O café, símbolo nacional e um dos produtos brasileiros mais conhecidos no exterior, voltou ao centro das atenções após a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre a importação do grão brasileiro.
Café como moeda de troca no Brasil: da política do café com leite ao tarifaço
Entenda a trajetória do café no Brasil, desde o auge econômico e político até o impacto do tarifaço imposto pelos EUA.
A medida, anunciada no último dia 6, carrega motivações políticas, mas também remete a um histórico secular do uso do café como instrumento econômico e diplomático. Desde o século XIX, a cafeicultura ocupa um lugar de destaque, moldando a economia, influenciando decisões políticas e até servindo de base para acordos estratégicos.
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O início de uma potência cafeeira

A trajetória do café no Brasil começa oficialmente em 1727, quando Francisco de Melo Palheta teria trazido sementes da Guiana Francesa. Embora essa seja a versão mais difundida, há registros que apontam para outras rotas de entrada, possivelmente via Nordeste.
Inicialmente cultivado no Norte, o grão encontrou no Sudeste condições ideais para prosperar, especialmente em São Paulo e Minas Gerais.
O ciclo do café e o crescimento nacional
Entre 1830 e 1930, o café deixou de ser apenas um produto agrícola para se tornar o pilar da economia brasileira. Nessa época, safras futuras eram usadas como garantia de empréstimos, e governos estaduais viam no produto a principal fonte de receita.
O ciclo cafeeiro foi tão forte que transformou São Paulo na metrópole industrial e financeira que conhecemos hoje, graças à infraestrutura construída para atender à exportação pelo Porto de Santos.
A política do café com leite
Durante a República Velha, o poder político alternava entre as oligarquias de São Paulo (produtora de café) e Minas Gerais (produtora de leite), em um arranjo conhecido como política do café com leite. Esse pacto consolidou o grão como força política e econômica, sustentando tanto as elites agrárias quanto o Estado brasileiro.
Como o café se tornou produto estratégico
Apesar de chegar ao Brasil no século XVIII, foi apenas na década de 1830 que o café assumiu protagonismo na economia nacional. O declínio da mineração e a demanda crescente nos mercados europeu e norte-americano abriram espaço para sua expansão.
Nos Estados Unidos, disputas comerciais com a Inglaterra levaram ao aumento do consumo de café em detrimento do chá, ampliando as exportações brasileiras. Na Europa, a bebida consolidou-se como hábito burguês, especialmente em Paris, onde cafés elegantes se tornaram pontos de encontro.
O domínio no mercado internacional
A qualidade e a abundância da produção brasileira garantiram ao país o posto de maior produtor e exportador mundial. Esse cenário se manteve por décadas, com bolsas de comercialização espalhadas pela Europa e América do Norte colocando o café brasileiro como referência global.
A crise e o fim da era de ouro

O crash da Bolsa de Nova York em 1929 expôs a vulnerabilidade da economia cafeeira. A superprodução e a queda nos preços internacionais levaram à falência de produtores e minaram a base econômica que sustentava a política do café com leite. Em 1930, a ascensão de Getúlio Vargas e o fim desse arranjo político marcaram o encerramento do ciclo de ouro do café.
O café no Ceará: auge e declínio
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Assim como no cenário nacional, o Ceará vivenciou seu próprio ciclo cafeeiro. Os primeiros registros datam de 1747, mas foi em 1822, na região de Baturité, que a cultura se consolidou, chegando a exportar para a França. Cafés cultivados à sombra ganharam fama internacional, e as moedas locais chegaram a ter lastro no grão. No entanto, a crise de 1930 também encerrou essa fase de prosperidade.
O café no Brasil do século XXI
Mesmo sem o peso econômico do passado, o café permanece relevante. O Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial, responsável por 38% da produção global. Em 2024/2025, a safra brasileira deve alcançar 66,3 milhões de sacas, mais que o dobro do Vietnã, segundo colocado. Os Estados Unidos seguem como principal comprador, movimentando mais de US$ 1,2 bilhão no primeiro semestre deste ano.
O impacto do tarifaço
A nova tarifa de 50% imposta pelos EUA preocupa produtores e exportadores brasileiros. Embora o setor já busque diversificar mercados — a China, por exemplo, abriu espaço para 183 novas empresas brasileiras —, a dependência de um comprador tão expressivo aumenta a vulnerabilidade.
A fragilidade da monocultura
Especialistas como Adalberto Alencar, da Fundação Cepema, alertam para o risco da dependência excessiva de monoculturas. Eventos como guerras, crises e medidas protecionistas podem causar prejuízos imediatos e de grande escala. Para ele, a solução está na diversificação da produção e na valorização do mercado interno, reduzindo a exposição a choques externos.
Com Informações de: Diário do Nordeste
Imagem: freedomnaruk/ Shutterstock

