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Renegociação pelo Desenrola avança, mas famílias ainda enfrentam alto nível de dívidas

O Novo Desenrola Brasil avançou rapidamente em seus primeiros meses e permitiu que milhões de brasileiros renegociassem dívidas com descontos, juros menores e p

Bruna MachadoPor Bruna Machado14 min de leitura
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O Novo Desenrola Brasil avançou rapidamente em seus primeiros meses e permitiu que milhões de brasileiros renegociassem dívidas com descontos, juros menores e prazos mais longos. Mesmo assim, os principais indicadores financeiros do país ainda não mostram uma queda significativa no endividamento e na inadimplência.

A aparente contradição tem uma explicação: renegociar uma dívida não significa eliminá-la imediatamente. Em muitos casos, o consumidor troca uma conta vencida e cara por um novo contrato parcelado. A situação pode ficar mais organizada, mas a obrigação financeira continua existindo.

Além disso, enquanto parte da população renegocia débitos antigos, outras famílias entram no endividamento ou deixam de pagar contas pela primeira vez. Por isso, o efeito de um programa desse porte costuma aparecer gradualmente nas estatísticas.

Até junho de 2026, 81,6% das famílias brasileiras declaravam possuir algum tipo de dívida, enquanto 29,9% estavam com contas em atraso, segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Ao mesmo tempo, o país chegou a 83,7 milhões de consumidores negativados, o maior número da série histórica da Serasa.

Entender essa diferença é essencial para avaliar o alcance do Desenrola e, principalmente, para saber quando uma renegociação realmente ajuda o orçamento familiar.

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Desenrola movimenta R$ 44,7 bilhões em menos de três meses

Desenrola Brasil
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O Novo Desenrola Brasil foi lançado pelo governo federal em 4 de maio de 2026, por meio da Medida Provisória nº 1.355. A proposta é ajudar famílias a reorganizar dívidas bancárias em atraso e recuperar sua capacidade financeira.

Em menos de três meses, o conjunto de iniciativas associado ao programa movimentou aproximadamente R$ 44,7 bilhões em crédito e renegociações. O ritmo inicial foi superior ao observado na primeira edição do Desenrola, realizada entre julho de 2023 e maio de 2024.

Entre as famílias, foram registradas cerca de 3,5 milhões de operações. As dívidas envolvidas tinham valor original próximo de R$ 20,9 bilhões, mas caíram para aproximadamente R$ 3,7 bilhões depois dos descontos e das renegociações.

Isso significa que, em muitos acordos, o consumidor conseguiu reduzir consideravelmente o valor que precisaria pagar. A economia, porém, não aparece automaticamente como uma queda imediata no número total de endividados.

Por que o endividamento ainda não caiu?

A principal razão é que o endividamento mede uma situação diferente da inadimplência.

Uma pessoa é considerada endividada quando possui compromissos financeiros a vencer, como parcelas do cartão de crédito, financiamento de veículo, empréstimo pessoal ou carnê de loja. Ela pode estar pagando tudo em dia e, ainda assim, aparecer na estatística de endividamento.

A inadimplência ocorre quando a dívida deixa de ser paga no prazo.

Portanto:

  • todo inadimplente possui uma dívida;
  • nem toda pessoa endividada está inadimplente;
  • quem renegocia uma dívida pode continuar endividado enquanto paga as novas parcelas;
  • a retirada do nome dos cadastros de restrição não significa que o contrato deixou de existir.

Essa diferença ajuda a explicar por que milhões de acordos podem ser fechados sem provocar uma redução imediata no percentual de famílias endividadas.

Renegociar não é o mesmo que quitar

Imagine, por exemplo, um consumidor com uma dívida de cartão de crédito de R$ 8 mil.

Depois da renegociação, o banco oferece um desconto e reduz o débito para R$ 3 mil, parcelados em 24 meses. A condição é muito mais favorável, pois diminui o valor total e substitui os juros elevados do cartão por uma parcela previsível.

Ainda assim, esse consumidor continuará com uma obrigação financeira durante dois anos. Dependendo da metodologia da pesquisa, ele continuará sendo considerado endividado enquanto as parcelas estiverem abertas.

A melhora acontece em etapas:

  1. o consumidor interrompe o crescimento da dívida;
  2. substitui juros elevados por uma condição mais barata;
  3. regulariza o atraso;
  4. recupera o acesso ao crédito;
  5. reduz gradualmente o comprometimento da renda;
  6. conclui o pagamento.

Por isso, os efeitos mais fortes de uma renegociação tendem a aparecer depois de vários meses, desde que as novas parcelas sejam pagas normalmente.

Novos consumidores continuam entrando na inadimplência

Outro ponto importante é que o Desenrola atua sobre dívidas já existentes, mas não impede que novas contas atrasem.

Enquanto algumas pessoas regularizam o nome, outras enfrentam dificuldades provocadas por:

  • juros elevados;
  • uso frequente do cartão de crédito;
  • queda ou instabilidade da renda;
  • despesas inesperadas;
  • desemprego;
  • doenças na família;
  • acúmulo de empréstimos;
  • aumento do custo de itens básicos.

Em junho de 2026, o Brasil alcançou 83,7 milhões de consumidores negativados. O resultado representou o 18º mês consecutivo de crescimento e o maior nível da série histórica da Serasa.

Na prática, a entrada de novos inadimplentes pode compensar ou até superar a quantidade de pessoas que conseguem regularizar os débitos.

Cartão de crédito continua pressionando o orçamento

O cartão de crédito permanece como a principal forma de endividamento das famílias brasileiras. Ele aparece com frequência muito superior ao crédito pessoal, aos carnês de lojas e a outras modalidades.

O problema não está necessariamente no uso do cartão, mas na dificuldade de pagar a fatura integralmente. Quando o consumidor paga apenas o valor mínimo ou parcela a fatura sem avaliar o custo total, a dívida pode crescer rapidamente.

As modalidades mais caras incluem:

  • crédito rotativo do cartão;
  • parcelamento da fatura;
  • cheque especial;
  • empréstimo pessoal sem garantia.

O Banco Central acompanha esse cenário porque o aumento de dívidas caras eleva o comprometimento da renda. Em outras palavras, uma parcela maior do salário mensal passa a ser usada apenas para pagar prestações e juros.

Dados da autoridade monetária indicaram que o endividamento das famílias estava em 49,8% em abril de 2026, com elevação acumulada em 12 meses. O Relatório de Estabilidade Financeira também destacou que o alto endividamento, combinado a juros elevados, aumenta o risco de inadimplência.

Como funciona o Novo Desenrola Brasil para famílias?

O programa permite a renegociação de determinadas operações de crédito contratadas com instituições financeiras.

Podem participar pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos que possuam contratos elegíveis celebrados até 31 de janeiro de 2026. As parcelas precisam estar atrasadas por um período de 91 a 720 dias, ou seja, até aproximadamente dois anos.

Entre as modalidades contempladas estão:

  • cartão de crédito rotativo ou parcelado;
  • cheque especial;
  • crédito pessoal sem desconto em folha;
  • outras operações autorizadas pelas regras do programa.

As informações de renda são verificadas pelas instituições financeiras com base nos dados registrados no Sistema de Informações de Créditos do Banco Central.

Quais condições podem ser oferecidas?

As instituições participantes devem apresentar condições mais favoráveis do que as encontradas nos contratos antigos.

O programa prevê:

  • descontos que podem chegar a 90%, conforme o tipo e o tempo da dívida;
  • juros limitados a até 1,99% ao mês nas operações enquadradas;
  • prazo maior para pagamento;
  • possibilidade de quitar a dívida com recursos próprios;
  • contratação de uma nova operação para substituir o débito antigo.

As condições exatas variam conforme a instituição, o perfil do cliente e as características da dívida. O desconto máximo, portanto, não é garantido para todos os consumidores.

A página oficial do serviço informa que o programa tem duração prevista de 90 dias a partir de sua criação, embora as regras admitam hipóteses de prorrogação para instituições com melhor desempenho.

Desconto de 90% significa que todas as dívidas ficam muito menores?

Não.

O percentual divulgado representa o limite que pode ser oferecido em determinadas situações. Cada credor avalia fatores como:

  • tempo de atraso;
  • valor original;
  • juros acumulados;
  • possibilidade de recuperação;
  • modalidade de crédito;
  • condição financeira do cliente.

Uma dívida antiga, que já foi considerada de difícil recuperação, pode receber desconto maior. Já um débito recente pode ter uma redução menor.

Por isso, o consumidor deve analisar o valor final do acordo, e não apenas a porcentagem anunciada.

É possível usar o FGTS na renegociação?

A Medida Provisória nº 1.355 autorizou um saque extraordinário do FGTS para amortizar ou quitar dívidas renegociadas dentro do Novo Desenrola Brasil.

Pelas regras estabelecidas, o limite corresponde a R$ 1 mil ou a 20% dos saldos disponíveis nas contas vinculadas, prevalecendo o maior valor. A autorização alcança contas ativas e inativas, respeitando o cronograma e os critérios operacionais definidos para o programa.

Esse uso exige cautela. O FGTS funciona como uma reserva para situações específicas, como demissão sem justa causa, aposentadoria, doenças graves ou compra da casa própria.

Usar parte do fundo pode fazer sentido quando o dinheiro permite eliminar uma dívida muito cara. Porém, o trabalhador precisa comparar a economia obtida com a redução de sua reserva.

O Desenrola também atende empresas?

O Novo Desenrola faz parte de um conjunto mais amplo de iniciativas de reorganização financeira. Além da frente voltada diretamente às famílias, o governo relaciona o programa a medidas destinadas a estudantes e pequenos empreendedores.

No segmento empresarial, linhas como o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, o Pronampe, e o Procred ampliam o acesso ao crédito para pequenos negócios.

Segundo os dados apresentados na divulgação dos resultados, o Pronampe respondeu por R$ 21,7 bilhões em operações, enquanto o Procred movimentou aproximadamente R$ 1,5 bilhão.

É importante não confundir essas linhas empresariais com a renegociação familiar. Cada modalidade possui público, critérios, finalidade e regras próprios.

Desenrola pode reduzir a inadimplência nos próximos meses?

Pode, mas o resultado dependerá de vários fatores.

Um estudo divulgado pela Serasa estimou que o Novo Desenrola poderia retirar até 7,8 milhões de brasileiros da inadimplência no cenário mais favorável. Isso representaria uma redução potencial de aproximadamente 9,6% no número de negativados.

Essa projeção não é uma garantia. O impacto real dependerá:

  • da quantidade de consumidores que aderirem;
  • do tamanho dos descontos;
  • da capacidade de pagar as novas parcelas;
  • da entrada de novos inadimplentes;
  • da evolução dos juros;
  • do emprego e da renda;
  • do custo de vida.

Se muitos consumidores renegociarem, mas voltarem a atrasar as parcelas, o efeito será limitado. Da mesma forma, se a economia continuar produzindo novos inadimplentes em ritmo elevado, a melhora poderá demorar.

Quando uma renegociação realmente vale a pena?

Renegociar costuma ser vantajoso quando o novo acordo reduz o custo da dívida e cria uma parcela compatível com o orçamento.

Antes de aceitar, o consumidor deve conferir:

  • valor original da dívida;
  • desconto oferecido;
  • valor final a pagar;
  • quantidade de parcelas;
  • taxa de juros;
  • custo total do acordo;
  • data de vencimento;
  • consequências de um novo atraso.

A parcela precisa caber no orçamento não apenas no mês da contratação, mas durante todo o período.

Exemplo prático

Considere uma família com renda mensal de R$ 3.500 e despesas essenciais de R$ 3 mil.

Nesse caso, sobram R$ 500 antes de gastos imprevistos. Aceitar uma renegociação com parcela de R$ 450 seria arriscado, pois praticamente eliminaria toda a margem do orçamento.

Uma parcela menor, mesmo com prazo mais longo, pode ser mais segura. O ponto principal é evitar um acordo que seja abandonado depois de poucos meses.

O que acontece se a pessoa atrasar o novo acordo?

A renegociação cria uma nova obrigação. Se as parcelas não forem pagas, o consumidor poderá voltar a ficar inadimplente e sofrer nova restrição nos cadastros de crédito.

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O contrato também poderá prever:

  • cobrança de multa;
  • juros por atraso;
  • vencimento antecipado;
  • perda de condições especiais;
  • retomada das cobranças.

A legislação do programa determina a aplicação das normas do Código de Defesa do Consumidor, incluindo transparência, boa-fé e proibição de práticas abusivas. Isso não elimina, porém, a responsabilidade do consumidor de cumprir o acordo.

Como evitar golpes envolvendo o Desenrola?

Programas de renegociação costumam ser explorados por criminosos, especialmente quando envolvem descontos elevados.

O consumidor deve negociar apenas pelos canais oficiais das instituições participantes. Também deve desconfiar de mensagens que prometem exclusão imediata de dívidas mediante pagamento por Pix para contas de pessoas físicas.

Alguns cuidados importantes são:

  • não compartilhar senhas;
  • não informar códigos enviados por SMS;
  • não instalar aplicativos recebidos por mensagem;
  • verificar o beneficiário antes de pagar;
  • não clicar em links enviados por desconhecidos;
  • confirmar a proposta diretamente com o banco;
  • guardar contrato, comprovantes e protocolos.

A participação no serviço oficial é gratuita. Cobranças para “liberar acesso” ao programa são um sinal de alerta.

Por que o programa ajuda mesmo sem reduzir imediatamente o endividamento?

O principal benefício do Desenrola não é fazer todas as dívidas desaparecerem de uma vez. Sua função é interromper um processo de deterioração financeira.

Uma dívida no cartão ou no cheque especial pode crescer todos os meses devido aos juros. Ao trocar essa obrigação por um contrato mais barato, o consumidor ganha previsibilidade e aumenta a chance de conseguir pagar.

Os possíveis efeitos incluem:

  • redução do valor total devido;
  • retirada de restrições após o cumprimento das regras;
  • recuperação gradual do acesso ao crédito;
  • diminuição dos juros;
  • reorganização do orçamento;
  • melhora da capacidade de consumo no futuro.

Portanto, a ausência de uma queda imediata nos indicadores não significa que o programa seja inútil. Significa apenas que seus resultados precisam ser avaliados ao longo do tempo e em conjunto com outros fatores econômicos.

Renegociação sozinha não resolve o problema estrutural

Programas como o Desenrola tratam o estoque de dívidas já acumulado. Eles não eliminam as causas que levam as famílias ao endividamento excessivo.

Entre essas causas estão:

  • custo elevado do crédito;
  • falta de reserva para emergências;
  • renda insuficiente;
  • instabilidade no trabalho;
  • inflação de serviços essenciais;
  • baixa educação financeira;
  • facilidade de contratação de crédito caro.

Sem melhora nessas áreas, parte dos consumidores que sai da inadimplência pode voltar a atrasar contas no futuro.

Por isso, a efetividade do programa depende também de políticas de renda e emprego, redução do custo do crédito, fiscalização das práticas bancárias e acesso a orientações financeiras claras.

O que o consumidor deve fazer agora?

Quem possui dívidas bancárias em atraso deve primeiro confirmar se atende aos critérios do Novo Desenrola Brasil.

O passo seguinte é procurar diretamente a instituição credora e solicitar uma proposta detalhada. Antes de aceitar, é fundamental comparar o custo total da renegociação com outras alternativas disponíveis.

O consumidor também deve organizar um orçamento realista. Despesas essenciais, como alimentação, moradia, energia, água, medicamentos e transporte, precisam ser preservadas.

Renegociar pode ser uma oportunidade importante, mas o acordo só resolverá o problema se a nova parcela puder ser paga até o fim.

Perguntas frequentes sobre o Novo Desenrola Brasil

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Quem pode participar do Novo Desenrola Brasil?

Pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos e dívidas bancárias elegíveis contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 91 e 720 dias.

Quais dívidas podem ser renegociadas?

O programa contempla modalidades como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem desconto em folha, além de outras operações autorizadas pelas regras oficiais.

O Desenrola oferece desconto de 90% para todos?

Não. O desconto pode chegar a 90%, mas o percentual depende da dívida, do período de atraso e das condições apresentadas pela instituição financeira.

Renegociar tira o nome da lista de inadimplentes?

A regularização do cadastro depende das condições do acordo e do procedimento adotado pelo credor. O consumidor deve confirmar no contrato quando ocorrerá a retirada da restrição.

Quem renegocia deixa de ser considerado endividado?

Não necessariamente. Enquanto existirem parcelas a pagar, a pessoa continua tendo uma obrigação financeira, mesmo que não esteja mais inadimplente.

Posso usar o FGTS no Desenrola?

A legislação autorizou um saque extraordinário para amortizar ou quitar dívidas renegociadas pelo programa, observados os limites, os critérios de renda e as regras operacionais.

O que acontece se eu não pagar o novo acordo?

O consumidor poderá voltar à inadimplência, sofrer nova negativação e ter cobrança de juros, multas ou outras penalidades previstas no contrato.

O Novo Desenrola Brasil tem prazo?

O programa para famílias tem duração prevista de 90 dias a partir de 4 de maio de 2026, com possibilidade de prorrogação em situações estabelecidas pela regulamentação.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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