadro semanal Prompt CNN, com participação do neurocientista e sócio do Instituto Locomotiva Álvaro Machado, 58% dos brasileiros entrevistados afirmaram já ter se sentido mais compreendidos pela IA do que por outras pessoas.
Outro dado chama atenção: quase um terço dos participantes disse já ter chorado durante uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial. Além disso, 40% afirmaram preferir conversar com a IA do que com outras pessoas.
Os números sugerem que os chatbots passaram a desempenhar uma função que vai além da produtividade. Para alguns usuários, a tecnologia tornou-se um espaço de conversa disponível a qualquer momento e sem o receio de julgamento ou rejeição.
Machado explicou que essa transformação ocorreu de maneira gradual. No início, a relação com a tecnologia era predominantemente transacional, voltada para tarefas objetivas. Com a evolução dos sistemas conversacionais, porém, as interações ficaram mais naturais e passaram a envolver aspectos emocionais.
Por que as pessoas procuram a IA para conversar?
Uma das características que pode explicar esse comportamento é a disponibilidade permanente dos sistemas de inteligência artificial.
Um chatbot não precisa estar de bom humor, não fica ocupado e pode responder imediatamente a uma mensagem. Para quem está passando por um momento de solidão ou simplesmente deseja organizar os próprios pensamentos, essa facilidade pode tornar a ferramenta atraente.
Existe ainda outra diferença em relação às relações humanas: a interação com a IA não exige reciprocidade da mesma maneira.
O usuário pode falar durante vários minutos sobre um problema pessoal e receber uma resposta direcionada ao assunto. Não é necessário administrar as emoções, preocupações ou necessidades de outra pessoa durante aquela conversa.
É justamente esse aspecto que especialistas apontam como um dos pontos que merecem atenção.
Jovens aparecem entre os grupos mais envolvidos
A pesquisa também identificou diferenças no comportamento de homens e mulheres. Mais mulheres relataram ter chorado durante conversas com a IA e afirmaram sentir-se compreendidas pela tecnologia.
Entre os homens, por outro lado, apareceu com maior frequência a preferência por conversar com a inteligência artificial em vez de outras pessoas.
Os jovens também se destacaram por apresentar maior tendência a considerar a IA uma espécie de confidente.
A interpretação desses números exige cuidado. Procurar uma ferramenta de IA para conversar não significa, por si só, que uma pessoa esteja desenvolvendo dependência. O problema começa a ganhar outra dimensão quando a tecnologia passa a substituir sistematicamente contatos sociais, amizades, relacionamentos ou outras formas de apoio.
Qual é o risco de criar dependência emocional da IA?
A principal preocupação não está necessariamente em conversar com um chatbot, mas na possibilidade de estabelecer uma relação de dependência.
Sistemas de IA são desenvolvidos para responder aos comandos do usuário e manter uma interação coerente. Eles podem demonstrar empatia por meio da linguagem, mas não possuem sentimentos humanos.
Isso cria uma diferença fundamental em comparação com uma relação entre duas pessoas.
Uma amizade ou relacionamento exige negociação, reciprocidade, limites e capacidade de lidar com discordâncias. Uma inteligência artificial, por outro lado, pode ser programada para responder de maneira acolhedora e adaptar a conversa ao usuário.
Essa experiência pode ser confortável, mas também pode criar expectativas diferentes sobre as relações humanas.
Como explicou Álvaro Machado na análise apresentada pela CNN, a facilidade de obter respostas sem precisar oferecer algo em troca pode estimular uma relação mais centrada exclusivamente nas necessidades do usuário.
China criou regras para limitar os chamados “namorados de IA”
O debate já ultrapassou a esfera acadêmica e chegou à regulamentação. Em julho de 2026, a China colocou em vigor regras específicas para serviços de inteligência artificial que simulam relações e interações humanas prolongadas.
A regulamentação mira especialmente os chamados “namorados” ou “namoradas de IA”, sistemas criados para funcionar como companheiros virtuais.
As regras determinam que as plataformas adotem mecanismos para identificar sinais de sofrimento emocional, limitar o uso excessivo e intervir em situações de crise. Também proíbem comportamentos que possam estimular dependência emocional ou prejudicar os relacionamentos reais dos usuários.
As normas abrangem interações realizadas por texto, áudio, vídeo e outros formatos quando existe uma relação emocional continuada entre usuário e sistema.
Ferramentas utilizadas para tarefas como atendimento ao consumidor, estudos ou atividades profissionais, sem interação emocional, não são o principal alvo da regulamentação.
Empresas chinesas já suspenderam recursos de companhia virtual
A regulamentação chinesa teve impacto direto sobre grandes empresas de tecnologia.
Plataformas associadas a empresas como ByteDance, Alibaba e Tencent suspenderam ou modificaram recursos destinados à criação de companheiros virtuais antes mesmo da entrada das novas regras em vigor.
A preocupação não surgiu do nada. O mercado de personagens digitais e serviços de companhia baseados em IA cresceu rapidamente no país. Dados citados pela CNN Brasil apontam que o mercado chinês de “humanos digitais” movimentou 4,1 bilhões de yuans em 2024, com projeção de crescimento anual expressivo.
A popularização também levou usuários a desenvolver relações prolongadas com personagens virtuais. Reportagens sobre o fenômeno mostram pessoas tratando esses sistemas como parceiros, confidentes ou companheiros cotidianos.
A China teme que a IA substitua relações humanas?
A discussão chinesa envolve mais do que tecnologia.
As autoridades demonstraram preocupação com os efeitos da exposição prolongada a sistemas que oferecem companhia personalizada. Entre os riscos apontados estão o afastamento dos círculos sociais, a perda de habilidades de convivência e dificuldades relacionadas à empatia e à resolução de conflitos.
Também existe um contexto demográfico mais amplo. A China enfrenta uma queda prolongada da natalidade e um processo de envelhecimento populacional, enquanto relacionamentos virtuais começam a ganhar espaço entre parte dos jovens.
Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, a partir de material do The New York Times, mostrou casos de jovens chinesas que passaram a utilizar companheiros de IA como alternativa ou complemento às relações presenciais.
Isso não significa que a inteligência artificial seja responsável pela queda dos relacionamentos ou da natalidade. O fenômeno é muito mais amplo e envolve fatores econômicos, culturais e sociais. A tecnologia, porém, passou a fazer parte dessa discussão.
Conversar com IA é necessariamente um problema?
Não.
Usar uma ferramenta de inteligência artificial para organizar pensamentos, conversar ocasionalmente ou buscar informações não significa automaticamente desenvolver dependência.
A questão está na função que a tecnologia ocupa na vida do usuário.
Uma pessoa que utiliza a IA eventualmente para desabafar pode continuar mantendo amizades, relacionamentos familiares e vida social normalmente. Já uma situação em que o usuário passa a evitar pessoas reais, abandona atividades sociais ou sente que só consegue conversar com a IA merece mais atenção.
Outro ponto é que respostas produzidas por chatbots não substituem avaliação profissional em situações relacionadas à saúde mental. Uma IA pode ajudar a organizar informações ou sugerir caminhos, mas não possui a mesma responsabilidade e capacidade de avaliação de um profissional qualificado.
O que pode acontecer nos próximos anos?

A tendência é que a discussão sobre inteligência artificial e vínculos emocionais fique ainda mais relevante à medida que os sistemas se tornem capazes de manter conversas mais longas, lembrar informações sobre o usuário e adaptar sua personalidade ao longo do tempo.
O desafio será estabelecer uma fronteira entre companhia tecnológica e substituição das relações humanas.
A experiência chinesa mostra uma das primeiras tentativas de criar regras específicas para esse tipo de interação. Outros países também deverão enfrentar debates sobre privacidade, proteção de menores, saúde mental e responsabilidade das empresas que desenvolvem sistemas de companhia artificial.
Para o usuário, a principal questão não é simplesmente deixar de conversar com uma IA. É compreender que uma resposta acolhedora produzida por um algoritmo não equivale à reciprocidade de uma relação humana.
Conclusão
A pesquisa apresentada pela CNN Brasil mostra que a inteligência artificial já ocupa um espaço emocional na vida de uma parcela dos brasileiros. O fato de 58% dos entrevistados dizerem que já se sentiram mais compreendidos pela IA do que por outras pessoas revela uma mudança importante na forma como a tecnologia é utilizada.
O avanço dos chamados companheiros virtuais também fez governos começarem a discutir limites. Na China, novas regras passaram a exigir mecanismos contra dependência emocional e uso excessivo em sistemas que simulam relações humanas.
O debate, portanto, não é apenas sobre o que a inteligência artificial consegue fazer, mas sobre o lugar que as pessoas estão permitindo que ela ocupe em suas vidas. A tecnologia pode ser uma ferramenta útil para conversar e organizar pensamentos, mas a manutenção de vínculos humanos continua sendo um elemento central para a vida social.
