A cotação do dólar americano segue em queda em 2025, aprofundando uma tendência iniciada desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em janeiro. Em meio a tensões comerciais crescentes e uma postura protecionista do novo governo, a moeda norte-americana já se aproxima de seus níveis mais baixos desde 2023, de acordo com dados do mercado financeiro.
Dólar perde força: saiba por que isso interessa a Trump e ao mercado
O dólar segue em queda com a escalada da guerra comercial de Trump. Analistas apontam riscos à confiança global na moeda americana.
O movimento é acompanhado com atenção por investidores e economistas em todo o mundo, especialmente após a contração da atividade industrial americana por três meses consecutivos, conforme apontado por relatórios recentes.
A queda no ritmo da maior economia do planeta adiciona incertezas ao cenário global e levanta dúvidas sobre a resiliência do dólar como principal moeda de reserva internacional.
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O cenário atual da moeda americana

Pressões internas e externas sobre o dólar
Na primeira semana de junho de 2025, o dólar recuou fortemente diante da continuidade da desaceleração industrial nos EUA e da crescente percepção de que a nova onda protecionista de Trump pode minar a atratividade da economia americana.
Além disso, bancos como Morgan Stanley, JPMorgan e Goldman Sachs já projetam quedas adicionais do dólar nos próximos meses, caso o governo americano siga elevando tarifas sobre produtos importados e adotando medidas que isolam os EUA de parceiros comerciais tradicionais.
“O dólar caiu devido às políticas protecionistas e erráticas de Trump, que estão corroendo a reputação dos Estados Unidos”, afirma Gabriela Siller, economista-chefe do grupo financeiro BASE.
Para Siller, a incerteza em torno do crescimento econômico e a percepção de instabilidade política tornam o dólar menos confiável como ativo de proteção global, função que historicamente foi exercida pela moeda com pouca contestação.
Entenda os efeitos da desvalorização do dólar
Exportações mais competitivas e inflação importada
A queda do dólar tem efeitos imediatos no comércio internacional. De um lado, os produtos exportados pelos EUA se tornam mais baratos e atraentes para mercados estrangeiros, o que pode ajudar a indústria americana a ganhar espaço global.
Por outro lado, os produtos importados ficam mais caros, pressionando os preços dentro dos Estados Unidos. Isso afeta diretamente a inflação, tornando o trabalho do Federal Reserve (Fed) — o banco central americano — ainda mais delicado.
O Fed pode ser forçado a manter os juros altos para conter a inflação causada pelas importações, o que contraria a expectativa de cortes que vinham sendo ventilados no início do ano.
Trump quer um dólar fraco?
A lógica do “Acordo Mar-a-Lago”
Nos bastidores da Casa Branca, circulam rumores sobre um plano informal, apelidado de “Acordo Mar-a-Lago”, defendido por Stephen Miran, atual presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Trump. A ideia central do plano seria enfraquecer propositalmente o dólar para impulsionar a indústria nacional.
Segundo defensores da medida, a força do dólar ao longo das décadas contribuiu para a desindustrialização dos Estados Unidos, ao tornar os produtos americanos menos competitivos e favorecer a produção no exterior.
“Trump não quer um dólar forte porque isso aumenta as importações”, explica Gabriela Siller.
“Ele quer reduzir o déficit comercial e gerar empregos industriais”.
Com um dólar mais fraco, Trump pretende resgatar a era de ouro do setor manufatureiro, aumentar as exportações e incentivar a produção doméstica, uma promessa central de sua campanha de reeleição.
Críticas à ideia de enfraquecer o dólar
Economistas renomados, como Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, veem com ceticismo essa estratégia. Para Rogoff, atribuir os déficits comerciais exclusivamente à função do dólar como moeda de reserva é simplista e enganoso.
“O plano de Miran, por mais astuto que pareça, se baseia em um diagnóstico equivocado”, afirmou Rogoff.
“Tarifas não são uma solução mágica para os desequilíbrios comerciais dos EUA”.
O risco para o status global do dólar

Perda de confiança como moeda de reserva
Ao longo do último século, o dólar se consolidou como a moeda dominante nas reservas internacionais, no comércio global e nos contratos financeiros. Essa posição garante aos EUA vários privilégios, como a capacidade de se endividar com taxas mais baixas e maior influência geopolítica.
Contudo, há quem tema que as ações do governo Trump estejam afetando a confiança global no dólar.
“A confiança e a dependência no dólar foram construídas ao longo de décadas. Mas podem ser perdidas em um piscar de olhos”, alertou o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia.
Embora não exista ainda uma moeda alternativa com peso suficiente — como o yuan, o euro ou o bitcoin — os sinais de alerta já preocupam os mercados.
Investidores em busca de proteção
A recente volatilidade nas políticas comerciais dos EUA e a pressão sobre os títulos do Tesouro americano, que perderam atratividade, estão levando parte dos investidores a buscar alternativas de segurança, como ouro, franco suíço e ativos atrelados à inflação.
Segundo Steve Ricchiuto, da Mizuho Financial, a transição para uma nova moeda dominante não é simples nem rápida:
“Nenhuma outra moeda ou ativo hoje é grande o suficiente para substituir o dólar. Mas o alerta está aceso.”
Impactos diretos para o consumidor americano
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Aumento de preços e temor de inflação
Com a desvalorização do dólar, importações ficam mais caras, o que se traduz em preços mais elevados para produtos eletrônicos, roupas, alimentos e outros itens do dia a dia.
Somado às novas tarifas comerciais impostas por Trump, o resultado é uma pressão inflacionária que ameaça o poder de compra das famílias americanas.
Se o Fed optar por manter ou elevar os juros, para conter a inflação, isso pode encarecer os empréstimos, financiamentos imobiliários e créditos ao consumo, impactando diretamente o crescimento da economia.
A engrenagem delicada da economia global
Como tudo está conectado
A economia global é um sistema interdependente. Cada decisão sobre tarifas, câmbio ou juros nos EUA afeta a confiança dos mercados, o fluxo de capitais e a dinâmica do comércio internacional.
Em abril, por exemplo, os anúncios contraditórios do governo Trump sobre novas tarifas derrubaram os títulos do Tesouro americano e aumentaram a volatilidade cambial, prejudicando o dólar e espalhando incertezas nos mercados emergentes.
A engrenagem é sensível: quando uma peça se move bruscamente, todo o sistema sente o impacto.
O que esperar para os próximos meses?

Mais perguntas do que respostas
O cenário futuro depende de vários fatores ainda indefinidos:
- O andamento da guerra comercial
- A aprovação do novo orçamento e pacote de impostos proposto por Trump
- O comportamento da inflação e das taxas de juros
- A resiliência da indústria americana
- E, sobretudo, a confiança dos mercados na estabilidade institucional dos EUA
As projeções de Wall Street continuam apontando para fragilidade do dólar no curto e médio prazo, com possíveis repiques em função de ajustes no mercado, mas sem uma recuperação estrutural visível no horizonte.
Considerações finais
A queda do dólar em 2025 é reflexo direto de mudanças profundas na política econômica dos Estados Unidos sob o governo Trump. A combinação de tarifas comerciais, pressão sobre importações e a busca por um dólar mais fraco despertou temores sobre a posição global da moeda americana.
Embora a estratégia possa trazer benefícios pontuais às exportações e ao setor industrial, o risco de inflacionar a economia, perder credibilidade internacional e afastar investidores globais acende alertas importantes para o futuro da economia norte-americana — e de seus parceiros comerciais ao redor do mundo.
O que se observa, por ora, é um cenário de incertezas crescentes, no qual os efeitos colaterais da guerra comercial e do enfraquecimento do dólar ainda estão longe de serem totalmente compreendidos.
