A agilidade do PIX revolucionou a forma como transferimos dinheiro no Brasil, mas também trouxe novos dilemas jurídicos. Um exemplo recente ocorrido na Bahia levantou uma questão importante: o que acontece se alguém receber um PIX por engano e decidir não devolver o valor? O episódio, que ocorreu em abril de 2025, acendeu o alerta para as implicações legais dessa decisão.
Não devolveu um PIX recebido por engano? Veja o que pode acontecer
Não devolver PIX recebido por engano pode gerar punições como multa e prisão, segundo o Código Penal.
Neste artigo, você vai entender quais são as consequências jurídicas de manter valores recebidos equivocadamente via PIX, com base na legislação brasileira, além de conhecer o que dizem especialistas sobre o tema.
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Casos como esse estão se tornando comuns

Transferências equivocadas via PIX têm se tornado mais frequentes com o aumento do uso da ferramenta. Recentemente, em Santo Estêvão (BA), uma mulher recebeu R$ 1.800,00 por engano e se recusou a devolver a quantia. O caso foi registrado pela 2ª Delegacia Territorial de Feira de Santana e está sendo investigado como crime de apropriação indébita.
Mesmo com penas previstas no Código Penal que podem parecer brandas, situações como essa têm sido levadas cada vez mais a sério pelas autoridades, dado o crescimento de ocorrências semelhantes.
O que diz a lei sobre PIX recebido por engano?
No Brasil, o Código Penal trata de situações em que alguém se apropria de bens alheios de forma indevida. Existem dois artigos que podem ser aplicados dependendo da forma como o dinheiro foi recebido:
Apropriação indébita – Art. 168 do Código Penal
Esse artigo descreve o crime de se apropriar de algo que alguém detinha legalmente, mas decide se manter em posse mesmo sem ter direito. As penas previstas vão de 1 a 4 anos de reclusão e pagamento de multa.
Forma especial de apropriação – Art. 169 do Código Penal
Quando a pessoa não tinha a posse inicial do bem, mas se aproveita de um erro, acidente ou caso fortuito para se apoderar do dinheiro, aplica-se o Art. 169. Nesse caso, a punição é mais branda: detenção de 1 mês a 1 ano ou multa.
Especialista explica o enquadramento correto
Ouvida pelo portal G1 Bahia, a advogada criminalista e professora doutora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Daniela Portugal, esclareceu o caso ocorrido em Santo Estêvão. Para ela, o enquadramento mais adequado é o do artigo 169 do Código Penal.
“No caso que você me trouxe, o sujeito ativo não detinha a posse prévia da coisa (o que afasta a incidência da apropriação indébita comum). O sujeito se apropria de coisa que chegou a seu poder por erro, que é exatamente a forma especial de apropriação do art. 169”, explicou Daniela Portugal.
A criminalista também afastou a hipótese de estelionato no caso em questão:
“O sujeito do crime não induziu a vítima a erro, o erro foi espontâneo da própria pessoa que fez o PIX errado, e o sujeito do crime apenas se aproveitou da situação. Portanto, afasta-se o estelionato do artigo 171, para aplicar a apropriação do artigo 169”, concluiu Daniela.
PIX errado: como agir corretamente
Se você receber uma quantia inesperada na sua conta via PIX, o mais prudente é conferir a origem da transferência. Caso confirme que se trata de um erro, os passos recomendados são:
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- Não movimentar o dinheiro: Usar o valor pode ser interpretado como má-fé;
- Entrar em contato com o remetente: Às vezes, o remetente consegue identificar rapidamente o erro;
- Procurar o banco: A instituição pode ajudar a intermediar a devolução;
- Registrar o caso: Em situações mais complexas, registrar um boletim de ocorrência pode proteger ambas as partes.
Justiça e PIX: quando o caso vai parar no tribunal?
Se o valor não for devolvido voluntariamente, a pessoa que fez a transferência errada pode acionar a Justiça para reaver o dinheiro. A partir daí, o caso pode virar objeto de investigação policial e até se transformar em processo criminal, como ocorreu na Bahia.
Além das punições penais, o autor da apropriação indevida pode ser obrigado a devolver a quantia com correções, por meio de ação civil.
Riscos para quem se recusa a devolver

Manter o valor recebido indevidamente pode parecer vantajoso no curto prazo, mas os riscos são significativos:
- Pena de prisão (mesmo que pequena, pode ser convertida em outras medidas);
- Registro de antecedentes criminais;
- Obrigação de devolução judicial com juros e correção monetária;
- Multas definidas por decisão judicial;
- Bloqueio de bens ou contas durante a investigação.
O avanço da tecnologia bancária exige responsabilidade e ética por parte dos usuários. O PIX, embora prático e instantâneo, não elimina a necessidade de atenção ao digitar dados e, principalmente, de honestidade ao receber valores indevidos.
Casos como o de Santo Estêvão mostram que a legislação brasileira está preparada para lidar com essas novas situações. Recusar-se a devolver um PIX feito por engano pode ser interpretado como crime, com todas as consequências previstas por lei. A orientação, portanto, é simples: se o dinheiro não é seu, devolva.
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