As desigualdades raciais e socioeconômicas já influenciam as oportunidades de aprendizagem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental. Uma análise da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, baseada em dados de uma avaliação internacional, identificou diferenças no desempenho de crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola, especialmente em habilidades matemáticas, memória e linguagem.
Os resultados mostram que crianças pretas apresentam desempenho inferior ao de crianças brancas em determinadas competências. As diferenças se tornam ainda mais expressivas quando fatores como renda familiar e condições socioeconômicas são considerados, evidenciando como a desigualdade social pode limitar o desenvolvimento infantil desde os primeiros anos de vida.
O levantamento também chama a atenção para a necessidade de políticas públicas que enfrentem o racismo estrutural e ampliem o acesso a experiências educacionais de qualidade. A seguir, entenda o que os dados revelam, quais fatores ajudam a explicar as diferenças e quais medidas podem contribuir para mudar esse cenário.
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Estudo identifica diferenças de aprendizagem entre crianças de 5 anos

A análise da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal utiliza resultados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A avaliação acompanha crianças de 5 anos que frequentam a pré-escola e considera três grandes dimensões do desenvolvimento: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais.
Entre as competências observadas estão a capacidade de compreender palavras e narrativas, reconhecer números, comparar quantidades, identificar padrões e utilizar a memória de trabalho. Essas habilidades são importantes para a adaptação ao ambiente escolar e para a continuidade do processo de aprendizagem.
Os resultados apontaram diferenças estatisticamente significativas entre grupos raciais em algumas dessas áreas. Para a fundação, os números ajudam a demonstrar que as desigualdades educacionais não começam apenas nos anos iniciais do ensino fundamental, mas podem estar presentes desde a educação infantil.
Crianças pretas apresentam diferença de 40 pontos em habilidade matemática
Uma das disparidades mais expressivas aparece na numeracia emergente, conjunto de habilidades matemáticas desenvolvidas na infância. Ela envolve atividades simples do cotidiano, como contar objetos, comparar quantidades, reconhecer sequências e identificar padrões.
Na comparação por raça/cor, as médias registradas foram:
| Grupo racial | Pontuação |
|---|---|
| Crianças pretas | 423 pontos |
| Crianças pardas | 447 pontos |
| Crianças brancas | 463 pontos |
A distância entre crianças pretas e brancas chegou a 40 pontos. O resultado indica que diferenças nas oportunidades de desenvolvimento já podem ser observadas antes da alfabetização formal e do início do ensino fundamental.
A memória de trabalho também apresentou diferenças. Essa capacidade permite guardar informações temporariamente e utilizá-las para realizar tarefas, acompanhar instruções e resolver problemas.
Nesse indicador, crianças pretas alcançaram 462 pontos, enquanto crianças pardas registraram 463 e crianças brancas chegaram a 471 pontos.
Desigualdade de renda amplia as diferenças no desenvolvimento infantil
As diferenças de aprendizagem se tornam ainda mais expressivas quando raça/cor e condições socioeconômicas são analisadas em conjunto. Segundo a análise da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, crianças pretas, pardas ou indígenas de famílias com baixo nível socioeconômico apresentaram resultados inferiores aos de crianças brancas ou amarelas de famílias com nível socioeconômico alto nas três competências avaliadas. A maior distância foi registrada em numeracia emergente, com 84 pontos de diferença. O resultado evidencia como as desigualdades sociais e raciais podem se sobrepor e ampliar as disparidades nas oportunidades de desenvolvimento desde os primeiros anos de vida.
Veja as diferenças de pontuação em cada competência:
| Competência avaliada | Crianças de baixo nível socioeconômico (pretas, pardas ou indígenas) | Crianças de alto nível socioeconômico (brancas ou amarelas) | Diferença |
|---|---|---|---|
| Numeracia | 416 pontos | 500 pontos | 84 pontos |
| Literacia | 477 pontos | 532 pontos | 55 pontos |
| Memória de trabalho | 441 pontos | 496 pontos | 55 pontos |
Fonte: dados do estudo analisados pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
A numeracia apresentou a maior disparidade, indicando diferenças nas habilidades relacionadas ao reconhecimento de números, à contagem e à comparação de quantidades. Já em literacia, que envolve a compreensão de narrativas, palavras e sons, e em memória de trabalho, a distância entre os grupos chegou a 55 pontos em cada competência.
Os resultados reforçam que as oportunidades de aprendizagem não dependem apenas da experiência dentro da sala de aula. O acesso a livros, atividades culturais, alimentação adequada, serviços de qualidade e estímulos durante a infância também faz parte das condições que favorecem o desenvolvimento. Quando esses recursos são distribuídos de maneira desigual, crianças que já enfrentam vulnerabilidades sociais e raciais podem encontrar obstáculos adicionais para desenvolver suas habilidades.
Por que a primeira infância é tão importante para a aprendizagem?
A primeira infância, período que compreende os primeiros seis anos de vida, é uma etapa de intenso desenvolvimento cerebral, cognitivo, emocional e social.
Durante esses anos, as experiências familiares, as interações com outras crianças, o acesso à educação infantil e a qualidade dos serviços de saúde e assistência social influenciam a construção de habilidades que serão utilizadas ao longo da vida.
Isso significa que o desenvolvimento infantil não depende exclusivamente das características individuais de cada criança. O ambiente em que ela cresce e as oportunidades oferecidas também exercem influência.
No caso das desigualdades raciais, o problema está relacionado a fatores históricos e estruturais que afetam o acesso a direitos e serviços. Crianças negras e indígenas podem estar mais expostas a condições de vulnerabilidade, enquanto a ausência de práticas pedagógicas inclusivas pode reforçar diferenças dentro das próprias instituições de ensino.
A diretora de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Marina Fragata Chicaro, explica que raça, cor e renda não determinam a capacidade de aprendizagem. O que interfere no desenvolvimento são as condições de vida, o acesso aos direitos e as oportunidades disponíveis para cada criança.
Quais políticas públicas podem reduzir as desigualdades na educação infantil?
A análise aponta que o enfrentamento das diferenças precisa começar antes que elas se acumulem ao longo da trajetória escolar. Para isso, o Brasil já conta com iniciativas e instrumentos legais voltados à proteção da infância e à promoção da equidade racial.
Entre as principais medidas estão:
Política Nacional Integrada da Primeira Infância
A política busca articular ações de diferentes setores do poder público, incluindo educação, saúde, assistência social e proteção. A proposta é priorizar crianças em situação de vulnerabilidade e garantir atendimento mais abrangente às necessidades da primeira infância.
Política Nacional de Equidade e Educação para as Relações Étnico-Raciais
A Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ) busca combater o racismo nas instituições de ensino, fortalecer a formação dos profissionais da educação e ampliar o reconhecimento da história e da cultura afro-brasileira, africana e quilombola.
Plano Nacional de Educação
O planejamento educacional brasileiro também prevê metas relacionadas à ampliação do acesso e à redução das desigualdades. A análise destaca a necessidade de acompanhar a entrada e a permanência de crianças negras, indígenas e quilombolas na educação infantil, além de monitorar as diferenças de aprendizagem.
A efetividade dessas medidas depende de metas claras, acompanhamento dos indicadores e articulação entre as redes de ensino.
O que precisa ser feito para mudar esse cenário?
Além dos instrumentos legais, a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal aponta caminhos para transformar os resultados das avaliações em ações concretas.
Uma das recomendações é acompanhar os indicadores educacionais considerando raça/cor. Quando os dados são apresentados de forma separada, gestores conseguem identificar quais grupos enfrentam maiores dificuldades e direcionar recursos de maneira mais adequada.
Outra medida é combinar políticas universais com ações específicas para populações historicamente vulnerabilizadas. Isso significa garantir serviços de qualidade para todas as crianças, mas também priorizar territórios com maiores índices de pobreza e comunidades indígenas e quilombolas.
A formação continuada dos professores também aparece entre as prioridades. Profissionais preparados para trabalhar com diferentes realidades sociais e culturais podem desenvolver práticas pedagógicas mais inclusivas e ampliar as oportunidades de aprendizagem.
A análise ainda recomenda:
- Ampliar atividades de numeracia: utilizar brincadeiras, jogos e situações cotidianas para estimular o raciocínio matemático.
- Fortalecer a educação antirracista: preparar as instituições para identificar e enfrentar situações de discriminação.
- Integrar serviços públicos: aproximar escolas, unidades de saúde e assistência social para acompanhar o desenvolvimento infantil.
- Monitorar os resultados: avaliar se as políticas estão efetivamente reduzindo as diferenças entre os grupos.
Essas iniciativas precisam ser acompanhadas de investimentos e continuidade administrativa. A existência de políticas públicas, por si só, não garante mudanças se elas não forem implementadas de maneira adequada nos municípios e nas instituições de ensino.
Quais são os impactos dessas desigualdades no futuro das crianças?

As diferenças identificadas aos 5 anos podem ter consequências que ultrapassam o período da educação infantil. Quando uma criança começa a trajetória escolar com menos oportunidades de desenvolver habilidades fundamentais, pode enfrentar obstáculos adicionais nas etapas seguintes.
Isso não significa que o desempenho observado nessa idade determine o futuro escolar. O desenvolvimento humano não é linear, e intervenções adequadas podem contribuir para superar dificuldades e ampliar as capacidades de aprendizagem.
O risco está na falta de respostas. Quando as desigualdades não são enfrentadas, as dificuldades podem se acumular, afetando o desempenho escolar, a permanência na escola e, posteriormente, o acesso a oportunidades profissionais.
Para Marina Fragata Chicaro, combater essas diferenças desde cedo é uma responsabilidade histórica e constitucional. O investimento na primeira infância, associado à redução das desigualdades étnico-raciais, representa um caminho para ampliar oportunidades e construir uma sociedade mais justa.
Conclusão
Os resultados analisados pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostram que as desigualdades raciais e socioeconômicas já estão presentes nas oportunidades de aprendizagem de crianças aos 5 anos. A diferença de 40 pontos em numeracia entre crianças pretas e brancas e a disparidade de 84 pontos entre grupos com condições socioeconômicas distintas evidenciam a dimensão do problema.
O enfrentamento desse cenário exige políticas públicas contínuas, educação antirracista, formação de professores e acesso mais igualitário a serviços de qualidade. Para famílias, educadores e gestores, o principal alerta é que a promoção da equidade precisa começar na primeira infância, antes que as diferenças se transformem em obstáculos ainda maiores ao longo da vida escolar.
