O resultado das contas públicas brasileiras voltou a acender um alerta entre economistas e investidores. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o déficit nominal do país alcançou quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) no acumulado de 12 meses até junho, atingindo o maior nível desde 2021.
Brasil registra déficit nominal próximo de 10% do PIB, segundo Banco Central
Déficit nominal brasileiro atinge quase 10% do PIB com alta dos juros e elevação da dívida pública, segundo dados do Banco Central.
O indicador chegou a R$ 1,318 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB, acima dos 9,61% registrados até maio e dos 7,27% observados no mesmo período do ano anterior.
A piora do resultado fiscal está diretamente relacionada ao aumento das despesas com juros da dívida pública, que cresceram em um cenário de taxa Selic elevada e maior percepção de risco por parte dos investidores.
O avanço do déficit nominal reforça uma das principais preocupações do mercado financeiro: a dificuldade do Brasil em equilibrar suas contas públicas enquanto busca controlar a inflação e preservar a confiança dos agentes econômicos.
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O que significa déficit nominal e por que ele preocupa?
O déficit nominal representa o resultado negativo das contas públicas considerando tanto o resultado primário quanto o pagamento dos juros da dívida.
Diferentemente do déficit primário, que considera receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros, o resultado nominal inclui todo o custo financeiro do endividamento público.
Na prática, quando o governo gasta mais do que arrecada e ainda precisa pagar juros elevados sobre a dívida acumulada, o déficit nominal aumenta.
Esse indicador é acompanhado de perto por economistas porque mostra o impacto completo da situação fiscal do país.
No caso brasileiro, o avanço recente ocorreu principalmente pelo aumento da conta de juros, que passou a representar a maior parte do desequilíbrio.
Brasil registra maior déficit nominal desde 2021
O resultado acumulado em 12 meses até junho representa o maior déficit nominal desde abril de 2021, quando o país ainda enfrentava os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19.
Naquele período, o déficit chegou a 10,25% do PIB devido ao aumento dos gastos públicos extraordinários adotados para enfrentar a crise sanitária.
A diferença em relação ao cenário atual é que, agora, o principal fator de pressão não está concentrado em medidas emergenciais, mas no custo financeiro da dívida pública.
Com juros elevados, o governo precisa destinar uma parcela maior dos recursos para remunerar credores, aumentando o peso da dívida sobre o orçamento.
Juros da dívida representam maior parte do rombo fiscal
Nos 12 meses encerrados em junho, os pagamentos de juros nominais alcançaram 8,80% do PIB.
O valor representa a maior parcela do déficit nominal brasileiro, enquanto o resultado primário negativo ficou em 1,19% do PIB no mesmo período.
A diferença mostra que o crescimento do desequilíbrio fiscal não ocorre apenas pelo resultado entre arrecadação e gastos públicos, mas principalmente pelo custo de carregar uma dívida elevada em um ambiente de juros altos.
A Selic é um dos principais instrumentos utilizados pelo Banco Central para controlar a inflação. Porém, quando permanece elevada por períodos prolongados, também aumenta o custo de financiamento do governo.
Dívida pública brasileira continua em trajetória de alta
Além do aumento do déficit nominal, outro dado que chama atenção é o avanço da dívida pública.
A dívida bruta do governo geral encerrou junho representando 81,9% do PIB, acima dos 81% registrados no mês anterior.
Já a dívida líquida do setor público alcançou 68,5% do PIB, contra 67,9% anteriormente.
A dívida bruta é considerada pelo mercado um dos principais indicadores para avaliar a capacidade de pagamento de um país.
Quanto maior a relação entre dívida e PIB, maior tende a ser a preocupação dos investidores sobre a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo.
Crescimento da dívida aumenta preocupação do mercado
Desde janeiro de 2023, quando o atual governo iniciou o mandato, a dívida bruta brasileira aumentou cerca de 10,2 pontos percentuais do PIB.
A elevação ocorre em um momento no qual investidores acompanham com atenção a capacidade do país de controlar despesas e manter uma trajetória fiscal considerada sustentável.
O aumento da dívida pode influenciar diversos fatores econômicos, como:
- percepção de risco do país;
- custo de financiamento público e privado;
- comportamento dos juros;
- atração de investimentos estrangeiros;
- confiança de empresas e consumidores.
Quando o mercado percebe maior dificuldade de controle das contas públicas, pode exigir juros maiores para comprar títulos públicos, aumentando ainda mais o custo da dívida.
Resultado de junho mostra pressão adicional nas contas públicas
Somente em junho, a conta de juros nominais do setor público brasileiro somou R$ 110,7 bilhões.
No mesmo mês, o setor público consolidado apresentou déficit primário de R$ 55,3 bilhões.
O resultado ficou pior que a expectativa de economistas consultados pelo mercado, que projetavam um déficit primário próximo de R$ 49,8 bilhões.
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Com a soma dos juros e do resultado primário, o déficit nominal mensal chegou a R$ 166 bilhões.
O desempenho mostrou uma deterioração maior que a previsão inicial de analistas, que esperavam um resultado negativo de aproximadamente R$ 133,2 bilhões.
Governo central concentrou maior parte do déficit
Os dados do Banco Central mostram que o governo central teve déficit primário de R$ 47,2 bilhões em junho.
O resultado inclui as contas do Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central.
Estados e municípios registraram saldo negativo de R$ 6,6 bilhões, enquanto empresas estatais apresentaram déficit de R$ 1,5 bilhão.
A soma dos resultados evidencia que o desafio fiscal brasileiro envolve diferentes níveis da administração pública.
Por que os juros elevados aumentam o déficit?
A taxa básica de juros influencia diretamente o custo da dívida pública porque grande parte dos títulos emitidos pelo governo possui remuneração ligada às condições do mercado.
Quando a Selic permanece alta, novas emissões de títulos tendem a exigir retornos maiores para atrair compradores.
Além disso, títulos pós-fixados ligados à taxa básica passam a gerar uma despesa maior para o governo.
Por esse motivo, uma política monetária mais restritiva, embora necessária para combater a inflação, pode pressionar temporariamente as contas públicas.
O desafio está em equilibrar o controle dos preços com uma trajetória fiscal que mantenha a confiança dos investidores.
Comparação internacional aumenta pressão sobre o Brasil

O tamanho do déficit brasileiro também chama atenção quando comparado com outros países emergentes.
Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que o déficit médio projetado para economias emergentes e de renda média fica em torno de 6% do PIB.
Com um resultado próximo de 10%, o Brasil aparece em uma posição mais pressionada entre seus pares.
Economistas avaliam que uma situação fiscal mais frágil pode limitar a capacidade do país de responder a crises futuras e pode dificultar a redução estrutural dos juros.
Rmcarvalho / Getty Images
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