Dólar em alta com foco no IOF; Ibovespa recua e atinge 135 mil pontos
O dólar à vista começou a semana operando em leve alta ante o real, refletindo a recepção positiva de parte do mercado ao anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no domingo (9), sobre a reestruturação do decreto que aumentou o IOF. No entanto, a cautela dos investidores em relação às tensões comerciais entre Estados Unidos e China limitava os ganhos da moeda brasileira e pressionava o Ibovespa.
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Às 12h14, o dólar à vista subia 0,23%, cotado a R$ 5,579 na venda. Na sexta-feira anterior, a moeda norte-americana havia encerrado o dia em baixa de 0,30%, a R$ 5,5701, o menor valor de fechamento desde 8 de outubro de 2024.
A valorização desta segunda-feira ocorre apesar do anúncio de Haddad, que declarou ter chegado a um acordo com o Congresso para recalibrar o decreto do IOF, incluindo medidas como aumento de impostos sobre apostas esportivas, taxação de fundos atualmente isentos e aproximação das alíquotas da CSLL entre bancos e fintechs.
Ibovespa recua com pressões de blue chips
Enquanto o dólar ganhava força, o Ibovespa recuava 0,63%, aos 136.238,36 pontos por volta das 12h15. O volume financeiro negociado somava R$ 4,85 bilhões. As ações de grandes empresas como Petrobras e Itaú figuravam entre as maiores quedas do dia, pressionando o índice.
Petrobras sob pressão judicial
As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) caíam 2,16%, após a companhia ter sido citada em uma ação movida pela Sete Brasil, que cobra R$ 36 bilhões em indenizações. A estatal afirmou que considera as alegações improcedentes. O Santander rebaixou a recomendação dos papéis para “neutra”, apontando dificuldades financeiras previstas para os próximos dois anos.
Setor bancário impactado pela CSLL
Com a perspectiva de aumento da CSLL para bancos, as ações do Itaú Unibanco (ITUB4) recuavam 1,69%, Bradesco PN (BBDC4) perdia 2,01%, Banco do Brasil (BBAS3) cedia 0,92%, Santander Brasil (SANB11) caía 0,7% e BTG Pactual (BPAC11) recuava 1,1%.
Pacote fiscal de Haddad busca reequilíbrio
Na entrevista concedida no domingo, o ministro Fernando Haddad afirmou que a nova medida provisória a ser enviada ao Congresso nesta semana vai substituir trechos polêmicos do decreto anterior, criticado por congressistas e agentes do mercado.
Pilares da nova proposta:
- Fim da alíquota reduzida de 9% da CSLL para instituições financeiras;
- Taxação de 5% para títulos hoje isentos;
- Maior taxação sobre as casas de apostas (“bets”);
- Proposta de alíquota única de 17,5% para Imposto de Renda sobre aplicações financeiras.
Apesar da tentativa de ajuste, analistas como Alberto Ramos, do Goldman Sachs, alertam que o pacote carece de reformas estruturais e foca mais no aumento da arrecadação do que no corte de despesas.
Cautela com cenário internacional
O otimismo no mercado local foi parcialmente contido pelas incertezas no cenário externo. Em Londres, representantes dos governos dos EUA e da China se reuniam para dar seguimento às tratativas iniciadas em Genebra no mês anterior.
Delegações presentes:
- EUA: Scott Bessent (Tesouro), Howard Lutnick (Comércio) e Jamieson Greer (Representante Comercial);
- China: He Lifeng (Vice-primeiro-ministro).
A reunião buscava evitar o agravamento das tensões comerciais, especialmente após os impactos gerados pelas tarifas aplicadas pelo ex-presidente Donald Trump, que continuam a influenciar o ambiente econômico global.
O índice DXY, que mede o dólar frente a seis moedas fortes, recuava levemente 0,04%, a 99,068 pontos, indicando certa acomodação no câmbio global.
Reações do mercado e análises
FB Capital: mudança de tom é positiva
Fernando Bergallo, diretor da FB Capital, afirmou que o novo posicionamento do governo em relação ao IOF e à política fiscal foi bem recebido. “Desta vez, a comunicação foi mais alinhada com o Congresso, o que favorece a estabilidade e reduz o ruído no mercado”, explicou.
Ágora Investimentos: Ibovespa segue neutro
Em relatório enviado a clientes, a Ágora Investimentos apontou que o Ibovespa permanece com viés de baixa no curto prazo, projetando suporte na casa dos 135 mil pontos.
Destaques corporativos do dia
RAÍZEN (RAIZ4): queda de 4,04%
A empresa foi alvo de dois cortes na recomendação de analistas. O UBS BB rebaixou a ação para “neutra” e reduziu o preço-alvo de R$ 3,90 para R$ 2,30, citando demora nos resultados da reestruturação. O Citi também reduziu o preço-alvo de R$ 3 para R$ 2,50.
RD SAÚDE (RADL3): queda de 3,5%
Após três sessões de alta, as ações da RD caíam em razão de um cenário desafiador: reajustes abaixo da inflação, perdas com medicamentos de alto custo como Ozempic e aumento da competição.
GERDAU (GGBR4): alta de 4,79%
Na contramão do mercado, a Gerdau teve forte alta após o UBS BB elevar a recomendação para “compra” e ajustar o preço-alvo de R$ 17 para R$ 22, citando como principal catalisador o aumento das tarifas de importação de aço pelos EUA.
VALE (VALE3): leve recuo de 0,09%
As ações da mineradora seguiam a fraqueza dos contratos de minério de ferro na China, que encerraram o pregão diurno com queda de 0,71% em Dalian. As importações chinesas em maio também decepcionaram.
Perspectivas para os próximos dias
O mercado segue atento à apresentação oficial da nova MP do IOF, prevista para esta semana. Além disso, o retorno do presidente Lula ao Brasil pode destravar discussões sobre novas medidas fiscais. Ao mesmo tempo, os desdobramentos das negociações EUA-China continuarão influenciando o comportamento do dólar e do Ibovespa.
Enquanto a tentativa de Haddad de recompor a base aliada e ajustar o discurso fiscal gera algum alívio, a percepção é de que medidas mais profundas ainda são necessárias para uma recuperação sustentada da confiança dos investidores.
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