El Salvador, o pequeno país centro-americano que surpreendeu o mundo ao tornar o Bitcoin moeda legal em setembro de 2021, registra agora um impressionante lucro de US$ 443 milhões com seus investimentos na principal criptomoeda do mercado.
A estratégia, idealizada e executada pelo presidente Nayib Bukele, transformou o país em um símbolo de ousadia e inovação no cenário financeiro global — e agora, também de retorno econômico.
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Bitcoin como moeda legal: uma decisão histórica
A primeira nação a adotar o Bitcoin como curso forçado
Em 7 de setembro de 2021, El Salvador se tornou o primeiro país do mundo a declarar o Bitcoin como moeda de curso legal, equiparando-o ao dólar americano, que já era utilizado no país desde a dolarização ocorrida em 2001.
A medida atraiu atenção internacional, aplausos e críticas, principalmente de entidades financeiras tradicionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Apesar do ceticismo inicial e da volatilidade característica do ativo digital, a estratégia de Bukele foi clara: usar o Bitcoin como ferramenta de soberania econômica, investimento estatal e instrumento de inclusão financeira. Ao longo dos últimos quatro anos, a posição do governo foi reforçada por diversas aquisições de BTC.
Dados do Escritório Nacional do Bitcoin revelam lucros expressivos

Quantos bitcoins o país tem?
Segundo o Escritório Nacional do Bitcoin, órgão criado para gerenciar os ativos digitais do governo, El Salvador possui atualmente 6.240 bitcoins.
A valorização do BTC nos últimos meses, impulsionada por fatores como o halving de abril de 2024 e a crescente institucionalização dos ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos, elevou o valor total dessa reserva para US$ 740,7 milhões — com um lucro líquido de US$ 443 milhões sobre o valor investido.
Bitcoin ultrapassando US$ 120 mil
O salto recente no preço do Bitcoin, que chegou a superar US$ 120.000 por unidade, foi um dos principais fatores responsáveis pelo aumento expressivo nas reservas do país.
O presidente Bukele comemorou o feito em sua conta no X (antigo Twitter), compartilhando gráficos da valorização e reafirmando o compromisso com o projeto.
“El Salvador não apenas está no lucro, como demonstra que uma política baseada em convicção e paciência pode superar a pressão de instituições internacionais”, escreveu Bukele.
Uma estratégia criticada, mas resiliente
Pressões externas e apoio interno moderado
Desde o anúncio da legalização do Bitcoin, o FMI tem sido um crítico contundente da política adotada por El Salvador. Segundo o órgão, o uso de uma criptomoeda tão volátil como meio de pagamento oficial pode gerar riscos fiscais, de lavagem de dinheiro e instabilidade macroeconômica.
Essas críticas foram reforçadas durante negociações para um pacote de crédito solicitado por El Salvador, o que levou o governo salvadorenho a modificar o caráter obrigatório do uso do BTC. Desde janeiro de 2024, o uso da criptomoeda passou a ser opcional, o que foi visto por muitos como uma concessão estratégica para acalmar credores multilaterais.
Adoção popular ainda é baixa
Apesar da propaganda governamental e das infraestruturas criadas, a adoção do Bitcoin pela população permanece tímida. Pesquisa recente do Instituto de Opinião Pública da Universidade Centro-Americana (UCA) apontou que apenas 8% dos salvadorenhos utilizaram Bitcoin em 2024, o que demonstra um abismo entre a política estatal e o cotidiano da população.
Bitcoin no cotidiano: educação, comércio e até veterinário público
Educação financeira como estratégia de longo prazo
Uma das ferramentas para ampliar o uso e a compreensão do Bitcoin no país tem sido o investimento em educação digital e financeira. A Fundação Meu Primeiro Bitcoin desenvolve um trabalho essencial nesse sentido, oferecendo cursos, oficinas e suporte técnico a estudantes de diversas idades.
“O mais difícil para um estudante é o medo de se aprofundar em novos conhecimentos”, explicou Daniel Viana, instrutor da fundação.
As ações educativas têm como objetivo formar uma nova geração de usuários conscientes, capazes de aproveitar as vantagens do ativo digital e protegê-los contra fraudes e armadilhas do mercado cripto.
Casos reais: de compras do dia a dia a investimentos pessoais
Muitos cidadãos, embora minoritários, já começaram a integrar o BTC em suas rotinas. Gerardo Morán, de 20 anos, disse à AFP que investe mensalmente parte do salário em Bitcoin — prática que o ajudou a comprar seu primeiro carro. Já Rogelio Mendoza, comerciante de 52 anos, usa a criptomoeda para compras simples, mas se mostra cético quanto ao seu uso como instrumento de investimento.
Chivo Pets: o hospital veterinário do Bitcoin
Um exemplo concreto da integração da criptoeconomia ao setor público é o Chivo Pets, hospital veterinário estatal inaugurado em 2022. Localizado em Antiguo Cuscatlán, o hospital oferece consultas a preços simbólicos, abaixo de US$ 1, pagas exclusivamente em Bitcoin.
A unidade é um dos símbolos da política de Bukele e atrai diariamente dezenas de cidadãos — muitos dos quais interagem com a criptomoeda apenas nesse contexto.
A economia salvadorenha no pós-Bitcoin
O impacto real na economia do país
Apesar da expressiva valorização dos ativos, especialistas alertam que ainda é cedo para declarar a vitória da política monetária baseada em Bitcoin. O país ainda enfrenta desafios estruturais, como a dependência de remessas internacionais, baixa produtividade e infraestrutura precária em áreas rurais.
Contudo, a diversificação da reserva estatal por meio do BTC tem servido como proteção contra a inflação do dólar americano, que afeta diretamente países dolarizados como El Salvador.
Inovação como posicionamento geopolítico
Mais do que apenas uma ferramenta econômica, o Bitcoin tem sido utilizado por Bukele como instrumento de projeção internacional. O país tem atraído turistas, investidores em blockchain, mineradoras e entusiastas do mundo todo, criando um ecossistema único de negócios voltados à criptoeconomia.
Críticas e dúvidas ainda permanecem
Transparência e fiscalização
Embora os dados mais recentes tenham sido divulgados pelo Escritório Nacional do Bitcoin, a falta de auditorias independentes sobre as compras e custódia de BTC pelo Estado ainda é um ponto de preocupação para analistas de risco.
A ausência de detalhes sobre as carteiras utilizadas e os intermediários envolvidos levanta questionamentos sobre transparência e governança pública.
Sustentabilidade a longo prazo
Outra crítica recorrente refere-se à sustentabilidade fiscal da estratégia. Embora o lucro seja substancial no momento, ele depende diretamente da cotação do ativo. Caso o mercado passe por uma nova fase de baixa, como a de 2022, os ganhos podem evaporar.
O desafio será equilibrar a exposição ao Bitcoin com outros instrumentos financeiros mais estáveis e previsíveis.
O que vem pela frente para El Salvador e o Bitcoin?

Próximos passos: institucionalização, ETFs e mineração estatal?
Com o sucesso financeiro da estratégia, há especulações de que o governo de Bukele possa aprofundar sua política cripto com iniciativas como:
- Criação de ETFs nacionais de Bitcoin lastreados nas reservas atuais;
- Expansão do uso da Chivo Wallet, com novas funcionalidades e parcerias;
- Investimento em infraestrutura de mineração de Bitcoin com energia geotérmica, algo já mencionado por Bukele no passado;
- Emissão de títulos soberanos lastreados em Bitcoin, também conhecidos como Bitcoin Bonds.
Cada uma dessas iniciativas representa uma nova camada de complexidade — e também de risco —, mas, ao que tudo indica, El Salvador está disposto a continuar trilhando seu caminho próprio.
Conclusão: lições de uma experiência única

A experiência salvadorenha com o Bitcoin continua a ser um caso singular no cenário global. Mesmo diante de desconfiança externa, baixa adesão interna e volatilidade do mercado, o governo de El Salvador colhe os frutos de uma estratégia ousada que, ao menos até agora, tem se mostrado lucrativa e resiliente.
Para analistas, o país serve como laboratório vivo da adoção estatal de criptomoedas, e sua evolução nos próximos anos pode influenciar decisões semelhantes em outras nações — especialmente aquelas com economias frágeis, sem moeda própria e dependentes do dólar.
