O Nubank vive um dos momentos mais desafiadores desde sua consolidação como uma das maiores fintechs da América Latina. Apesar dos resultados robustos apresentados nos últimos trimestres e da contínua expansão da base de clientes, a empresa passou a enfrentar questionamentos mais intensos do mercado financeiro sobre a sustentabilidade de seu crescimento.
Nubank entra no radar após alerta do Citi sobre crédito
Citi rebaixou o Nubank para neutro e alertou sobre riscos no crédito. Entenda os motivos e os impactos para investidores.
Essas preocupações ganharam força após o Citi rebaixar a recomendação das ações da Nu Holdings, controladora do Nubank, de compra para neutro. Além disso, o banco reduziu o preço-alvo dos papéis de US$ 18 para US$ 13 e cortou suas projeções de lucro para os próximos anos.
A decisão chamou a atenção de investidores porque revela uma mudança importante na percepção de risco em relação à fintech brasileira. O principal ponto levantado pelo Citi está relacionado à expansão acelerada da carteira de crédito e aos possíveis impactos dessa estratégia sobre a rentabilidade futura.
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Por que o Citi rebaixou as ações do Nubank?

Segundo os analistas do Citi, o Nubank enfrenta um desafio cada vez maior para manter o ritmo de crescimento da carteira de crédito sem comprometer a qualidade dos ativos e os resultados financeiros.
Na avaliação do banco, a fintech chegou a um estágio em que crescer rapidamente pode exigir uma tomada maior de risco, especialmente em um cenário econômico que ainda apresenta juros elevados e aumento da inadimplência em algumas modalidades de crédito.
O relatório destaca que boa parte da receita da empresa já depende diretamente das operações de crédito.
Dependência crescente do crédito
O Citi calcula que aproximadamente 60% do ARPAC (receita média por cliente ativo) do Nubank está ligado ao crédito.
Isso significa que a capacidade da fintech de aumentar receitas depende, em grande parte, da concessão de novos empréstimos e do uso de cartões de crédito pelos clientes.
Embora essa estratégia tenha impulsionado os resultados nos últimos anos, ela também aumenta a exposição da companhia a eventuais deteriorações na capacidade de pagamento dos consumidores.
O risco que preocupa os analistas
O principal alerta do Citi envolve o crescimento do crédito consignado privado no Brasil.
Essa modalidade ganhou relevância após mudanças regulatórias e vem sendo vista por diversos bancos como uma nova frente de expansão.
No consignado privado, as parcelas são descontadas diretamente da folha salarial do trabalhador.
Por conta dessa característica, o produto costuma apresentar menor risco de inadimplência quando comparado a empréstimos pessoais tradicionais ou cartões de crédito.
Como isso afeta o Nubank?
Segundo o Citi, existe um risco pouco precificado pelo mercado.
Quando um trabalhador assume um consignado privado, parte de sua renda fica automaticamente comprometida antes mesmo de chegar à sua conta bancária.
Na prática, isso reduz a capacidade financeira disponível para quitar outras dívidas.
Nesse cenário, produtos como:
- Cartão de crédito;
- Empréstimo pessoal;
- Crédito rotativo;
podem sofrer aumento na inadimplência.
Como o Nubank possui forte concentração justamente nessas modalidades, o banco entende que a fintech pode enfrentar desafios maiores do que seus concorrentes mais diversificados.
Carteira concentrada em crédito sem garantia
Outro ponto destacado no relatório é a composição da carteira de crédito do Nubank.
Segundo o Citi, cerca de 96% das operações da companhia estão concentradas em linhas sem garantia.
A divisão ocorre da seguinte forma:
- 82% em cartões de crédito;
- 14% em empréstimos pessoais;
- 4% em outras modalidades.
Essa concentração aumenta a exposição ao risco de inadimplência em períodos de desaceleração econômica ou perda de renda das famílias.
Enquanto bancos tradicionais possuem forte presença em financiamentos imobiliários, crédito consignado e operações garantidas, o Nubank ainda concentra grande parte de suas receitas em produtos considerados mais arriscados.
Crescimento acelerado também gera preocupação
A carteira de crédito do Nubank apresentou forte expansão nos últimos anos.
Segundo dados divulgados pela própria companhia, o saldo da carteira alcançou cerca de US$ 37,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
O crescimento foi de aproximadamente 40% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Já os empréstimos sem garantia avançaram mais de 50%.
Embora esse desempenho demonstre forte capacidade de ganho de mercado, ele também exige provisões maiores para cobrir eventuais perdas.
Correlação entre crescimento e risco
O Citi afirma ter identificado uma correlação próxima de 90% entre a expansão da carteira de crédito e o aumento do custo de risco da operação.
Em outras palavras, quanto mais rapidamente a fintech amplia suas concessões, maior tende a ser o volume de recursos reservados para cobrir possíveis inadimplências.
Esse fator pode pressionar a rentabilidade da companhia nos próximos anos.
Citi reduz projeções para 2026 e 2027
Diante desse cenário, o banco revisou suas expectativas para o desempenho financeiro do Nubank.
As estimativas de lucro foram reduzidas em:
- 9% para 2026;
- 15% para 2027.
As novas projeções apontam para:
Lucro estimado para 2026
US$ 3,7 bilhões (aproximadamente R$ 18,5 bilhões).
Lucro estimado para 2027
US$ 4,4 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões).
Apesar de continuarem representando resultados expressivos, os números indicam um crescimento mais moderado do que o esperado anteriormente.
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Mudança na diretoria também aumentou incertezas
O rebaixamento do Citi aconteceu poucas semanas após uma mudança importante na liderança financeira da companhia.
O então diretor financeiro Guilherme Lago deixou o cargo e será substituído por Rob Livingston, executivo com passagem pela Visa na América do Norte.
A troca gerou reações imediatas no mercado.
As ações da Nu Holdings chegaram a registrar forte queda após o anúncio, refletindo a preocupação dos investidores com possíveis mudanças estratégicas.
Analistas destacam que alterações em posições-chave costumam aumentar a cautela do mercado, especialmente em empresas que atravessam fases importantes de expansão.
O que diz o Nubank?
Durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026, a administração da fintech procurou tranquilizar investidores.
O CEO David Vélez afirmou que o aumento das provisões para perdas não representa deterioração da carteira.
Segundo ele, a elevação decorre principalmente de fatores como:
- Crescimento acelerado da carteira;
- Sazonalidade;
- Mudanças na composição dos produtos.
A empresa também informou que vem adotando uma postura conservadora em relação ao crédito consignado privado.
O próprio Vélez revelou que algumas operações do mercado apresentam índices iniciais de inadimplência entre 10% e 15%, o que justificaria uma abordagem mais cautelosa.
O cenário dos bancos brasileiros também inspira atenção
A preocupação com a qualidade do crédito não é exclusiva do Nubank.
Ao longo de 2026, grandes instituições financeiras ampliaram provisões para perdas e passaram a monitorar com mais atenção o comportamento dos consumidores.
Entre os fatores que pressionam o setor estão:
- Juros elevados;
- Endividamento das famílias;
- Crescimento da renda em ritmo moderado;
- Expansão do crédito consignado privado.
Nesse contexto, a qualidade das carteiras de crédito tornou-se um dos principais indicadores observados por investidores e analistas.
O que o rebaixamento significa para clientes e investidores?

Para os clientes do Nubank, a recomendação do Citi não representa qualquer impacto direto nas operações do dia a dia.
A fintech continua apresentando forte crescimento, elevada base de usuários e resultados bilionários.
Para investidores, porém, o movimento serve como um alerta sobre os desafios que acompanham empresas em rápida expansão.
O mercado passa a observar com ainda mais atenção a capacidade do Nubank de equilibrar três objetivos simultâneos:
- Crescer a carteira de crédito;
- Preservar a qualidade dos ativos;
- Manter elevados níveis de rentabilidade.
A forma como a companhia administrará esse equilíbrio nos próximos trimestres poderá determinar não apenas a evolução das ações, mas também o ritmo de crescimento de uma das instituições financeiras mais influentes da América Latina.
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