O anúncio do Banco Central, feito em 7 de maio, sobre a elevação da taxa Selic em 0,5 ponto percentual — agora em 14,75% ao ano — foi recebido com preocupação por representantes da indústria, comércio e serviços. Embora esperada por parte do mercado, a decisão reacendeu o debate sobre os efeitos colaterais de juros altos em uma economia ainda fragilizada.
Aumento da Taxa Selic: empresários comentam os impactos para as empresas e o mercado
Empresários reagem à alta da Selic para 14,75% ao ano, alertando para impactos no consumo, inflação e produtividade em meio a incertezas fiscais.
O Comitê de Política Monetária (Copom) justificou a medida como necessária diante da persistente inflação, especialmente no setor de serviços. Entretanto, empresários argumentam que o aumento da Selic tem efeito limitado sobre os preços e pode agravar a situação das empresas e dos consumidores.
Leia mais:
Veranico e temporais: previsão do tempo na Metade Sul do RS entre 5 e 20 de maio de 2025
Juros altos em meio à desaceleração global

O presidente da Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn, afirmou que o cenário interno tem mantido as taxas estruturalmente elevadas, mesmo com o arrefecimento da atividade global e desvalorização do dólar. Segundo ele, a ausência de uma agenda fiscal consistente impede a redução sustentável da taxa de juros.
“Se não endereçarmos medidas que reparem o cenário fiscal, permaneceremos com juros estruturalmente elevados por um longo período”, afirmou.
A declaração evidencia o temor de que, enquanto o país não resolver seus problemas fiscais — como o déficit nas contas públicas e a rigidez orçamentária —, a política monetária seguirá pressionada, afetando o crédito, o investimento e o consumo das famílias.
Impacto direto no consumo e na atividade produtiva
Empresários do setor de comércio e serviços também apontam prejuízos imediatos provocados pela alta da Selic. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) destacou que o aumento visa conter a inflação, mas pode frear o consumo e afetar diretamente o PIB.
Segundo a entidade, os serviços intensivos em mão de obra registram uma inflação acumulada de 6%, enquanto os núcleos da inflação se mantêm em 4,5%, revelando que a demanda ainda está aquecida. No entanto, manter o ciclo de aperto monetário sem sinais claros de desaceleração da economia pode ser contraproducente.
“O aumento pode ser o último, já que o BC indicou essa possibilidade e os efeitos dos reajustes anteriores ainda não foram sentidos”, diz a nota da FecomercioSP.
Indústria pede medidas além dos juros
A indústria também reagiu de forma crítica. O presidente da FIERGS (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul), Claudio Bier, defendeu a adoção de políticas públicas que ataquem a origem do descontrole fiscal, ao invés de recorrer exclusivamente ao aumento dos juros.
“Manter uma política de juros elevados como resposta única ao descontrole fiscal significa penalizar o setor produtivo. É preciso atacar as causas estruturais”, declarou Bier.
A avaliação é que os juros altos dificultam o acesso a crédito, encarecem o capital de giro das empresas e tornam inviáveis muitos projetos de investimento, afetando o crescimento econômico de médio e longo prazos.
Selic em 14,75%: a mais alta em quase duas décadas
A nova taxa Selic é a mais alta desde julho de 2006 em termos nominais. Em valores reais — ou seja, descontada a inflação —, o Brasil também está entre os países com juros mais elevados do mundo. Isso reflete o grau de incerteza quanto ao controle da inflação e à sustentabilidade das contas públicas.
A inflação dos serviços e o dilema do Copom

Um dos motivos principais para a decisão do Copom foi a inflação persistente no setor de serviços, considerado sensível ao nível de atividade econômica e à renda disponível. Como esse segmento é intensivo em mão de obra, a elevação da Selic afeta diretamente a geração de empregos e o dinamismo do mercado interno.
O Copom optou por reduzir o ritmo da alta, que anteriormente era de 1 ponto percentual por reunião. Com a moderação, a autoridade monetária sinaliza uma possível pausa nos próximos encontros, para avaliar os efeitos cumulativos dos aumentos recentes.
Empresariado cobra previsibilidade e equilíbrio
A falta de previsibilidade e o excesso de volatilidade nos rumos da política monetária são pontos recorrentes nas críticas do empresariado. Entidades como a FecomercioSP e a FIERGS cobram maior clareza na condução econômica e mais diálogo entre o setor público e privado.
Há consenso entre os representantes que a atual política monetária, se mantida por muito tempo, pode resultar em retração econômica, fechamento de empresas e aumento do desemprego, agravando ainda mais o quadro social.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Desigualdade e juros: impacto no consumidor final
Para além das empresas, o consumidor também sofre. Com os juros elevados, o crédito fica mais caro — financiamentos, cartões de crédito, empréstimos pessoais —, o que compromete o orçamento doméstico. Famílias mais endividadas sentem primeiro os efeitos, reduzindo o consumo e aumentando a inadimplência.
Essa retração no consumo impacta diretamente o comércio, criando um ciclo de desaquecimento econômico difícil de reverter sem estímulos mais amplos.
A preocupação com a credibilidade do Banco Central
Apesar das críticas, alguns analistas reconhecem que a manutenção de uma política monetária austera pode reforçar a credibilidade do Banco Central frente ao mercado financeiro. Isso ajuda a ancorar as expectativas de inflação e pode, a longo prazo, evitar picos de preços ainda mais severos.
Contudo, empresários argumentam que esse ganho de confiança não deve ser obtido à custa da paralisação da economia real.
Perspectivas: o que esperar nos próximos meses

Com a nova alta, o mercado aguarda os próximos movimentos do Banco Central. A expectativa é que os efeitos dos aumentos anteriores comecem a aparecer, permitindo ao Copom fazer uma pausa no ciclo de aperto. No entanto, tudo dependerá dos dados econômicos dos próximos meses — especialmente inflação, crescimento do PIB e situação fiscal.
O empresariado brasileiro segue atento e em alerta. Para muitos, a solução definitiva passa pela aprovação de reformas estruturais, como a administrativa e a tributária, além de uma política fiscal crível que reduza a dependência da Selic como único instrumento de contenção da inflação.
Conclusão
O novo aumento da Selic para 14,75% reacende preocupações sobre os rumos da política econômica no Brasil. Embora tenha como objetivo conter a inflação, a medida é vista por empresários como um obstáculo ao crescimento, ao consumo e à competitividade. Sem avanços estruturais na gestão fiscal, a dependência dos juros como único mecanismo de controle econômico pode aprofundar os desafios sociais e produtivos, exigindo do governo uma resposta mais ampla e equilibrada.
