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EUA atingem dívida recorde de US$ 40 trilhões; juros ampliam pressão fiscal

Dívida dos EUA supera US$ 40 trilhões. Entenda por que cresceu, os riscos fiscais e como juros e dólar podem afetar o Brasil.

Bruna MachadoPor Bruna Machado··11 min de leitura
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A dívida federal bruta dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez. O marco chama atenção não apenas pelo tamanho do número, mas pela velocidade do crescimento: em janeiro de 2017, quando Donald Trump iniciou seu primeiro mandato, o saldo estava próximo de US$ 20 trilhões.

Isso não significa que o governo americano tenha uma conta de US$ 40 trilhões para pagar de uma só vez. A dívida é composta por milhares de títulos com vencimentos diferentes, renovados continuamente pelo Tesouro dos Estados Unidos.

O problema aparece quando o país precisa emitir cada vez mais papéis para cobrir déficits, refinanciar obrigações antigas e pagar juros. Se investidores passarem a exigir remunerações maiores, o custo pode atingir o crédito, o dólar, as bolsas e os investimentos em países emergentes, incluindo o Brasil.

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Imagem: FOTOGRIN / shutterstock.com

Dados atualizados diariamente pelo Departamento do Tesouro mostram que a dívida pública total dos Estados Unidos chegou a aproximadamente US$ 40,047 trilhões em 18 de agosto de 2026.

Esse montante é dividido em dois grandes grupos:

  • cerca de US$ 32,3 trilhões em títulos em poder do público;
  • aproximadamente US$ 7,8 trilhões em dívida intragovernamental.

A dívida em poder do público inclui títulos pertencentes a investidores, bancos, fundos, empresas, governos estrangeiros, ao Federal Reserve e a outras instituições.

Já a dívida intragovernamental corresponde principalmente a títulos mantidos por fundos e contas do próprio governo americano, como reservas ligadas à Previdência Social. É uma obrigação entre diferentes partes da administração federal.

Para avaliar os efeitos sobre os mercados, os economistas costumam prestar mais atenção à dívida em poder do público. É essa parcela que precisa ser financiada por compradores de títulos e que influencia diretamente a oferta de crédito na economia.

O banco de dados oficial Debt to the Penny permite acompanhar o saldo diário e consultar a evolução histórica do endividamento americano.

Dívida e déficit são coisas diferentes

A dívida é o total acumulado das obrigações financeiras do governo. O déficit representa quanto o governo gastou além do que arrecadou em determinado período.

Imagine uma família que recebe R$ 5 mil, mas gasta R$ 6 mil no mês. O déficit mensal é de R$ 1 mil. Se essa diferença for coberta com empréstimo, ela será acrescentada à dívida já existente.

Com o governo americano acontece algo semelhante, embora em uma escala muito maior. Quando impostos e outras receitas não cobrem as despesas, o Tesouro emite títulos para conseguir o dinheiro necessário.

O Escritório de Orçamento do Congresso, conhecido pela sigla CBO, projeta déficit federal de aproximadamente US$ 1,9 trilhão no ano fiscal de 2026. As despesas devem atingir US$ 7,4 trilhões, enquanto as receitas ficariam em torno de US$ 5,6 trilhões.

Esses déficits são considerados elevados mesmo em comparação com o tamanho da economia. A projeção de 2026 equivale a 5,8% do Produto Interno Bruto americano, acima da média de 3,8% registrada nos últimos 50 anos.

Por que a dívida americana dobrou em menos de dez anos

Não existe uma única causa para a dívida dos EUA ter avançado de aproximadamente US$ 20 trilhões para mais de US$ 40 trilhões.

Parte importante do crescimento aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Os governos Trump e Biden aprovaram programas de emergência para famílias, empresas, hospitais, governos locais e trabalhadores que perderam renda.

Essas medidas ajudaram a evitar uma queda econômica ainda maior, mas foram financiadas em grande parte com endividamento.

Depois da fase mais grave da pandemia, a dívida continuou crescendo por uma combinação de fatores:

  • manutenção de déficits fiscais elevados;
  • cortes de impostos sem redução equivalente de despesas;
  • envelhecimento da população;
  • aumento dos gastos com Previdência Social e saúde;
  • investimentos e programas aprovados pelo Congresso;
  • juros mais elevados sobre os títulos públicos;
  • despesas militares e outras obrigações federais.

A comparação entre presidentes ajuda a mostrar a velocidade do crescimento, mas não conta toda a história. Nos Estados Unidos, o Congresso participa da aprovação de gastos, impostos e limites de endividamento. Além disso, cada governo recebe obrigações contratadas anteriormente.

Segundo os números reunidos no período, a dívida aumentou cerca de US$ 7,8 trilhões durante o primeiro mandato de Trump e aproximadamente US$ 8,4 trilhões durante o governo Biden. Desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025, o crescimento informado até agosto de 2026 é de aproximadamente US$ 3,8 trilhões.

Esses valores não significam que cada presidente tenha sido individualmente responsável por todo o aumento. Uma parcela resulta de leis anteriores, despesas obrigatórias, juros acumulados e decisões aprovadas conjuntamente com o Congresso.

Por que os juros viraram a parte mais preocupante

Quanto maior a dívida, mais dinheiro o governo precisa destinar ao pagamento de juros. Esse custo também cresce quando os títulos antigos vencem e precisam ser substituídos por novos papéis com taxas maiores.

O governo americano gastava menos para se financiar durante o período de juros próximos de zero. Com a elevação das taxas, renovar a dívida ficou mais caro.

O CBO projeta que os gastos líquidos com juros alcancem aproximadamente US$ 1 trilhão em 2026. Em 2036, eles podem chegar a US$ 2,1 trilhões.

Em relação ao tamanho da economia, o custo avançaria de 3,3% do PIB para 4,6% no mesmo período. As projeções oficiais apontam os juros como um dos principais responsáveis pelo agravamento da trajetória fiscal.

O efeito pode virar uma espécie de bola de neve:

  1. o governo registra déficit;
  2. o Tesouro emite títulos para cobrir a diferença;
  3. a dívida aumenta;
  4. as despesas com juros sobem;
  5. o déficit fica maior;
  6. novas emissões tornam-se necessárias.

Quanto maior a parcela do orçamento destinada aos juros, menos espaço sobra para infraestrutura, educação, pesquisa, defesa, saúde e outras políticas públicas.

Os Estados Unidos podem quebrar?

Uma crise semelhante à de uma família ou empresa não é o cenário mais provável. Os Estados Unidos emitem dívida na própria moeda e o dólar continua sendo a principal referência financeira internacional.

Os títulos do Tesouro americano também são tratados pelo mercado como ativos de baixo risco e estão entre os investimentos mais negociados do mundo.

Isso não torna o país imune a problemas. Os principais riscos são uma perda gradual de confiança, aumento dos juros exigidos pelos investidores, desvalorização dos títulos e maior instabilidade financeira.

Há ainda o risco político relacionado ao teto da dívida. O Congresso americano estabelece um limite legal para o endividamento. Quando esse limite se aproxima, governo e parlamentares precisam aprovar uma elevação ou suspensão.

Se não houver acordo a tempo, o Tesouro pode enfrentar dificuldades para cumprir todas as obrigações. Esse tipo de impasse não ocorre porque o país ficou subitamente sem patrimônio, mas porque a legislação restringe temporariamente sua capacidade de tomar novos empréstimos.

O que as projeções mostram para os próximos anos

O cenário básico do CBO não prevê estabilização rápida. A dívida em poder do público deve terminar 2026 em torno de 101% do PIB americano.

Se as políticas atuais forem mantidas, a relação pode chegar a 108% do PIB em 2030 e a 120% em 2036. O nível superaria o recorde registrado após a Segunda Guerra Mundial.

A dívida federal bruta, que também inclui os títulos mantidos por contas governamentais, pode alcançar US$ 64 trilhões em 2036, segundo a projeção.

O próprio diretor do CBO afirmou que a trajetória fiscal não é sustentável no longo prazo. Isso não quer dizer que uma crise acontecerá imediatamente, mas que dívida, déficit e juros não podem crescer indefinidamente mais rápido que a economia.

Para mudar esse caminho, o governo e o Congresso teriam de combinar medidas como aumento de receitas, revisão de despesas e alterações em programas obrigatórios. Todas essas opções envolvem custos políticos e afetam diferentes grupos da população.

Como a dívida dos EUA pode afetar o Brasil

O impacto mais direto ocorre por meio dos juros dos títulos do Tesouro americano. Quando esses papéis pagam taxas maiores, investidores podem preferir aplicar dinheiro nos Estados Unidos, considerados um destino mais seguro.

Para competir por recursos, países emergentes precisam oferecer retornos mais elevados. No Brasil, isso pode pressionar os juros futuros, encarecer o financiamento de empresas e dificultar a queda da taxa Selic.

Dólar pode ficar mais volátil

Uma piora da percepção fiscal americana pode produzir movimentos diferentes no câmbio.

Se os investidores buscarem proteção em ativos americanos, o dólar poderá ganhar força diante do real. Mas, se a preocupação estiver diretamente ligada à confiança na dívida e na moeda dos Estados Unidos, o dólar poderá perder valor em alguns momentos.

Por isso, não existe uma reação automática. O resultado dependerá das taxas de juros, das decisões do Federal Reserve, do comportamento dos investidores e da situação fiscal de outros países.

Bolsa e crédito também sentem os efeitos

Juros mais altos nos Estados Unidos reduzem a atratividade relativa de ações e investimentos de maior risco. Isso pode provocar saída de recursos de bolsas emergentes, inclusive da B3.

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Empresas brasileiras que captam dinheiro no exterior também podem enfrentar custos maiores. O efeito tende a ser mais forte nas companhias endividadas em dólar ou dependentes de novas emissões internacionais.

Para o consumidor, a consequência pode aparecer indiretamente em financiamentos, preços de produtos importados, inflação e decisões do Banco Central brasileiro sobre a Selic.

O investidor brasileiro precisa mudar a carteira?

O marco de US$ 40 trilhões, isoladamente, não deve ser interpretado como ordem para comprar dólar, vender ações ou abandonar investimentos brasileiros.

A dívida americana já vinha crescendo e grande parte dessa informação estava incorporada aos preços dos ativos. O mercado reage principalmente a mudanças nas expectativas sobre juros, inflação, déficit e capacidade política de controlar as contas.

A prática mais prudente é evitar decisões baseadas apenas em manchetes. Diversificação entre classes de ativos, prazos e moedas reduz a dependência de um único cenário.

Quem possui investimentos no exterior deve avaliar objetivo, prazo e tolerância a oscilações. Já quem não entende os riscos de títulos internacionais, fundos cambiais ou bolsas estrangeiras deve buscar orientação antes de investir.

O marco exige atenção, mas não indica colapso imediato

A dívida dos EUA ultrapassar US$ 40 trilhões é um sinal importante porque revela a persistência de déficits elevados e o crescimento acelerado dos juros.

Ao mesmo tempo, o número não representa uma conta com vencimento imediato nem prova que o país está prestes a deixar de pagar suas obrigações. A capacidade econômica americana, o papel internacional do dólar e a profundidade do mercado de títulos ainda oferecem uma proteção considerável.

O ponto decisivo será observar se governo e Congresso conseguirão reduzir a diferença entre receitas e despesas. Para o brasileiro, vale acompanhar principalmente os juros dos títulos americanos, o dólar e os reflexos sobre a Selic, sem tomar decisões financeiras precipitadas.

Perguntas frequentes

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Imagem: Freepik

Quanto é a dívida dos Estados Unidos?

A dívida federal bruta dos Estados Unidos superou US$ 40 trilhões em agosto de 2026, segundo o Departamento do Tesouro.

Para quem os Estados Unidos devem?

Os credores incluem investidores individuais, bancos, fundos, empresas, governos estrangeiros, o Federal Reserve e contas do próprio governo americano.

Qual é a diferença entre dívida bruta e dívida em poder do público?

A dívida bruta inclui todas as obrigações federais. A dívida em poder do público exclui títulos mantidos por contas internas do governo e é mais usada para avaliar os efeitos econômicos e financeiros.

Por que a dívida dos EUA cresceu tanto?

O crescimento resulta de déficits sucessivos, gastos da pandemia, cortes de impostos, despesas obrigatórias, envelhecimento da população e aumento dos juros.

Trump ou Biden aumentou mais a dívida?

Os valores variam conforme o período e a metodologia. A dívida cresceu cerca de US$ 7,8 trilhões no primeiro mandato de Trump e US$ 8,4 trilhões durante Biden. Atribuir todo o aumento ao presidente, porém, ignora o papel do Congresso, dos juros e das leis anteriores.

Os Estados Unidos podem deixar de pagar a dívida?

O risco imediato é considerado baixo, mas impasses sobre o teto da dívida podem criar dificuldades temporárias. No longo prazo, déficits e juros crescentes aumentam a vulnerabilidade fiscal.

Como a dívida americana afeta o dólar?

Juros maiores nos títulos americanos podem atrair investidores e fortalecer o dólar. A reação, entretanto, depende também da política do Federal Reserve e da confiança na economia dos Estados Unidos.

A dívida dos EUA pode aumentar a Selic?

Pode contribuir indiretamente. Se os juros americanos subirem, países emergentes podem precisar oferecer retornos maiores, dificultando a redução dos juros no Brasil.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

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