O Novo Desenrola Brasil voltou ao centro das discussões sobre o endividamento das famílias após dados do Fundo Garantidor de Operações (FGO) apontarem que 30,34% das operações parceladas renegociadas no programa aparecem como inadimplentes em setembro de 2026.
O número ainda está sendo conferido pelo Ministério da Fazenda junto às instituições financeiras participantes. A pasta também alertou que parte dos registros classificados como inadimplentes pode incluir contratos cancelados, especialmente casos em que a renegociação foi formalizada, mas a primeira parcela sequer chegou a ser paga.
Desde o início desta etapa do programa, em maio, foram renegociadas 5,54 milhões de dívidas, envolvendo cerca de R$ 28,37 bilhões antes dos descontos. Desse total, 2,25 milhões de operações deram origem a novos empréstimos, enquanto as demais foram quitadas à vista. Entre o saldo ainda existente na carteira, R$ 1,25 bilhão de R$ 3,3 bilhões aparece sem pagamento, o equivalente a 37,4%.
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Por que a inadimplência voltou a preocupar

A renegociação reduz o custo de uma dívida, mas não necessariamente resolve a causa que levou o consumidor ao atraso. Quando uma família já possui várias despesas fixas, a redução do saldo devedor pode não ser suficiente para criar espaço no orçamento para uma nova parcela mensal.
Esse é um dos pontos que ajudam a explicar por que a inadimplência pode reaparecer mesmo depois de uma renegociação. Um consumidor que transforma uma dívida antiga em um novo contrato continua precisando reservar dinheiro todos os meses para cumprir o acordo.
O problema ganha importância porque o objetivo do Novo Desenrola Brasil é justamente permitir a reorganização financeira de famílias com dívidas em atraso. A exposição de motivos da Medida Provisória que criou o programa destacou a intenção de reduzir o comprometimento da renda e facilitar a regularização das obrigações financeiras.
Fazenda ainda analisa os dados
O índice de 30,34% não deve ser interpretado como uma fotografia definitiva de todos os acordos realizados. O Ministério da Fazenda informou que está verificando os dados do FGO com os bancos participantes.
Isso ocorre porque operações canceladas podem aparecer inicialmente nos registros de inadimplência. Nesses casos, o contrato renegociado é desfeito quando o consumidor não paga a primeira parcela, e a dívida original volta a valer.
A própria Fazenda informou que, até o momento dos dados divulgados, nenhuma operação havia sido efetivamente coberta pelo FGO.
Como funcionou o Novo Desenrola Brasil
O programa foi criado pela Medida Provisória nº 1.355/2026, com o objetivo de facilitar a renegociação de dívidas de pessoas físicas junto ao sistema financeiro. A iniciativa permitia condições diferenciadas para determinados débitos em atraso.
Entre as regras estabelecidas estavam a possibilidade de descontos sobre as dívidas, pagamento parcelado em até 48 meses e taxa de juros de até 1,99% ao mês, dependendo da operação.
O público potencial incluía pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos e determinadas operações de crédito sem garantia que estivessem em atraso dentro do período previsto pela regulamentação.
O programa também permitiu, dentro das condições estabelecidas, o uso de recursos do FGTS para amortizar ou quitar dívidas renegociadas. O próprio FGTS informa que a utilização dependia do cumprimento dos requisitos e do processamento das informações enviadas pelas instituições financeiras.
Prazo para participar já terminou
É importante diferenciar as regras do programa de uma eventual nova etapa. A MP nº 1.355/2026 teve sua vigência encerrada em 31 de agosto de 2026, conforme ato publicado pelo Congresso Nacional.
Portanto, quem não aderiu ao Novo Desenrola dentro do prazo não deve considerar que as condições anteriores continuam abertas para novas renegociações.
O fim da vigência também significa que eventuais mudanças futuras precisam ser formalizadas por uma nova medida ou instrumento jurídico adequado.
Governo estuda comprar dívidas antigas
Diante do estoque de débitos que permanece após as renegociações, o governo avalia uma alternativa diferente: a compra de dívidas antigas diretamente dos credores.
A proposta ainda não está formalizada como um novo programa. Segundo informações divulgadas em setembro, uma das possibilidades em análise envolve dívidas contraídas durante a pandemia e a aquisição desses créditos com descontos muito elevados, que poderiam chegar a 95% ou 97% em determinados cenários.
Nesse modelo, o poder público compraria determinados créditos por um valor muito inferior ao saldo nominal. Ainda estão em discussão questões como quais dívidas seriam elegíveis, quem poderia participar, quanto seria desembolsado e qual seria o tratamento dado ao débito depois da aquisição.
Por isso, consumidores não devem considerar esses percentuais como descontos já disponíveis. A proposta está em estudo e não representa uma nova rodada de renegociação aberta.
O que fazer se a dívida ainda existe

Quem não conseguiu participar do Desenrola ou continua inadimplente pode procurar diretamente o credor para verificar as condições atuais de negociação. Bancos e financeiras também podem oferecer alternativas próprias de repactuação, que devem ser comparadas pelo custo total e não apenas pelo tamanho da parcela.
Uma parcela menor pode parecer vantajosa, mas um prazo muito longo pode elevar o valor total pago. Antes de aceitar uma nova operação de crédito, o consumidor deve verificar juros, tarifas, número de parcelas, custo efetivo total e consequências em caso de novo atraso.
Também é importante evitar contratar um novo empréstimo apenas para cobrir despesas recorrentes sem ajustar o orçamento. Nesse cenário, a troca da dívida pode apenas adiar o problema.
O Banco Central disponibiliza informações e ferramentas relacionadas ao histórico de crédito e ao Sistema de Informações de Crédito (SCR), que podem ajudar o consumidor a entender suas operações financeiras. O órgão também mantém bases públicas relacionadas ao antigo Desenrola Brasil.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
