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Investidores recorrem ao dólar como proteção diante da volatilidade das eleições

A aproximação das eleições presidenciais brasileiras já começa a influenciar as decisões do mercado financeiro. Depois de um período de valorização do real, investidores passaram a reduzir parte das apostas favoráveis à moeda brasileira e a buscar proteção no dólar diante da incerteza sobre o resultado das urnas e, principalmente, sobre a política econômica que […]

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 11 min de leitura
Dólar

A aproximação das eleições presidenciais brasileiras já começa a influenciar as decisões do mercado financeiro. Depois de um período de valorização do real, investidores passaram a reduzir parte das apostas favoráveis à moeda brasileira e a buscar proteção no dólar diante da incerteza sobre o resultado das urnas e, principalmente, sobre a política econômica que será adotada a partir de 2027.

O movimento não significa necessariamente uma aposta de que o dólar terá uma disparada. A lógica é mais defensiva: em momentos de maior incerteza doméstica, a moeda americana pode funcionar como uma espécie de seguro para carteiras expostas ao Brasil.

Nas últimas semanas, bancos e gestoras passaram a demonstrar maior cautela com o real. O Citi retirou a moeda brasileira de sua cesta de posições de carry trade, enquanto o Goldman Sachs e o Itaú BBA passaram a chamar atenção para o aumento do prêmio de risco associado ao período eleitoral.

A questão, portanto, vai além de tentar descobrir quanto o dólar estará valendo no fim do ano. Para o investidor, a discussão é como atravessar os próximos meses sem deixar toda a carteira dependente de um único cenário político ou econômico.

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Por que as eleições mexem tanto com o dólar?

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O câmbio reage às expectativas. Antes mesmo de uma eleição acontecer, investidores começam a avaliar quais candidatos têm mais chances de vencer e quais políticas econômicas podem ser adotadas pelo próximo governo.

Entre os pontos observados estão as perspectivas para as contas públicas, o nível de gastos do governo, a trajetória da dívida, a política fiscal e a relação entre governo e Banco Central.

Quando aumenta a percepção de risco, investidores podem reduzir a exposição a ativos brasileiros. Com menos demanda relativa pelo real, a moeda brasileira pode perder valor frente ao dólar.

O movimento também funciona no sentido contrário. Um cenário considerado favorável pelos investidores pode estimular a entrada de capital estrangeiro e contribuir para a valorização do real.

Por isso, pesquisas eleitorais, alianças políticas, discursos de candidatos e propostas econômicas podem provocar oscilações nos mercados muito antes do resultado oficial.

O que mudou na relação entre dólar e real em 2026?

O real teve um desempenho positivo durante parte de 2026, favorecido por fatores como o diferencial de juros e condições externas mais favoráveis.

Esse quadro, porém, começou a perder força conforme a eleição entrou no radar dos investidores.

Segundo análise publicada pelo InfoMoney em agosto, o real passou a apresentar desempenho inferior ao de outras moedas emergentes, enquanto estrategistas começaram a considerar que parte do risco eleitoral já estava sendo incorporada aos preços.

O movimento também aparece no mercado de posições cambiais. Dados compilados a partir do mercado de derivativos da B3 mostraram uma redução expressiva da posição vendida em dólar contra o real ao longo de 2026, sinal de que investidores estavam diminuindo uma das principais apostas favoráveis à moeda brasileira.

Na prática, o mercado passou de um ambiente no qual havia mais confiança na valorização do real para um cenário em que a proteção cambial voltou a fazer sentido.

Dólar alto é inevitável durante a eleição?

Não.

Essa é uma das principais diferenças entre risco eleitoral e previsão de alta do dólar.

O mercado pode aumentar a proteção cambial sem necessariamente acreditar que a moeda americana terá uma valorização forte. O dólar também é influenciado por fatores internacionais, como juros dos Estados Unidos, atividade econômica global, fluxo de capitais e comportamento de outras moedas.

Por isso, uma eleição brasileira pode aumentar a volatilidade do câmbio, mas não determina sozinha sua direção.

O próprio cenário observado em 2026 mostra essa complexidade. Enquanto o ambiente eleitoral brasileiro ganhou peso, fatores externos continuaram influenciando o fluxo para mercados emergentes.

O que os grandes bancos estão projetando para o dólar?

As projeções não são uniformes, mas algumas instituições passaram a trabalhar com um cenário mais pressionado para o real.

O Itaú BBA, por exemplo, tinha projeção de dólar a R$ 5,30 no fim de 2026, considerando um ambiente de maior prêmio de risco doméstico e a possibilidade de aperto monetário adicional nos Estados Unidos.

A projeção, entretanto, não deve ser interpretada como uma promessa de que o dólar necessariamente chegará a esse valor.

Previsões cambiais podem mudar rapidamente porque o preço da moeda incorpora expectativas sobre juros, inflação, política fiscal, fluxo estrangeiro e cenário internacional.

Por que investidores compram dólar antes de uma eleição?

A principal razão é a diversificação.

Imagine um investidor que tenha praticamente todo o patrimônio em ativos brasileiros. Se ocorrer uma deterioração das expectativas sobre o país, diferentes investimentos da carteira podem ser afetados simultaneamente.

Ter uma parcela da carteira exposta ao dólar cria uma proteção parcial contra esse tipo de movimento.

Isso não significa que comprar moeda americana seja automaticamente melhor do que investir no Brasil. O dólar pode cair, mesmo durante um período eleitoral.

A ideia da exposição cambial é reduzir a dependência de um único cenário.

Comprar dólar agora é uma boa estratégia?

Não existe uma resposta única.

Para quem compra dólar apenas porque acredita que a eleição provocará uma disparada da moeda, o risco de errar o timing é elevado.

O câmbio pode subir antes de determinado evento, cair depois ou reagir de maneira diferente daquela imaginada pelo investidor.

Além disso, a exposição internacional pode ser construída de diversas maneiras. O investidor não precisa necessariamente manter dólares em espécie ou em uma conta no exterior.

Dependendo do perfil e dos objetivos, existem alternativas como fundos cambiais, fundos de investimento com exposição internacional, ETFs e ativos estrangeiros.

Cada modalidade possui custos, riscos, tributação e características diferentes.

O que pode fazer o dólar subir durante as eleições?

Alguns fatores costumam ser acompanhados de perto pelo mercado:

  • aumento da incerteza sobre a política fiscal;
  • deterioração das expectativas para as contas públicas;
  • propostas consideradas expansionistas pelo mercado;
  • aumento das projeções de inflação;
  • redução da confiança dos investidores estrangeiros;
  • saída de capital do Brasil;
  • aumento dos juros americanos;
  • fortalecimento global do dólar.

Esses fatores não precisam acontecer simultaneamente.

Um evento político pode provocar uma reação imediata no câmbio, enquanto mudanças nas expectativas fiscais podem produzir efeitos mais persistentes.

E o que poderia fazer o dólar cair?

O movimento contrário também é possível.

Um resultado eleitoral considerado favorável pelo mercado, acompanhado de sinalizações de responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica, poderia estimular a entrada de recursos no país.

A manutenção de um diferencial elevado de juros também pode continuar atraindo capital para o Brasil.

Além disso, uma eventual perda de força do dólar no exterior pode beneficiar o real, independentemente da política brasileira.

É justamente essa combinação de fatores que torna difícil estabelecer uma trajetória única para o câmbio.

O que acontece com quem tem investimentos no Brasil?

O impacto depende do tipo de investimento.

Empresas brasileiras com receitas em dólar, por exemplo, podem ter comportamento diferente de companhias dependentes exclusivamente do mercado doméstico.

Na renda fixa, alterações nas expectativas para inflação e juros podem afetar os preços dos títulos negociados no mercado secundário.

Na Bolsa, o impacto pode variar bastante entre setores. Empresas exportadoras, bancos, companhias de consumo e negócios com elevada exposição a custos internacionais podem reagir de maneiras diferentes ao mesmo movimento cambial.

Por isso, não existe uma regra simples como “dólar subiu, toda a Bolsa cai”.

A eleição pode afetar a renda fixa?

Sim.

O mercado de juros futuros acompanha as expectativas para inflação, atividade econômica, política fiscal e atuação do Banco Central.

Se os investidores passarem a acreditar que determinado resultado eleitoral poderá provocar maior pressão inflacionária ou deterioração fiscal, podem exigir juros maiores para carregar títulos brasileiros.

Esse movimento pode afetar principalmente títulos prefixados e papéis indexados à inflação negociados antes do vencimento.

É diferente de simplesmente receber a remuneração contratada até o vencimento. A chamada marcação a mercado faz com que o preço de determinados títulos oscile diariamente.

O investidor precisa mudar a carteira por causa das eleições?

Não necessariamente.

Para investidores de longo prazo, o período eleitoral não deveria, sozinho, determinar uma mudança radical de estratégia.

Uma alternativa mais prudente é verificar se a carteira está excessivamente concentrada em ativos brasileiros ou em uma única classe de investimento.

A diversificação internacional pode funcionar como uma forma de reduzir a dependência do cenário doméstico. Em maio, o Safra também apontava a combinação de risco eleitoral e geopolítico como motivo para equilibrar ativos domésticos com posições defensivas e dolarizadas.

O ponto central é não transformar uma proteção em uma aposta especulativa.

O que observar até o primeiro turno?

À medida que a eleição se aproxima, alguns indicadores devem ganhar ainda mais importância para os investidores.

Pesquisas eleitorais

Mudanças relevantes na disputa podem provocar ajustes rápidos nas expectativas do mercado.

Propostas econômicas

Mais do que apenas quem está na frente, investidores tendem a observar o que cada candidatura pretende fazer com gastos públicos, dívida, impostos e regras econômicas.

Política fiscal

A trajetória das contas públicas é um dos principais componentes do chamado prêmio de risco brasileiro.

Juros nos Estados Unidos

Decisões do Federal Reserve, o banco central americano, podem alterar o fluxo global de capital e afetar moedas emergentes.

Fluxo estrangeiro

A entrada ou saída de recursos internacionais da Bolsa e do mercado de câmbio também ajuda a explicar os movimentos do real.

O dólar é uma proteção ou uma aposta?

Pode ser os dois — e a diferença está na forma como o investimento é utilizado.

Quando o dólar representa uma parcela planejada da carteira para reduzir riscos, ele funciona como proteção.

Quando o investidor concentra uma grande quantidade de dinheiro na moeda esperando acertar o momento exato de compra e venda, transforma a operação em uma aposta cambial.

Para a maioria dos investidores, essas estratégias têm riscos muito diferentes.

A eleição de 2026 pode aumentar a volatilidade, mas ninguém consegue saber antecipadamente qual será a cotação máxima ou mínima do dólar durante o processo eleitoral.

O que o investidor deve fazer agora?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O primeiro passo é olhar para a própria carteira, e não para a cotação do dólar isoladamente.

Quem possui objetivos de curto prazo deve ter cuidado redobrado com investimentos sujeitos a grandes oscilações. Já quem investe pensando em muitos anos pode avaliar uma diversificação internacional compatível com seu perfil de risco.

Também é recomendável evitar decisões tomadas exclusivamente com base em pesquisas eleitorais ou manchetes de mercado.

Em um ano eleitoral, a volatilidade tende a aumentar. Uma carteira diversificada pode ser mais importante do que tentar descobrir qual será o próximo movimento do câmbio.

Conclusão

O dólar voltou a ganhar espaço nas estratégias de proteção dos investidores à medida que as eleições brasileiras de 2026 se aproximam. A mudança não significa que o mercado tenha certeza de uma disparada da moeda americana, mas revela uma preocupação maior com o risco político e econômico do país.

A redução das apostas favoráveis ao real, observada entre instituições e gestores, mostra que o mercado passou a considerar a eleição um fator relevante para a precificação dos ativos brasileiros.

Para o investidor pessoa física, a principal lição é evitar decisões baseadas em uma previsão isolada. O dólar pode ser uma ferramenta de diversificação, mas transformar a moeda em uma aposta concentrada também aumenta o risco.

Em vez de tentar adivinhar o resultado das urnas ou a cotação exata do câmbio, a estratégia mais consistente é avaliar objetivos, prazo, tolerância a perdas e o nível de diversificação da carteira.

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