Desde novembro de 2024, cerca de 500 mil brasileiros em São Paulo participaram de uma prática inédita: permitir o escaneamento de suas íris em troca de pagamentos em criptomoedas, com valores médios de R$ 600. Apesar do aparente benefício financeiro, a iniciativa tem gerado preocupação e controvérsia sobre a privacidade e o uso dos dados pessoais.
Empresa segue pagando para escanear íris do olho em SP
A coleta de íris em São Paulo pagou R$ 600 para 500 mil brasileiros. A ANPD questiona práticas da empresa e a privacidade dos dados biométricos.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou recentemente que a empresa responsável interrompa os pagamentos, alegando a necessidade de maior clareza sobre o consentimento dos participantes e as intenções a longo prazo da coleta de dados biométricos.
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Como funciona o escaneamento de íris

Os participantes do programa visitam uma das 50 lojas espalhadas por São Paulo, onde têm a íris e o rosto escaneados por câmeras avançadas. Segundo a empresa responsável, os dados coletados são transformados em códigos únicos e utilizados para criar um sistema que identifica humanos no ambiente digital.
Apesar das promessas de segurança, o termo de uso do serviço levanta preocupações, pois afirma que os dados não são mais propriedade do usuário e podem estar sujeitos a vazamentos em caso de ataques cibernéticos.
Declarações contraditórias
Em entrevista ao Jornal Nacional, Damien Kieran, vice-presidente de Privacidade da Tools for Humanity, negou que a empresa esteja “comprando” imagens de íris. Ele descreveu o processo como uma troca de criptomoedas por participação no sistema, mas não forneceu detalhes claros sobre o uso prático dos dados coletados.
A posição da ANPD
A ANPD determinou a suspensão do pagamento em criptomoedas, argumentando que o consentimento deve ser livre de contrapartidas financeiras para ser considerado válido. Segundo Waldemar Gonçalves Ourtunho Junior, diretor-presidente da ANPD, há questões pendentes que precisam ser esclarecidas antes de uma decisão definitiva sobre o serviço.
“O consentimento precisa ser dado sem contrapartida financeira para ser legítimo. Ainda precisamos entender melhor como os dados são utilizados e protegidos”, afirmou Ourtunho Junior.
O mercado de dados biométricos e as preocupações com a privacidade
A coleta de dados biométricos, como íris e impressões digitais, é amplamente reconhecida como uma tecnologia avançada e segura. No entanto, a falta de transparência em iniciativas como essa levanta preocupações sobre o uso indevido e os riscos associados à privacidade.
Especialistas alertam
Luiz Augusto Filizzola D’Urso, advogado especializado em Direito Digital, destacou que os termos de uso da empresa são vagos e podem limitar a responsabilidade em caso de incidentes. Ele também questionou a viabilidade econômica do modelo:
“Investir milhões para pagar usuários sem gerar lucro? Em algum momento, a monetização desses dados será explorada, e isso precisa ser debatido.”
A experiência dos participantes

Apesar do apelo financeiro, muitos usuários admitiram não entender completamente o propósito do programa.
- Jussimara Santos, atendente: “Recebi R$ 244 este mês, mas não sei exatamente para que serve.”
- Jaqueline Gomes, copeira: “Baixei o app, mas não sei como isso vai ser útil.”
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Essa falta de entendimento reflete um problema maior: a insuficiência de informações claras e acessíveis sobre o uso dos dados.
Planos da empresa e monetização futura
Damien Kieran afirmou que a monetização do sistema será baseada na venda de câmeras de escaneamento e no desenvolvimento de aplicativos para a rede criada pelos dados coletados.
Ele reforçou que a empresa não pretende vender os dados, mas sim utilizar o sistema como base para futuros produtos e serviços.
Regulamentação e o futuro da coleta de dados no Brasil
A controvérsia em torno da coleta de íris em São Paulo destaca a importância de uma regulamentação mais rígida e de maior conscientização sobre privacidade no Brasil.
Com a crescente valorização dos dados pessoais, a sociedade precisa de leis e políticas que garantam transparência e segurança para evitar abusos e proteger os direitos dos cidadãos.
Conclusão
A coleta de íris em São Paulo exemplifica os desafios do uso de tecnologias avançadas em um contexto de regulamentação ainda em evolução. Enquanto a iniciativa promete inovação, a falta de transparência e as preocupações com a privacidade colocam em dúvida sua legitimidade e segurança.
Para os participantes, o pagamento imediato pode parecer vantajoso, mas os riscos a longo prazo devem ser considerados. Para as autoridades, o caso é um chamado à ação para garantir que práticas como essa respeitem os direitos e a segurança dos cidadãos.
