O governo federal encerrou os seis primeiros meses de 2026 com um déficit primário de R$ 92,98 bilhões, conforme dados do Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) referente ao terceiro bimestre do ano. O documento foi divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional e apresenta um panorama detalhado sobre receitas, despesas, investimentos e a execução do orçamento da União.
Contas da União fecham primeiro semestre com déficit de R$ 92,98 bilhões
Tesouro Nacional divulga resultado das contas públicas do primeiro semestre de 2026. Veja os números, impactos e o que eles significam.
O relatório é uma das principais ferramentas de transparência fiscal do país e permite acompanhar a situação das finanças públicas ao longo do exercício. Além de demonstrar o desempenho das receitas e dos gastos federais, o RREO mostra se o governo está caminhando para cumprir as metas fiscais estabelecidas na legislação.
Os números revelam que, apesar da arrecadação permanecer elevada, as despesas continuam pressionando as contas públicas, especialmente pelos gastos obrigatórios e pelo custo da dívida pública.
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O que significa o déficit primário
O déficit primário representa a situação em que as despesas do governo superam as receitas, desconsiderando os pagamentos de juros da dívida pública.
Na prática, esse indicador mostra se os recursos arrecadados por meio de impostos, contribuições e outras fontes são suficientes para financiar as despesas correntes da administração pública.
Quando o resultado é negativo, significa que o governo precisou recorrer a outras fontes de financiamento para cobrir parte de seus gastos.
Especialistas acompanham esse indicador porque ele serve como um importante termômetro da sustentabilidade das contas públicas e influencia diretamente a percepção de investidores sobre a economia brasileira.
Resultado nominal evidencia peso dos juros da dívida
Embora o déficit primário já seja expressivo, o resultado nominal — que inclui os juros pagos sobre a dívida pública — apresenta um cenário ainda mais desafiador.
No acumulado entre janeiro e junho, o déficit nominal alcançou R$ 624,1 bilhões.
Essa diferença demonstra o impacto significativo do custo do endividamento federal. Em períodos de juros elevados, uma parcela importante do orçamento acaba sendo destinada ao pagamento de encargos financeiros, reduzindo o espaço para investimentos e outras despesas públicas.
Como ficou a arrecadação da União
O relatório mostra que a União arrecadou aproximadamente R$ 2,94 trilhões durante o primeiro semestre de 2026.
Esse montante corresponde a pouco mais de 46% da previsão de receitas para todo o exercício financeiro.
Grande parte desse valor veio das chamadas receitas correntes, grupo que reúne tributos, contribuições sociais, receitas patrimoniais e outras fontes permanentes de arrecadação. Essas receitas ultrapassaram R$ 1,6 trilhão, representando a principal fonte de financiamento das atividades do governo.
Além delas, também foram contabilizadas receitas de capital, provenientes principalmente de operações de crédito, alienação de bens e outras fontes extraordinárias.
Despesas continuam elevadas
Do lado das despesas, os números mostram que o governo manteve elevado nível de execução orçamentária.
Os empenhos realizados no semestre ultrapassaram R$ 3,9 trilhões, enquanto as despesas liquidadas chegaram a aproximadamente R$ 2,07 trilhões.
A fase da liquidação é considerada uma das mais importantes da execução orçamentária porque confirma que determinado serviço foi efetivamente prestado ou que o bem contratado foi entregue à administração pública.
Mesmo que o pagamento ainda não tenha sido efetuado, a despesa já passa a integrar oficialmente a execução do orçamento.
Previdência continua entre os maiores desafios fiscais
Um dos principais fatores que pressionam as contas públicas permanece sendo a Previdência Social.
Segundo o relatório, o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) apresentou saldo negativo superior a R$ 235 bilhões no primeiro semestre.
Enquanto a arrecadação previdenciária ficou próxima de R$ 365 bilhões, as despesas com aposentadorias, pensões e demais benefícios ultrapassaram R$ 600 bilhões.
Esse desequilíbrio ocorre porque o sistema brasileiro funciona majoritariamente no modelo de repartição, em que os trabalhadores ativos financiam os benefícios pagos aos aposentados.
Com o envelhecimento da população e o crescimento contínuo das despesas previdenciárias, o tema segue entre os maiores desafios fiscais do país.
Regimes de servidores e militares também registram déficit
Além do regime geral, o relatório evidencia déficits nos sistemas destinados aos servidores públicos civis e aos militares.
O Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) dos servidores federais apresentou resultado negativo de cerca de R$ 32,9 bilhões.
Já o sistema de proteção social dos militares registrou déficit superior a R$ 28 bilhões no mesmo período.
Somados ao déficit do RGPS, esses resultados ampliam a pressão sobre o orçamento federal e exigem elevado volume de recursos do Tesouro Nacional.
Gastos com saúde seguem próximos do mínimo constitucional

A Constituição Federal determina percentuais mínimos de aplicação em áreas essenciais, como saúde e educação.
No caso da saúde, a União deve aplicar pelo menos 15% da Receita Corrente Líquida em ações e serviços públicos.
Até junho de 2026, foram executados aproximadamente R$ 116,9 bilhões, correspondendo a quase 88% do valor proporcional esperado para o período.
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Isso indica que a execução orçamentária segue compatível com o cronograma previsto para cumprimento da obrigação constitucional até o encerramento do exercício.
Educação também mantém execução dentro da programação
Na área educacional, o relatório aponta investimentos de aproximadamente R$ 60,5 bilhões destinados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino.
Esse valor representa mais de 84% do mínimo proporcional previsto para o primeiro semestre.
Outro destaque foi a complementação da União ao Fundeb, que ultrapassou R$ 26 bilhões, reforçando o financiamento da educação básica pública em estados e municípios.
Os recursos do fundo são utilizados para custear despesas como remuneração de profissionais da educação, infraestrutura escolar e manutenção das redes públicas de ensino.
Restos a pagar continuam elevados
Outro indicador relevante apresentado no relatório refere-se aos chamados restos a pagar, que representam despesas empenhadas em exercícios anteriores, mas cujo pagamento permanece pendente.
Durante os seis primeiros meses de 2026, o governo quitou aproximadamente R$ 220,8 bilhões nessas obrigações.
O pagamento desses compromissos reduz o estoque de dívidas administrativas, mas também consome espaço fiscal que poderia ser utilizado em novas políticas públicas ou investimentos.
Não houve bloqueio de despesas no período
O relatório também informa que não foi necessário realizar contingenciamento de despesas durante o terceiro bimestre.
O contingenciamento ocorre quando o governo bloqueia parte do orçamento para garantir o cumprimento das metas fiscais diante de riscos de queda na arrecadação ou aumento das despesas.
A ausência dessa medida indica que, naquele momento, a programação financeira permaneceu compatível com o planejamento orçamentário da União.
Por que o RREO é importante
O Relatório Resumido da Execução Orçamentária é previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e deve ser divulgado periodicamente pelo governo federal.
O documento reúne informações detalhadas sobre:
- arrecadação de receitas;
- execução das despesas;
- investimentos públicos;
- gastos mínimos em saúde e educação;
- resultado primário;
- resultado nominal;
- evolução da dívida pública.
Esses dados são utilizados por órgãos de controle, investidores, analistas econômicos, parlamentares e pela sociedade para acompanhar a situação fiscal do país.
(Foto: Divulgação)
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