O financiamento imobiliário com recursos da poupança movimentou R$ 16,97 bilhões em agosto de 2026, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). O resultado representa alta de 46,6% em relação a agosto de 2025 e foi o terceiro melhor para o mês em 25 anos de série histórica.
Apesar do avanço na comparação anual, o volume ficou 19% abaixo do registrado em julho, quando os financiamentos alcançaram R$ 20,96 bilhões. Para a Abecip, a redução representa uma acomodação depois de meses de crescimento expressivo, e não necessariamente uma reversão da trajetória positiva do mercado.
O desempenho chama atenção porque ocorre em um ambiente de juros ainda elevados e ao mesmo tempo em que a própria poupança, principal fonte tradicional desses recursos, registrou saída líquida em agosto.
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O que os números de agosto mostram

Os R$ 16,97 bilhões financiados pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) foram utilizados em operações imobiliárias durante o mês. O montante ficou abaixo do recorde registrado em julho, mas superou com folga o resultado de agosto de 2025.
Em número de imóveis, foram 46,8 mil unidades financiadas em agosto. A quantidade representa queda de 19,2% em relação a julho, mas crescimento de 27,5% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Segundo os dados divulgados, agosto teve o sexto melhor resultado histórico para o número de unidades financiadas no mês.
O desempenho acumulado também permanece forte. Entre janeiro e agosto, os financiamentos com recursos da poupança chegaram a R$ 132,5 bilhões, alta de 37,5% em relação aos R$ 96,4 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
Julho havia estabelecido um recorde
Antes do resultado de agosto, julho havia apresentado um desempenho excepcional. Naquele mês, o SBPE financiou R$ 20,96 bilhões, maior valor já registrado para um mês de julho pela Abecip.
O montante representou crescimento de 76,7% sobre julho de 2025 e de 21% na comparação com junho. Nos primeiros sete meses de 2026, o volume financiado pelo SBPE havia chegado a R$ 115,5 bilhões.
Por isso, a queda observada em agosto precisa ser analisada em relação a uma base mensal especialmente elevada. Comparado ao mesmo período de 2025, o mercado continuou apresentando expansão significativa.
Por que o financiamento imobiliário continua crescendo?
O desempenho ocorre mesmo com o custo do dinheiro ainda elevado. A Abecip informou em agosto que revisou para cima sua projeção para o crédito imobiliário em 2026, passando de uma expectativa de crescimento de 16% para 25%, com previsão de aproximadamente R$ 411 bilhões em concessões no ano.
No primeiro semestre, o crédito imobiliário totalizou R$ 180,9 bilhões, crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2025. Apenas os financiamentos do SBPE destinados à aquisição e à construção de imóveis somaram R$ 93,7 bilhões no período, alta de 29%.
A demanda também tem sido sustentada por diferentes segmentos do mercado. No primeiro semestre, por exemplo, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 113.988 das 226.536 unidades residenciais novas vendidas no país, segundo levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) elaborado pela Brain Inteligência Estratégica.
Outro fator apontado pelo setor é a permanência da demanda por moradia. A Abecip afirma que a procura por financiamento continua relevante mesmo diante das taxas elevadas, enquanto o mercado de trabalho e a formação de novas famílias ajudam a sustentar a busca por imóveis.
O que aconteceu com a poupança em agosto?
O crescimento do crédito financiado pela poupança ocorre em paralelo a um movimento de saída de recursos da própria caderneta.
Em agosto, a poupança do SBPE registrou retirada líquida de R$ 9,5 bilhões — ou seja, os saques superaram os depósitos nesse montante. Em agosto de 2025, a perda havia sido de R$ 4,7 bilhões.
O saldo das cadernetas terminou agosto em R$ 757,2 bilhões, queda de 0,62% em relação a julho e de 0,63% na comparação anual.
Essa diferença entre a expansão do financiamento e a redução dos depósitos ajuda a explicar uma das principais transformações em curso no mercado: o setor vem buscando diversificar as fontes utilizadas para financiar imóveis.
O que é o SBPE?
O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) é uma das principais estruturas utilizadas no financiamento imobiliário no país. Ele reúne operações que utilizam recursos provenientes das cadernetas de poupança.
Na prática, parte dos depósitos mantidos nas instituições financeiras pode ser direcionada ao financiamento imobiliário, seguindo as regras aplicáveis ao sistema.
É por isso que o comportamento da poupança interessa diretamente ao mercado de imóveis. Quando os recursos disponíveis diminuem, bancos e instituições financeiras precisam recorrer a outras fontes de captação ou ajustar suas estratégias para manter a oferta de crédito.
E os financiamentos com recursos livres?
O cenário é diferente quando se observam as operações feitas com recursos livres dos bancos.
Em agosto, essas operações somaram R$ 1,31 bilhão, queda de 63,3% em relação a agosto de 2025 e de 1% frente a julho. No acumulado do ano, o segmento apresentava retração de 33,9%.
A diferença mostra que o crescimento do crédito imobiliário não ocorre de maneira uniforme em todas as modalidades. Enquanto o SBPE apresentou forte expansão ao longo de 2026, o financiamento com recursos livres teve comportamento mais fraco.
A poupança continuará sendo a principal fonte de financiamento?
O mercado imobiliário brasileiro passa por uma mudança na estrutura de financiamento. O setor vem reduzindo gradualmente a dependência exclusiva da poupança e ampliando a participação de instrumentos ligados ao mercado de capitais, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e as Letras Imobiliárias Garantidas (LIG).
Segundo informações divulgadas pela própria Abecip, o novo modelo de captação está sendo implementado de forma gradual, com previsão de vigência plena em 2027. A proposta busca diversificar as fontes de recursos utilizadas pelo setor.
A mudança também cria novos desafios. De acordo com a Abecip, a maior participação do mercado de capitais pode deixar o custo do crédito mais sensível às oscilações das condições financeiras.
O que os números significam para quem quer comprar um imóvel?
O aumento do volume financiado não significa, por si só, que os financiamentos ficaram mais baratos ou que qualquer comprador conseguirá obter crédito com facilidade.
Para quem pretende comprar uma casa ou apartamento, continuam sendo fundamentais fatores como renda, entrada disponível, prazo do financiamento, taxa de juros, relacionamento com o banco e capacidade de pagamento.
Um mercado com maior volume de concessões indica que mais operações estão sendo realizadas, mas as condições oferecidas individualmente podem variar bastante entre instituições financeiras e perfis de clientes.
Por isso, quem está planejando comprar um imóvel deve comparar o Custo Efetivo Total (CET) das propostas, e não apenas a taxa nominal anunciada pelo banco. O CET considera juros e outros custos associados à operação e permite uma comparação mais completa entre alternativas.
O que esperar dos próximos meses?

Os dados de agosto mantêm o crédito imobiliário em trajetória de crescimento no acumulado de 2026, mas também evidenciam os desafios relacionados à captação de recursos.
A Abecip estima que o crédito imobiliário como um todo possa chegar a cerca de R$ 411 bilhões em concessões em 2026, enquanto a previsão para os financiamentos realizados especificamente com recursos do SBPE foi elevada para aproximadamente R$ 185 bilhões.
O resultado dos próximos meses dependerá da combinação entre demanda por imóveis, condições de financiamento, disponibilidade de recursos e comportamento das taxas de juros.
Para o consumidor, a principal consequência é que a oferta de crédito continua relevante, mas isso não elimina a necessidade de avaliar cuidadosamente o custo total de uma dívida que pode durar décadas.
Conclusão
O financiamento imobiliário com recursos da poupança movimentou R$ 16,97 bilhões em agosto de 2026, alta de 46,6% em um ano e o terceiro melhor resultado para o mês em 25 anos. No acumulado até agosto, o volume chegou a R$ 132,5 bilhões, avanço de 37,5%.
A queda de 19% em relação a julho ocorreu depois de um mês recorde e, portanto, não impediu que o acumulado do ano permanecesse em patamar elevado.
Ao mesmo tempo, a saída líquida de R$ 9,5 bilhões da poupança mostra um desafio para o setor: manter a expansão do crédito enquanto diversifica suas fontes de recursos. Para quem pretende financiar um imóvel, os números indicam que o mercado segue ativo, mas a decisão deve considerar principalmente as condições específicas de cada contrato, sobretudo juros, CET, entrada e capacidade de pagamento.
