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Renda baixa obriga trabalhadores a migrar para PJ ou MEI

Milhões de brasileiros estão deixando a CLT e migrando para PJ ou MEI não por escolha, mas por salários baixos e condições precárias.

Bruna MachadoPor Bruna Machado6 min de leitura
Simples Nacional

Nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro vem passando por uma transformação profunda. O que antes era visto como uma escolha de empreender ou conquistar autonomia profissional, agora se apresenta como uma necessidade de sobrevivência.

Milhões de trabalhadores estão migrando para o regime de Pessoa Jurídica (PJ) ou se registrando como Microempreendedor Individual (MEI) não por desejo de empreender, mas porque os salários baixos, as jornadas exaustivas e as condições precárias os forçam a buscar alternativas.

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Dados que revelam a realidade

Imagem: Freepik e Canva

Pesquisas recentes ajudam a dimensionar o tamanho do fenômeno:

  • Um levantamento do Datafolha mostra que 59% dos brasileiros preferem trabalhar por conta própria, contra 39% que se sentem mais confortáveis como empregados.
  • Desde 2022, o número de pessoas que consideram mais importante ganhar mais do que ter registro formal subiu de 21% para 31%.
  • Estudo do Instituto Locomotiva, com 1.503 paulistas entre 18 e 59 anos, revela que 63% consideram o trabalho formal pouco flexível para conciliar vida pessoal e profissional.
  • Ainda nessa pesquisa, 58% disseram que escolheriam trabalhar por conta própria se pudessem.

Esses números indicam uma mudança de percepção: a carteira assinada já não é sinônimo de segurança e estabilidade para grande parte da população.


O peso da precariedade salarial

A principal causa da migração para o trabalho informal ou autônomo está no baixo poder de compra do salário formal.

Em São Paulo, por exemplo, o custo médio de uma alimentação adequada chega a R$ 800 por mês, quase metade do salário líquido de quem recebe R$ 1.700. Quando somadas despesas como aluguel, transporte, energia e saúde, fica claro que o salário de muitos trabalhadores não cobre necessidades básicas.

Diante desse cenário, abrir um MEI ou aceitar contratos como PJ torna-se muitas vezes a única forma de garantir renda suficiente para sustentar a família.


A dimensão da informalidade no Brasil

O impacto dessa transformação é gigantesco e preocupante. Em 2024, os dados mostraram que:

  • 38,8% da população ocupada estava sem vínculo formal — cerca de 40 milhões de trabalhadores;
  • No setor privado, 26,6% trabalhavam sem carteira assinada;
  • O crescimento do número de MEIs ultrapassou 15 milhões de registros ativos, reflexo direto da falta de vagas formais dignas.

Essa realidade fragiliza não apenas os trabalhadores individualmente, mas também a Previdência Social, que perde arrecadação, e todo o sistema de proteção trabalhista, que depende do vínculo formal para funcionar.


CLT versus PJ: mito e realidade

O mito da liberdade

Muitos defendem que trabalhar como PJ ou MEI dá mais liberdade e autonomia. Porém, na prática, boa parte desses trabalhadores enfrentam jornadas ainda mais longas e instabilidade de renda.

A realidade da exploração

Empresas têm utilizado o modelo PJ para reduzir custos trabalhistas, mas na prática o que ocorre é:

  • Ausência de direitos como férias, 13º salário e FGTS;
  • Menor contribuição para a Previdência;
  • Maior insegurança em caso de doença, gravidez ou acidentes de trabalho.

Não é a CLT que está sendo rejeitada, mas sim as condições precárias oferecidas sob sua aplicação parcial ou distorcida.


O abuso do banco de horas e as jornadas exaustivas

Outro fator que empurra trabalhadores para fora do regime formal são as práticas abusivas, como o uso irregular do banco de horas.

A CLT prevê que as horas extras sejam compensadas em até 12 meses, mas relatos de funcionários de lojas de varejo e supermercados apontam:

  • Jornadas de 10 a 12 horas diárias;
  • Falta de pagamento adicional pelas horas excedentes;
  • Compensações que nunca acontecem na prática;
  • Acúmulo de funções sem reajuste salarial.

Essa sobrecarga faz com que muitos trabalhadores saiam do expediente em fábricas ou lojas e complementem a renda à noite como motoristas de aplicativo, sacrificando saúde, lazer e vida familiar.


Impactos sociais e econômicos da migração

A migração em massa da CLT para PJ e MEI gera efeitos que vão além da vida individual do trabalhador:

Enfraquecimento da Previdência

Com menos trabalhadores contribuindo, a Previdência perde recursos, ameaçando o pagamento futuro de aposentadorias e benefícios.

Redução da arrecadação tributária

Menor formalização significa menos impostos pagos, prejudicando o orçamento público.

Aumento da desigualdade

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Enquanto alguns poucos conseguem sucesso como autônomos, a maioria enfrenta instabilidade e falta de proteção, ampliando o abismo social.


O papel essencial dos sindicatos

Nesse contexto, o fortalecimento dos sindicatos é fundamental. São essas entidades que:

  • Negociam reajustes salariais dignos;
  • Defendem a redução da jornada de trabalho;
  • Garantem melhores condições de saúde e segurança;
  • Lutam contra abusos como o banco de horas irregular.

Ao contrário do que muitas vezes é propagado, os sindicatos não são inimigos do trabalhador, mas sim instrumentos coletivos de proteção e conquista de direitos.


Caminhos para valorizar o trabalho no Brasil

Especialistas apontam que a solução não está em enfraquecer a CLT ou estimular a pejotização indiscriminada, mas em reconstruir o valor do trabalho formal.

Medidas necessárias

  • Reajuste real do salário mínimo, acompanhando o custo de vida;
  • Fiscalização rigorosa contra abusos trabalhistas;
  • Políticas de incentivo à formalização com redução da carga tributária para pequenas empresas;
  • Educação financeira e profissional, ajudando trabalhadores a se preparar para mudanças no mercado.

O futuro do trabalho: escolha ou imposição?

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Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

O avanço da tecnologia e o crescimento de plataformas digitais ampliam as formas de trabalho autônomo. No entanto, é preciso separar escolha de imposição.

Enquanto alguns de fato desejam empreender e encontram no MEI ou PJ uma oportunidade, milhões o fazem porque não encontram empregos formais que assegurem uma vida digna.

Essa diferença é crucial para entender a precarização atual e propor soluções que tragam equilíbrio entre inovação e proteção social.


Considerações finais

A migração de milhões de brasileiros da CLT para PJ ou MEI não é fruto de uma onda empreendedora, mas sim da necessidade imposta por salários insuficientes, jornadas abusivas e falta de proteção real no mercado formal.

Com 38,8% da população ocupada sem vínculo formal e mais de 40 milhões de trabalhadores em situação precária, o desafio é enorme. Mas a resposta passa por valorizar a CLT, fortalecer sindicatos, modernizar políticas públicas e oferecer ao trabalhador salário digno, jornada justa e condições de respeito.

Se essas condições forem garantidas, poucos optariam por abandonar a carteira assinada — e o trabalho no Brasil poderia ser sinônimo de dignidade, e não de sobrevivência.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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