Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Nova regra altera lógica da concessão de crédito e transforma mercado bancário

Mudança no cálculo de provisões bancárias altera concessão de crédito e exige nova gestão de riscos. Entenda.

Fernanda RamosPor Fernanda Ramos6 min de leitura
dinheiro/RICOS crédito

Uma transformação profunda e silenciosa está em andamento no sistema financeiro brasileiro. Desde janeiro, os bancos operam sob a Resolução nº 4.966 do Banco Central (BC), que altera a maneira como as instituições calculam as provisões para perdas com crédito. Essa mudança não apenas reformula a lógica de concessão de empréstimos e financiamentos, mas também redefine estratégias, produtos e a forma como os riscos são avaliados.

A nova regulamentação exige uma abordagem preditiva e contínua da análise de risco, colocando fim ao modelo tradicional, baseado apenas em dados históricos de inadimplência. Com isso, os bancos precisam se antecipar aos sinais de possível deterioração do crédito, o que exige tecnologia, dados e uma nova forma de pensar o relacionamento com o cliente.

Leia mais: Veja por que BB e BNDES estão dominando o crédito em 2025

O que muda com a Resolução 4.966

crédito
Imagem: fizkes / shutterstock.com

Aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 2021 e inspirada nas normas internacionais IFRS 9, a Resolução 4.966 impõe novas diretrizes contábeis para instrumentos financeiros. O principal ponto é que as instituições devem calcular a provisão para perdas esperadas desde o momento da concessão do crédito, e não mais somente após constatação de inadimplência.

“Antes, se olhava para trás para fazer uma média da inadimplência para cada produto e assim estabelecer o risco. Agora, a norma exige o uso de novos modelos preditivos para traçar um plano de se evitar problemas para o futuro”, explica Bruno Batista, sócio da McKinsey e líder de Crédito na América Latina.

Do histórico ao preditivo: uma nova abordagem para o risco

Com a nova regra, um contrato pode ter sua provisão aumentada em até 13 vezes, ao passar para o chamado Estágio 2. Nessa fase, o risco futuro é considerado, mesmo sem inadimplência atual. Pequenos sinais, como redução de renda, maior endividamento ou piora na garantia do crédito, já exigem ajustes na provisão contábil.

Essa lógica obriga os bancos a atuarem antes que o cliente se torne inadimplente, transformando estratégias de cobrança, renegociação e relacionamento. “Isso muda a lógica de gestão e obriga os bancos a parar de olhar apenas para o passado e começar a projetar o futuro”, resume Batista.

O que é provisionamento bancário?

O provisionamento bancário é o mecanismo contábil que permite aos bancos reservar parte dos lucros para cobrir perdas com créditos de difícil recebimento, como inadimplências. Essa prática protege a estabilidade financeira da instituição e garante maior segurança ao sistema bancário.

Com a Resolução 4.966, o provisionamento passa a ser baseado em cenários preditivos. A instituição precisa calcular a possível perda já no ato da concessão, considerando riscos que ainda não se concretizaram, mas que são estatisticamente prováveis.

Impactos diretos no mercado de crédito

A nova norma afeta diretamente a concessão de crédito, o desenho dos produtos bancários e as estratégias de precificação. Produtos com garantias robustas, como veículos ou imóveis, tendem a exigir menos provisão, o que pode estimular o surgimento de novos modelos de crédito lastreado.

De acordo com Carla Ioshiura, especialista em risco e sócia da McKinsey, “desde o momento em que o crédito é concedido, já é possível calcular quanto será necessário provisionar no futuro, o que torna o controle mais assertivo”. Ela também aponta a necessidade de os bancos monitorarem continuamente a rentabilidade por produto e segmento.

Desafios e adaptação dos bancos

A pesquisa da McKinsey mostra que até 60% das carteiras podem migrar para o Estágio 2 com base apenas em sinais preditivos. Isso obriga os bancos a:

  • Investir em modelos analíticos avançados
  • Reestruturar sistemas e arquitetura de dados
  • Antecipar estratégias de cobrança e renegociação

“Quanto mais rápido o banco atuar na mitigação do risco, menor será o impacto na necessidade de provisionamento e melhor será a gestão da carteira como um todo”, aponta Bruno Batista.

O papel da tecnologia e do Open Finance

Embora o Brasil esteja à frente em sofisticação tecnológica, a mudança exigida pela Resolução 4.966 não é apenas de infraestrutura. Trata-se de uma mudança cultural e estratégica.

Nesse contexto, o Open Finance pode ajudar ao fornecer dados mais ricos e atualizados sobre os clientes. No entanto, como alerta Carla, esse sistema ainda está longe de atingir seu potencial máximo e seus impactos de curto prazo ainda são limitados.

O que aconteceu na Europa e o que o Brasil pode esperar

Experiências internacionais mostram que, onde regras similares foram aplicadas, os bancos que demoraram a se adaptar enfrentaram aumento expressivo nas provisões. A expectativa é que o mesmo ocorra no Brasil. Bancos que não revisarem seus modelos de risco poderão ver custos contábeis subirem de forma relevante.

“Essa é uma mudança regulatória com um impacto muito grande no negócio. Ela afeta como o crédito é concedido, como os produtos são precificados e como o banco se comunica com os clientes. É uma mudança estrutural que exige uma nova atuação”, reforça Batista.

Como os bancos estão se preparando

Nubank crédito
Imagem: leonidassantana – freepik

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Segundo o estudo da McKinsey, a transição bem-sucedida passa por três frentes principais:

1. Fortalecimento das capacidades analíticas

  • Adoção de modelos preditivos mais precisos
  • Simulações de impacto por segmento e cenário

2. Reestruturação da gestão de provisões

  • Processos mais ágeis e interdisciplinares
  • Transparência nos relatórios financeiros

3. Revisão da arquitetura de dados

  • Integração entre fontes com dados históricos
  • Monitoramento contínuo com alta granularidade

Instituições que investiram nesses pontos estão colhendo resultados: 81% delas melhoraram a efetividade das provisões, segundo a McKinsey.

Conclusão

A Resolução 4.966 é mais do que uma regra contábil. Trata-se de uma virada de chave para o mercado de crédito, que obriga os bancos a evoluírem suas práticas de análise, cobrança e relacionamento. Com o risco sendo visto de forma preditiva, o futuro da concessão de crédito no Brasil passa por inteligência de dados, antecipação e tecnologia.

Quem se adaptar mais rápido poderá não só cumprir a regulamentação, mas também ganhar vantagem competitiva em um mercado cada vez mais dinâmico e exigente.

Com informações de: InfoMoney

Fernanda Ramos

Autor

Fernanda Ramos

Fernanda é graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com sólida formação em língua portuguesa. Atua na estruturação, revisão e aprimoramento textual dos conteúdos do portal Seu Crédito Digital, garantindo clareza, coesão e qualidade editorial. Apaixonada por comunicação, tem como missão facilitar o acesso à informação com linguagem acessível e confiável.

Topicos relacionados