Durante a 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro em 6 e 07/07/2025, os países membros deram novos passos rumo à criação de um sistema próprio de pagamentos.
O encontro, que reuniu ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais, resultou em um comunicado conjunto que destacou os avanços obtidos até agora e os desafios que ainda precisam ser superados para consolidar uma estrutura financeira mais independente e integrada entre as nações participantes.
Interoperabilidade entre sistemas de pagamento

Leia mais: Brics sob influência da China: bloco vira frente contra o Ocidente
O que está em jogo?
O principal objetivo é criar um sistema de pagamentos transfronteiriços que seja rápido, eficiente e operável entre diferentes plataformas nacionais. O documento final da cúpula menciona o “progresso alcançado pela Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS” na identificação de caminhos possíveis para essa interoperabilidade.
Embora os detalhes técnicos ainda não tenham sido divulgados, a prioridade está na redução de custos, ampliação do acesso e aumento da segurança nas transações.
Relatório do Banco Central do Brasil
O Brasil teve papel de destaque nesse processo. O Banco Central elaborou um relatório chamado “Sistema de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS”, que delineia as preferências e requisitos dos países para o novo modelo. O documento serve como base para a construção do sistema e defende soluções tecnológicas que atendam às particularidades de cada economia.
Fortalecimento das moedas locais
Menor dependência do dólar
Um dos eixos centrais da proposta é estimular o uso de moedas locais nas operações entre países do bloco. Isso reduziria a exposição cambial e os custos operacionais, além de tornar os países menos vulneráveis a sanções unilaterais e variações abruptas do dólar.
Potencial para expansão do comércio
Segundo o comunicado final da reunião, um sistema alternativo de pagamentos sustentaria maiores fluxos comerciais e de investimento entre os países membros. A interligação direta entre moedas deve favorecer a formação de cadeias produtivas mais integradas e reduzir barreiras para pequenas e médias empresas.
Acordo de Reservas Contingentes será ampliado
Revisão para incluir novas moedas
Outro ponto debatido foi a revisão do ARC, um mecanismo de ajuda financeira mútua criado em 2014. O objetivo agora é incorporar novas moedas ao acordo, tornando-o mais flexível e eficaz para enfrentar crises externas.
Após a conclusão da revisão, os países deverão realizar consultas internas. Uma nova reunião no segundo semestre debaterá a adesão dos membros recém-integrados ao mecanismo.
Instrumento de estabilidade regional
Com a revisão, o ARC tende a se tornar um instrumento mais representativo e robusto para garantir liquidez entre os países do Sul Global. Isso reduz a dependência de instituições multilaterais tradicionais e reforça a autonomia financeira do bloco.
Transição ecológica ganha atenção
Linha de garantia multilateral
Em consonância com a agenda climática, os membros do BRICS iniciaram discussões para criar uma linha de garantia multilateral. O NBD, também chamado de Banco dos BRICS, ficará responsável pela criação do novo mecanismo, que não exigirá novos aportes financeiros dos países membros.
A proposta se baseia no uso de garantias como forma de reduzir riscos nas operações, o que pode estimular a entrada de investimentos privados em projetos voltados à sustentabilidade.
O BRICS em números
Representatividade global
Com 11 países-membros permanentes, o BRICS representa hoje:
- 39% do PIB mundial
- 48,5% da população global
- 23% do comércio internacional
Em 2024, os países do BRICS foram responsáveis por 36% das exportações brasileiras e por 34% das importações do país.
Desafios e próximos passos

Obstáculos à implementação
Apesar dos avanços, ainda há obstáculos importantes. Entre os principais desafios estão a harmonização jurídica, a estabilidade política, as diferenças cambiais, além da desigualdade no nível de desenvolvimento e infraestrutura financeira dos países do bloco.
FAQ – Perguntas frequentes
O sistema já está em funcionamento?
Não. As negociações estão em andamento. O relatório do Banco Central do Brasil servirá como base para os próximos passos.
O que é o Acordo de Reservas Contingentes?
Um mecanismo de auxílio financeiro mútuo, criado em 2014, que visa oferecer liquidez aos países membros em momentos de crise cambial.
Considerações finais
A criação de um sistema próprio de pagamento entre os países do BRICS representa um passo importante rumo à reconfiguração da ordem financeira global. Se implementado com sucesso, o projeto poderá fortalecer as economias emergentes, ampliar o comércio Sul-Sul e reduzir vulnerabilidades frente às pressões do mercado internacional. A próxima presidência da Índia em 2026 será decisiva para consolidar esse caminho.
