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Derrota de Trump no Congresso pode frear pressão dos EUA sobre a América Latina

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
Tarifas EUA 18

A vitória dos democratas nas eleições legislativas de meio de mandato, realizadas em 3 de novembro de 2026, representa um revés importante para Donald Trump. O partido conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, retirando dos republicanos a maioria nas duas casas do Congresso norte-americano.

O resultado aumenta a capacidade de fiscalização sobre o governo e pode dificultar a aprovação de propostas defendidas pela Casa Branca. A mudança também tem potencial para influenciar a política externa dos Estados Unidos, especialmente em regiões onde o governo Trump adotou uma postura mais agressiva, como a América Latina.

Para o Brasil, um dos possíveis reflexos é a criação de um ambiente mais favorável à negociação de divergências comerciais. No entanto, uma mudança imediata nas tarifas impostas aos produtos brasileiros não está garantida.

A nova composição do Congresso só assumirá em janeiro de 2027. Até lá, Trump continuará governando com a estrutura legislativa atual, embora a derrota eleitoral já possa aumentar a pressão política sobre suas decisões.

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Como o Congresso pode limitar a política externa de Trump

Trump
Imagem: Freepik

A conquista das duas casas pelos democratas amplia os instrumentos de controle sobre o Executivo. O Congresso norte-americano tem poder para aprovar orçamentos, fiscalizar órgãos do governo, convocar autoridades para prestar esclarecimentos e abrir investigações sobre decisões presidenciais.

Na prática, isso pode elevar o custo político e financeiro de operações internacionais que dependam de recursos federais. Comissões legislativas também poderão exigir informações sobre acordos, ações militares e iniciativas diplomáticas conduzidas pelo governo.

A área de defesa é particularmente relevante nesse cenário. O orçamento militar e os recursos destinados a operações no exterior passam pelo processo legislativo, o que permite aos parlamentares discutir prioridades e estabelecer condições para determinados gastos.

Apesar disso, a vitória democrata não significa que Trump perderá o controle da política externa. O presidente mantém poderes executivos importantes e pode vetar projetos aprovados pelo Congresso. Para derrubar um veto presidencial, os parlamentares precisam reunir dois terços dos votos em cada uma das casas, uma maioria difícil de alcançar.

Assim, o efeito mais provável no curto prazo é o aumento da fiscalização, das audiências e das disputas políticas, e não uma paralisação automática das iniciativas da Casa Branca.

América Latina pode sentir os efeitos da mudança

A política de Trump para a América Latina tem sido marcada pela tentativa de ampliar a influência dos Estados Unidos e limitar a presença econômica e política da China na região.

Essa estratégia envolve iniciativas de segurança, acordos com governos aliados e maior participação norte-americana em setores considerados estratégicos. O Escudo das Américas, apresentado sob a justificativa de combater organizações criminosas e cartéis de drogas, tornou-se um dos principais instrumentos dessa aproximação.

Entretanto, especialistas questionam se a iniciativa também pode funcionar como mecanismo de pressão sobre governos e instituições latino-americanas.

Um dos episódios que ampliaram esse debate ocorreu na Bolívia. O procurador-geral Roger Mariaca foi preso em outubro, depois de ter seu visto norte-americano revogado. Ele investigava o operador digital argentino Fernando Cerimedo, ligado a grupos políticos de direita na região. O governo boliviano apresentou acusações de envolvimento com uma organização criminosa, enquanto Mariaca questionou a atuação dos Estados Unidos e apontou possível interferência em seu trabalho.

O episódio mostra como ações de segurança e decisões diplomáticas podem gerar tensões políticas na região. Com um Congresso de maioria democrata, iniciativas desse tipo poderão enfrentar maior escrutínio em Washington, embora não exista garantia de que serão interrompidas.

Relação entre Estados Unidos e Venezuela também entra no debate

A atuação norte-americana na Venezuela é outro exemplo da política mais intervencionista de Trump. Após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, Washington passou a negociar acordos envolvendo a exploração e a comercialização do petróleo venezuelano.

Um dos arranjos divulgados pela Casa Branca prevê a participação de uma empresa com ligação ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos na operação de campos petrolíferos que representam cerca de 21% das reservas do país. O acordo prevê também o fornecimento de parte da produção ao governo norte-americano pelo custo de extração.

A dimensão econômica e estratégica desse tipo de operação pode alimentar questionamentos no Congresso, principalmente sobre os interesses envolvidos, os recursos públicos utilizados e as consequências para a soberania dos países latino-americanos.

Uma maioria democrata poderá exigir mais explicações do Executivo, mas a capacidade de alterar acordos já estabelecidos dependerá dos instrumentos legais disponíveis e da disposição dos parlamentares para enfrentar eventuais vetos presidenciais.

Brasil pode ganhar espaço para negociar o tarifaço

No relacionamento entre Brasília e Washington, o comércio é um dos temas que podem sofrer influência da nova configuração política norte-americana.

O governo Trump adotou tarifas adicionais contra produtos brasileiros em 2026, com medidas baseadas na legislação comercial dos Estados Unidos. Parte das mercadorias ficou sujeita a sobretaxas de 25%, enquanto outra parcela também passou a enfrentar uma cobrança adicional de 12,5%, conforme o enquadramento de cada produto.

Segundo levantamento divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as medidas adicionais alcançam aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, considerando os dados comerciais utilizados pelo órgão.

A pressão sobre a política comercial pode crescer com a mudança no comando do Congresso. Parlamentares democratas poderão promover audiências, questionar os fundamentos das tarifas e discutir propostas para restringir a margem de atuação do Executivo nesse campo.

Isso não significa, porém, que as cobranças serão retiradas automaticamente. A política tarifária norte-americana depende de instrumentos legais específicos, e Trump ainda dispõe de mecanismos para manter suas decisões. Uma alteração mais profunda exigiria negociações, mudanças normativas ou decisões administrativas e judiciais.

Terras raras e data centers ampliam os interesses bilaterais

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Imagem: Freepik

Além das tarifas, Brasil e Estados Unidos têm interesses econômicos em áreas estratégicas, como minerais críticos, tecnologia e infraestrutura digital.

As terras raras e outros minerais estratégicos são importantes para a fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, sistemas de energia e componentes utilizados pela indústria de defesa. O Brasil possui reservas relevantes e pode atrair investimentos interessados em ampliar a diversificação das cadeias de fornecimento.

Os data centers também estão no radar das empresas internacionais. A expansão da inteligência artificial e dos serviços digitais aumenta a demanda por estruturas de processamento de dados, energia e conectividade. O território brasileiro pode se tornar um destino relevante para esses investimentos, desde que existam condições regulatórias, energéticas e econômicas competitivas.

Nesse contexto, uma relação comercial menos conflituosa com Washington poderia favorecer negociações em diferentes setores. A necessidade de acordos econômicos também pode incentivar os dois governos a reduzir tensões.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

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