Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Claude ganha recurso que permite identificar textos e arquivos gerados por IA

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 14 min de leitura
claude

O Claude, assistente de inteligência artificial desenvolvido pela Anthropic, está adotando mecanismos para permitir a identificação de conteúdos produzidos ou modificados por seus modelos. A mudança ocorre em um momento de avanço das regras de transparência sobre inteligência artificial na União Europeia e aumenta a pressão para que empresas do setor deixem mais claro quando um conteúdo teve participação de sistemas generativos.

A medida envolve textos e imagens e está relacionada às novas exigências de transparência previstas pelo AI Act, a legislação europeia que passou a aplicar regras específicas sobre conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial a partir de 2 de agosto de 2026.

A proposta é diferente de uma marca d’água visual tradicional, como aquela que aparece sobre uma fotografia. No caso dos textos, a identificação pode ser incorporada de forma que não altere a leitura normal do conteúdo. Nas imagens, a identificação pode utilizar informações técnicas associadas ao próprio arquivo.

A iniciativa também mostra uma mudança importante na indústria: a discussão sobre inteligência artificial deixou de estar concentrada apenas na capacidade dos modelos e passou a envolver a origem, a autenticidade e a rastreabilidade do material produzido.

Leia mais:

Cinco prompts do Claude para criar sites melhores

Claude 5
Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

Por que o Claude começará a identificar conteúdos de IA

A principal razão para a mudança está relacionada às novas regras europeias de transparência.

O artigo 50 do AI Act estabelece obrigações para determinados sistemas de inteligência artificial generativa. Entre elas está a exigência de que conteúdos sintéticos gerados ou manipulados por IA possam receber uma marcação legível por máquinas e sejam detectáveis como conteúdo artificialmente produzido ou alterado.

A intenção da União Europeia é reduzir riscos de engano, manipulação e desinformação.

Isso se tornou especialmente relevante com a evolução dos modelos generativos. Atualmente, sistemas de IA conseguem produzir textos, imagens, áudios e vídeos com qualidade suficiente para que muitas pessoas tenham dificuldade em distinguir o material criado por uma pessoa daquele produzido por uma máquina.

A Comissão Europeia afirma que as regras buscam aumentar a transparência e permitir que as pessoas reconheçam quando estão diante de conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial.

O que muda para quem usa o Claude

Para o usuário comum, a mudança tende a ser pouco perceptível.

Um texto produzido pelo Claude não necessariamente terá uma mensagem visível interrompendo a leitura ou um aviso destacado no início de cada parágrafo. A lógica das novas tecnologias de identificação é permitir que a origem do conteúdo possa ser reconhecida por mecanismos apropriados sem modificar a aparência ou o significado do material.

Isso é especialmente importante para quem utiliza IA no trabalho, na produção de conteúdo, em atividades acadêmicas ou em tarefas profissionais.

Um usuário pode, por exemplo, solicitar ao Claude que produza um texto para uma página de internet. O resultado poderá continuar sendo copiado, editado e publicado normalmente, mas poderá carregar informações técnicas que permitam identificar sua origem.

A tecnologia também pretende enfrentar um problema cada vez mais comum: a perda da informação sobre a procedência de um conteúdo quando ele é compartilhado.

A identificação de textos pode continuar depois de copiar e colar

Uma das características mais interessantes da tecnologia descrita pela Anthropic é a possibilidade de a marcação acompanhar o conteúdo textual mesmo quando ele é transferido para outro local.

Isso pode ser importante em situações nas quais um texto é gerado em um aplicativo de IA e posteriormente colocado em um editor, site, documento ou plataforma de publicação.

A ideia é que a identificação não dependa exclusivamente da página ou do aplicativo original.

Na prática, isso representa um desafio técnico considerável. Textos podem ser copiados, reorganizados, traduzidos, resumidos ou reescritos diversas vezes. Por isso, um sistema de identificação precisa ser desenvolvido para lidar com alterações sem comprometer sua capacidade de indicar a origem artificial do material.

A tecnologia não significa, entretanto, que qualquer texto poderá ser identificado com 100% de precisão em todas as circunstâncias. A própria discussão regulatória europeia trata a marcação e a detecção como mecanismos técnicos que precisam ser robustos, interoperáveis e confiáveis dentro do que for tecnicamente possível.

Como funciona a identificação de imagens geradas pelo Claude

Nas imagens, o processo segue uma lógica diferente.

Em vez de necessariamente colocar um aviso visual sobre a imagem, a identificação pode ser incorporada aos metadados do arquivo.

Metadados são informações associadas a um arquivo digital. Eles podem registrar características técnicas e informações relacionadas à criação ou ao processamento de determinado conteúdo.

Esse tipo de mecanismo permite que softwares compatíveis consultem informações sobre a procedência de uma imagem sem precisar modificar sua aparência.

Para o usuário, isso significa que uma imagem criada por IA pode continuar visualmente igual depois de ser gerada. A diferença está nas informações técnicas que acompanham o arquivo.

A abordagem está alinhada ao movimento internacional em direção à chamada proveniência digital, que procura registrar a origem e o histórico de determinados conteúdos digitais.

O que são metadados e por que eles são importantes

Os metadados funcionam como uma espécie de camada de informações sobre um arquivo.

Uma fotografia, por exemplo, pode conter informações sobre equipamento utilizado, data, localização ou software empregado para edição, dependendo de como foi criada e processada.

No contexto da inteligência artificial, os metadados podem ser usados para indicar que determinado arquivo foi produzido ou alterado por um sistema generativo.

Isso não significa que todas as plataformas manterão necessariamente essas informações intactas.

Quando uma imagem é publicada em uma rede social, enviada por aplicativos de mensagens ou processada por determinado software, os metadados podem ser removidos ou modificados.

Por essa razão, a identificação técnica de conteúdo gerado por IA não depende de uma única tecnologia. A própria estrutura do AI Act prevê diferentes mecanismos de marcação, detecção e rotulagem, dependendo do tipo de conteúdo e da forma como ele é utilizado.

AI Act passou a aplicar regras de transparência em agosto de 2026

As novas regras europeias começaram a ser aplicadas em 2 de agosto de 2026.

O artigo 50 do AI Act estabelece obrigações de transparência para determinados fornecedores e operadores de sistemas de inteligência artificial. A regulamentação abrange situações envolvendo interação com IA e conteúdos gerados ou manipulados artificialmente.

Entre as exigências estão mecanismos para tornar conteúdos sintéticos detectáveis por sistemas apropriados.

A legislação também prevê regras específicas para deepfakes e determinados textos produzidos por IA destinados a informar o público sobre assuntos de interesse público.

Nesse último caso, há uma diferença importante: a identificação pode precisar ser clara e perceptível para o público quando o conteúdo estiver dentro das situações previstas pela legislação.

Portanto, não se trata simplesmente de colocar uma etiqueta invisível em tudo que foi produzido por inteligência artificial. Existem diferentes níveis de transparência previstos na legislação, dependendo da finalidade e do tipo de conteúdo.

Existe diferença entre marcação técnica e aviso visível

Esse é um dos pontos mais importantes para entender a nova regulamentação.

A marcação técnica é destinada principalmente a permitir que sistemas e ferramentas reconheçam que determinado conteúdo foi produzido ou manipulado por IA.

Já a rotulagem visível é uma informação apresentada diretamente à pessoa que está consumindo o conteúdo.

A Comissão Europeia diferencia essas duas abordagens.

Para determinados conteúdos sintéticos, os provedores devem aplicar uma marcação legível por máquinas. Em casos específicos, como deepfakes e certos textos gerados por IA sobre assuntos de interesse público, o responsável pela publicação também pode precisar informar claramente o público.

Essa distinção evita a interpretação de que todas as imagens ou textos produzidos por inteligência artificial terão obrigatoriamente uma grande etiqueta estampada sobre eles.

O que acontece com versões antigas do Claude

A implementação das novas tecnologias de identificação não ocorre necessariamente de uma única vez para todos os sistemas existentes.

A Comissão Europeia estabeleceu uma transição específica para determinados sistemas de IA que já estavam no mercado antes de 2 de agosto de 2026. Nesses casos, existe prazo adicional para cumprimento das obrigações de marcação e detecção, até 2 de dezembro de 2026.

Isso ajuda a explicar por que versões anteriores de sistemas de IA podem precisar de atualizações para incorporar os mecanismos necessários.

Também não existe, em regra, uma exigência geral de marcar retroativamente todo conteúdo que já havia sido produzido e disponibilizado antes de 2 de agosto de 2026. A Comissão Europeia, contudo, incentiva a rotulagem quando isso for possível.

A regra vale apenas para quem está na Europa?

A legislação europeia tem como foco o mercado e os usos abrangidos pela União Europeia.

Isso não significa, porém, que uma empresa de tecnologia necessariamente criará uma versão completamente diferente de seu produto para cada região.

Quando uma companhia implementa uma tecnologia de identificação diretamente em seus modelos, pode optar por aplicá-la globalmente. Essa estratégia reduz a complexidade operacional e cria um padrão único para seus produtos.

No caso do Claude, a adoção de mecanismos de identificação pode, portanto, ter efeitos para usuários fora da Europa, dependendo da forma como a Anthropic disponibilizar a tecnologia.

Para brasileiros, isso significa que a evolução das regras europeias pode acabar influenciando produtos de IA utilizados no país mesmo quando a legislação brasileira não imponha exatamente a mesma obrigação.

O que muda para brasileiros que usam IA

Para o usuário brasileiro, a principal mudança é a possibilidade de encontrar conteúdos produzidos por ferramentas de IA com mecanismos técnicos de identificação mesmo quando não existe uma lei nacional idêntica à europeia.

Isso pode afetar jornalistas, empresas, criadores de conteúdo, estudantes, professores, profissionais de marketing e usuários comuns.

Imagine uma empresa brasileira que utiliza o Claude para produzir imagens para campanhas publicitárias. Se o sistema entregar os arquivos com informações de procedência incorporadas, determinadas plataformas poderão futuramente reconhecer que aquela imagem teve origem em IA.

O mesmo pode ocorrer com textos.

Um profissional pode usar o Claude para criar uma primeira versão de um artigo, revisar o material manualmente e publicá-lo posteriormente. Dependendo da tecnologia de marcação utilizada, a identificação poderá continuar associada ao conteúdo.

A tecnologia pode combater desinformação?

Esse é um dos principais objetivos da medida, mas não representa uma solução definitiva.

A identificação de origem pode ajudar plataformas, pesquisadores e usuários a reconhecer conteúdos artificiais.

Imagine uma fotografia falsa criada por inteligência artificial e apresentada nas redes sociais como se fosse um registro jornalístico. Se a imagem preservar informações de procedência que indiquem sua origem artificial, uma plataforma poderá utilizar esse dado para sinalizar o conteúdo ou submetê-lo a verificações adicionais.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outros formatos.

Porém, sistemas de identificação podem encontrar obstáculos quando um arquivo é convertido, comprimido, editado ou passa por ferramentas que removem seus metadados.

Por isso, a transparência baseada em tecnologia deve ser vista como uma camada de proteção, e não como um mecanismo capaz de eliminar completamente os conteúdos falsos.

Marcação de IA não significa que o conteúdo seja falso

Outro cuidado importante é não confundir “produzido por IA” com “falso”.

Um conteúdo pode ter sido criado com auxílio de inteligência artificial e ainda assim apresentar informações verdadeiras.

Uma empresa pode utilizar IA para gerar uma ilustração de um produto real. Um jornalista pode usar uma ferramenta generativa para organizar informações durante a preparação de um texto. Um designer pode utilizar IA para criar elementos visuais de uma campanha.

A identificação indica a origem ou participação da tecnologia, não necessariamente a qualidade, a veracidade ou a intenção do conteúdo.

Por isso, sistemas de identificação precisam ser acompanhados de contexto.

Edição humana continua sendo importante

As regras europeias também fazem distinção entre conteúdos totalmente gerados por IA e situações nas quais a tecnologia exerce apenas uma função auxiliar.

As orientações da Comissão Europeia esclarecem que determinadas ferramentas usadas para edição convencional, sem alteração substancial do conteúdo original, podem ficar fora da obrigação de marcação prevista para conteúdo sintético.

Isso é relevante porque o uso de inteligência artificial não acontece apenas quando alguém pede para uma máquina criar algo do zero.

Atualmente, ferramentas de edição podem remover ruído de uma fotografia, melhorar sua resolução, corrigir iluminação, modificar um objeto ou gerar partes completamente novas da imagem.

A diferença entre uma simples ferramenta de edição e uma alteração substancial pode determinar quais regras de transparência são aplicáveis.

Empresas terão de se adaptar a uma nova realidade

A mudança representa um desafio não apenas para as empresas que desenvolvem modelos de IA, mas também para plataformas que recebem e distribuem conteúdo.

Redes sociais, mecanismos de busca, sites de notícias e serviços de armazenamento podem utilizar informações de procedência para desenvolver novos mecanismos de identificação.

Com isso, a origem do conteúdo pode se tornar uma informação tão relevante quanto o próprio conteúdo.

Uma fotografia publicada na internet, por exemplo, poderá carregar dados capazes de informar que foi produzida artificialmente. No futuro, ferramentas de busca e plataformas poderão utilizar essas informações para oferecer filtros, alertas ou outros mecanismos de contextualização.

Anthropic prepara ferramentas para detectar as marcas

Outro aspecto da mudança é a necessidade de oferecer meios para que os próprios usuários possam verificar as marcações.

A existência de uma marca técnica só é realmente útil se houver ferramentas capazes de interpretá-la.

A indústria de IA trabalha, por isso, com padrões e mecanismos que procuram permitir que diferentes plataformas reconheçam informações de procedência de maneira interoperável.

A Comissão Europeia também desenvolveu um Código de Prática sobre Transparência de Conteúdos Gerados por IA para auxiliar fornecedores e operadores no cumprimento das obrigações do AI Act. O documento aborda mecanismos de marcação e detecção de áudio, imagem, vídeo e texto gerados ou manipulados artificialmente.

O futuro da identificação de conteúdos feitos por IA

A tendência é que a identificação da origem de conteúdos digitais se torne cada vez mais comum.

A popularização da inteligência artificial generativa tornou mais difícil avaliar visualmente se uma imagem, um texto ou um vídeo foi criado por uma pessoa ou por uma máquina.

Nesse cenário, simplesmente confiar na aparência do conteúdo deixa de ser suficiente.

A combinação de metadados, marcações técnicas, sistemas de detecção e avisos visíveis pode formar uma espécie de infraestrutura de procedência digital.

Isso não elimina a necessidade de checagem. Pelo contrário: à medida que a IA se torna mais sofisticada, a capacidade de verificar origem, contexto e autenticidade tende a ganhar importância.

O que o usuário deve fazer ao encontrar conteúdo gerado por IA

Claude
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A identificação de IA não deve ser encarada como um certificado automático de verdade ou falsidade.

Ao encontrar uma imagem ou texto com indicação de geração artificial, o usuário deve analisar a informação apresentada, verificar a fonte original e buscar confirmação em fontes confiáveis quando o assunto for relevante.

Em temas como política, saúde, finanças, segurança pública e notícias de grande impacto, essa cautela é ainda mais importante.

Uma imagem marcada como criada por IA pode ser uma ilustração legítima. Da mesma forma, uma imagem sem uma marca identificável não deve ser automaticamente considerada autêntica.

A procedência digital é apenas uma das ferramentas que podem ajudar na avaliação.

REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo

Compartilhar