Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Café brasileiro rende US$ 43 à indústria dos EUA para cada dólar exportado

Brasil exporta café que gera 43 vezes mais valor à indústria dos EUA. Governo tenta reverter tarifa de Trump antes de 1º de agosto.

Bianca BorgesPor Bianca Borges6 min de leitura
Café pilão

“Para cada dólar exportado pelo Brasil, são gerados US$ 43 na indústria americana.” A declaração do presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Márcio Ferreira, feita nesta terça-feira (15), revela a profunda dependência da cadeia produtiva dos Estados Unidos do café brasileiro.

A fala ocorre em um momento crítico: o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a aplicação de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, incluindo o café, com entrada em vigor prevista para 1º de agosto de 2025.

A decisão, considerada política e comercialmente arriscada, mobilizou o governo brasileiro e o setor produtivo.

Leia mais:

Devolve ICMS: pagamento seguinte será feito em 31 de julho; confira detalhes

Saque do FGTS pelo app disponível por três meses; veja o passo a passo

Por que o café brasileiro é vital para os EUA

café
Imagem: Bilahata-Freepik/Edição: Seu Crédito Digital

Um insumo essencial, não concorrencial

O café não é produzido em larga escala nos Estados Unidos. Por razões climáticas e geográficas, o país depende da importação para abastecer desde o consumo doméstico até uma robusta indústria de processamento, torrefação e distribuição.

Segundo o Cecafé, o Brasil é o maior exportador mundial de café e fornece cerca de 30% do que é consumido no mercado norte-americano.

Os grãos brasileiros, reconhecidos pelo sabor doce, corpo encorpado e aroma único, são considerados matéria-prima essencial para marcas como Starbucks, Nestlé, Dunkin’ e uma infinidade de cafeterias artesanais e industriais.

“É extremamente inflacionário para a população americana”, afirmou Ferreira. “Café não é produzido nos EUA, então não concorre contra o agro americano.” A tarifa, portanto, afeta diretamente o bolso do consumidor e o custo operacional das empresas.

De grão a lucro: a cadeia de valor nos EUA

O valor do café se multiplica nos Estados Unidos graças à sua transformação em diversos produtos de valor agregado. De acordo com dados do setor, um quilo de café exportado a US$ 5 pode resultar em mais de US$ 200 após torrefação, envase, marketing e comercialização.

O setor de bebidas prontas, cápsulas, cafés especiais, blends premium e até cosméticos com extrato de café movimenta bilhões no varejo americano. E todo esse ecossistema começa com o grão brasileiro.

O impacto político e econômico da tarifa de Trump

A justificativa controversa

A carta enviada por Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 9 de julho pegou o governo brasileiro de surpresa.

O republicano justificou a medida como uma retaliação à ação penal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) e também citou o alegado déficit comercial dos EUA com o Brasil.

Especialistas classificam a justificativa como frágil. “O Brasil não tem superávit estrutural com os EUA, e retaliações tarifárias sem base na OMC podem gerar instabilidade global”, diz o economista internacional Maurício Santoro.

O risco de efeito dominó

A medida pode abrir precedentes para outros países seguirem o mesmo caminho, afetando setores estratégicos da economia brasileira, como o agronegócio, a indústria química e a produção de software.

Além disso, a retaliação americana ocorre em um contexto global de incertezas geopolíticas e riscos climáticos, em que a previsibilidade comercial é um bem valioso.

Estratégia brasileira: diálogo sem submissão

Alckmin aposta no canal diplomático

O vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, afirmou que o Brasil não pretende pedir o adiamento da tarifa, mas sim negociar para que a medida sequer entre em vigor.

“A ideia do governo não é pedir que o prazo seja estendido, mas sim procurar resolver até o dia 31. O governo vai trabalhar para resolver nos próximos dias”, disse.

A estratégia do Planalto inclui reuniões com representantes do setor privado norte-americano, que também se posicionam contra a taxação. A Câmara de Comércio Americana já manifestou preocupação com os impactos negativos da medida para o consumidor e para os próprios negócios norte-americanos.

Pressão empresarial pede cautela

Empresários brasileiros pediram que o governo só acione medidas de reciprocidade, como retaliações tarifárias, após exaurir o caminho do diálogo. O objetivo é evitar uma escalada que possa prejudicar ainda mais as exportações nacionais.

Setores como o de frutas, carnes, soja e insumos perecíveis também participaram de reuniões com o governo nesta semana. A preocupação é que cargas já embarcadas possam ser afetadas pela nova tarifa, gerando prejuízos logísticos e financeiros.

Café como ativo diplomático

O grão como símbolo da diplomacia comercial

O café não é apenas um produto de exportação: ele é parte da cultura nacional e um dos ativos mais antigos da diplomacia brasileira. Desde o século XIX, o café foi responsável por abrir mercados, estreitar laços e criar oportunidades de desenvolvimento.

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Atualmente, o Brasil exporta café para mais de 120 países, movimentando cerca de US$ 6 bilhões anuais. Nos EUA, esse valor se multiplica em até 43 vezes, o que mostra a assimetria do impacto entre os dois lados.

“Estamos oferecendo um produto essencial, de alta qualidade e que beneficia mais o parceiro do que a nós mesmos. É um caso claro de ganha-ganha — e não de rivalidade”, avalia Márcio Ferreira, do Cecafé.

Caminhos possíveis para o acordo

Apoio do setor privado americano

Empresas de alimentos, redes de cafeterias, torrefadoras e distribuidores devem pressionar o Congresso dos EUA e a Casa Branca contra a tarifa. A expectativa é que a manifestação desses grupos tenha mais peso do que o discurso político isolado.

Solução via OMC?

Apesar do desgaste, uma alternativa ainda está sobre a mesa: a Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil pode recorrer ao organismo para contestar a legalidade da tarifa, alegando quebra de acordos multilaterais.

No entanto, esse é um processo demorado e, muitas vezes, ineficaz na prática, dada a crise institucional da OMC nos últimos anos.

O futuro do café brasileiro

arroz e café
Imagem: Fabio Balbi / shutterstock.com

Competitividade ameaçada?

Com a tarifa, o café brasileiro pode perder competitividade para grãos de países como Vietnã, Colômbia e Etiópia. Mesmo que não tenham o mesmo perfil sensorial do café nacional, esses países podem oferecer alternativas mais baratas no curto prazo.

Riscos ao emprego e ao campo

Mais de 8 milhões de pessoas estão ligadas direta ou indiretamente à cadeia do café no Brasil. A redução nas exportações pode impactar empregos no campo, nas cooperativas, no transporte e na indústria.

Conclusão: o grão que conecta dois gigantes

O café brasileiro não é apenas uma commodity: é uma ponte entre economias, culturas e sociedades.

O anúncio da tarifa de 50% pelos Estados Unidos escancara o quanto o grão nacional está entranhado na economia americana — e o quanto decisões políticas podem gerar efeitos em cascata para além das fronteiras.

Enquanto o governo brasileiro aposta no diálogo e o setor privado pressiona por bom senso, os próximos dias serão decisivos. Até 31 de julho, a diplomacia do café estará em sua torra máxima.

Bianca Borges

Autor

Bianca Borges

Bianca Borges é estudante de Publicidade e desenvolvedora em formação, com paixão por cultura pop, tecnologia e universos geek. Fã de Star Wars, DC Comics, RPG e The Walking Dead, ela traz sua visão criativa e analítica para o time do Seu Crédito Digital, colaborando na produção de conteúdos relevantes sobre consumo, serviços públicos e finanças do dia a dia. Com estilo descontraído e foco em clareza, Bianca ajuda leitores a entender temas complexos com leveza e precisão.

Topicos relacionados