Na manhã desta terça-feira (9), a Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú se reuniu com representantes do banco para discutir a demissão de mais de 1.000 funcionários, ocorrida na segunda-feira (8).
COE se reúne com Itaú para revisar desligamentos de funcionários
COE se reuniu com o Itaú após mais de mil demissões. Sindicato pede revisão, reposição de vagas e regulamentação da inteligência artificial no trabalho bancário.
O encontro foi motivado pela pressão sindical diante da forma como os desligamentos foram conduzidos, sobretudo em áreas estratégicas do banco, como o Centro Tecnológico (CT), o CEIC e unidades da Faria Lima.
A justificativa apresentada pelo Itaú foi a baixa aderência ao home office, após seis meses de monitoramento digital das atividades dos trabalhadores. O banco, entretanto, só aceitou avaliar os casos de empregados adoecidos, negando qualquer possibilidade de revisão das demais demissões.
Leia mais:
Por que cerca de mil funcionários do Itaú foram demitidos? Entenda
Transparência sob questionamento

Falta de diálogo com os trabalhadores
Segundo a coordenadora da COE, Valeska Pincovai, o banco falhou ao não alertar os empregados sobre o suposto baixo desempenho durante o período de monitoramento.
“As pessoas foram monitoradas por seis meses e o banco não deu nenhum alerta. Não houve possibilidade de defesa nem diálogo prévio com o sindicato”, criticou Valeska.
A ausência de advertências e a falta de comunicação direta com o sindicato reforçam, segundo ela, a percepção de desrespeito à representação sindical e ao direito de negociação coletiva.
Critérios questionáveis
O banco teria se baseado em registros de inatividade em máquinas corporativas — períodos de quatro horas ou mais sem atividade — para justificar as demissões. Para o sindicato, esse critério é falho, pois não considera:
- falhas técnicas de sistemas ou rede;
- organização interna das equipes;
- pausas por saúde ou sobrecarga de trabalho;
- especificidades da atividade bancária remota.
Monitoramento digital e saúde mental
Privacidade em xeque
O sindicato aponta que os empregados estão sendo submetidos a um regime de monitoramento constante, que inclui:
- controle de reuniões por temas e participantes;
- acompanhamento de metas em tempo real;
- geolocalização por ponto eletrônico;
- registros de inatividade em computadores.
Para Valeska Pincovai, esse cenário configura “assédio digital”, uma prática que agrava o já delicado estado de saúde mental dos bancários.
A necessidade de regulamentar a inteligência artificial
O uso de inteligência artificial (IA) no controle de produtividade foi um dos principais pontos levantados pela COE. Segundo os dirigentes sindicais, a ausência de regulamentação pode levar à intensificação da pressão sobre os empregados.
“Precisamos regulamentar a utilização da IA no controle das atividades para evitar que a saúde mental, já em estado crítico, se deteriore ainda mais”, alertou Valeska.
Teletrabalho em debate
O sindicato também cobrou negociações em torno do Acordo de Teletrabalho, que vence em dezembro. A intenção é discutir regras claras de monitoramento, privacidade e transparência.
Pontos exigidos pelo movimento sindical
- Transparência: que os trabalhadores tenham ciência do tipo de monitoramento;
- Respeito à privacidade: delimitação do uso de ferramentas digitais;
- Atenção à saúde mental: redução das metas abusivas e acompanhamento psicológico.
A expectativa é que a negociação do acordo seja iniciada ainda este mês.
Reposição de vagas já!
O movimento sindical considera injustificável o corte de mais de 1.000 postos de trabalho em um banco que registrou lucro superior a R$ 22,6 bilhões no último semestre e que segue sendo a maior instituição financeira do país em ativos.
Argumentos dos representantes dos trabalhadores
- O Itaú cortou 518 vagas nos últimos 12 meses, reduzindo o quadro de pessoal para 85.775 empregados;
- Há sobrecarga de trabalho nas equipes remanescentes, o que contribui para o aumento do adoecimento mental;
- O banco poderia contratar novos empregados ou reintegrar parte dos desligados, em vez de extinguir funções.
Saúde mental em estado crítico
Dados preocupantes
Estudos e relatórios recentes reforçam as preocupações do sindicato. Entre 2023 e 2024, 57,1% das licenças por acidente de trabalho concedidas a bancários foram decorrentes de transtornos mentais e comportamentais.
Esse índice é muito superior ao registrado na média da classe trabalhadora brasileira, evidenciando a pressão a que os bancários estão submetidos.
O papel do assédio digital
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
O monitoramento excessivo e o uso de métricas automatizadas sem contexto humano são apontados como fatores que ampliam:
- ansiedade;
- síndrome de burnout;
- depressão;
- outros distúrbios relacionados ao estresse ocupacional.
Inteligência artificial e o futuro do trabalho bancário
O debate regulatório
O uso da IA para fiscalizar trabalhadores não é exclusivo do setor bancário, mas no Itaú o tema ganha destaque pela intensidade das práticas adotadas. O sindicato defende que:
- haja limites claros para o monitoramento digital;
- sejam criados mecanismos de auditoria nos algoritmos utilizados;
- os trabalhadores tenham direito a contestar registros automatizados de produtividade.
Tendência no setor
Com a digitalização dos serviços bancários, a tendência é que cada vez mais empresas adotem soluções tecnológicas para fiscalizar suas equipes. A ausência de regulamentação, porém, pode transformar avanços em instrumentos de opressão e precarização.
Itaú: entre lucro recorde e cortes de pessoal

Resultados financeiros
O Itaú divulgou lucro líquido de R$ 22,6 bilhões no último semestre, com rentabilidade em alta e expansão em diferentes segmentos.
Contradição com cortes
Mesmo assim, a política de demissões em massa gera críticas. Para os sindicatos, o discurso de eficiência não justifica desligamentos em escala tão grande, principalmente em áreas estratégicas e com alta demanda.
Considerações finais
A reunião da COE com o Itaú expôs não apenas a disputa sobre as demissões em massa, mas também o debate urgente sobre o impacto da tecnologia na relação de trabalho.
A insistência do banco em manter os cortes, mesmo diante de lucros bilionários, amplia o desgaste com os sindicatos. Já os trabalhadores cobram reposição de vagas, negociação coletiva e regulamentação do uso da inteligência artificial no ambiente laboral.
O caso do Itaú pode se tornar um marco regulatório sobre como a IA será utilizada no controle de produtividade no setor bancário, com reflexos para toda a economia brasileira.
Pode ser do seu interesse:
