O mês de maio de 2025 trouxe um novo sinal de alerta para a saúde financeira das famílias brasileiras. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), tanto o endividamento quanto a inadimplência apresentaram alta em relação ao mês anterior.
Endividamento sobe no Brasil; entenda a situação!
Endividamento e inadimplência aumentam em maio no Brasil, aponta CNC. Cartão lidera uso e classe média sente mais impacto. Veja dados e perspectivas.
Leia mais:
Endividamento em massa: entenda por que o crescimento econômico pode estar mascarando uma crise
Proporção de famílias endividadas volta a subir

De acordo com os dados da CNC, a proporção de famílias com dívidas a vencer subiu de 77,6% em abril para 78,2% em maio, configurando a segunda alta consecutiva no indicador. Embora ainda abaixo dos 78,8% registrados em maio de 2024, a nova elevação acende um sinal de alerta, especialmente em um contexto de juros ainda elevados e inflação resistente.
A pesquisa considera como dívidas compromissos com cartão de crédito, cheque especial, carnês de loja, crédito consignado, empréstimos pessoais, cheque pré-datado e financiamentos de veículos e imóveis.
Inadimplência atinge maior patamar desde outubro de 2023
Outro dado preocupante revelado pela Peic é o aumento no número de consumidores com dívidas em atraso. Em maio, a proporção de inadimplentes foi de 29,5%, frente a 29,1% em abril. Esse é o maior nível desde outubro de 2023. Na comparação anual, também houve crescimento: em maio de 2024, o índice era de 28,6%.
Aumento na parcela sem condições de pagar
Ainda mais preocupante é o dado referente à proporção de famílias que declararam não ter condições de quitar suas dívidas atrasadas, ou seja, que seguirão inadimplentes. Esse grupo passou de 12,4% em abril para 12,5% em maio, uma leve alta, mas que revela dificuldades persistentes de reorganização financeira.
Declarações da CNC: equilíbrio entre crédito e capacidade de pagamento
O presidente da CNC, José Roberto Tadros, comentou os dados com preocupação:
“Apesar de o porcentual de endividados ter ficado abaixo do registrado em 2024, o avanço na inadimplência evidencia um aumento da fragilidade financeira das famílias. O crédito precisa ser acessado com responsabilidade. Garantir o equilíbrio entre endividamento e capacidade de pagamento será fundamental para o crescimento do País.”
A fala reforça a importância de políticas públicas e iniciativas privadas voltadas para educação financeira, renegociação de dívidas e concessão responsável de crédito.
Composição das dívidas: cartão de crédito lidera, carnês crescem

Cartão de crédito continua em destaque
O cartão de crédito segue como a modalidade de crédito mais utilizada pelos brasileiros. Em maio de 2025, 83,6% dos consumidores endividados mencionaram o uso da modalidade. Apesar disso, houve uma queda em relação aos 86,9% de maio de 2024, o que pode indicar busca por alternativas com menor custo financeiro.
Crescimento no uso de carnês
Na contramão, os carnês de loja apresentaram aumento de participação: 17,2% dos endividados mencionaram a modalidade, contra 16,2% no mesmo mês do ano anterior. O crescimento pode estar relacionado a promoções do varejo, facilidades de parcelamento e busca por opções fora do sistema bancário tradicional.
Comprometimento de renda com dívidas recua
Apesar da elevação nos indicadores de endividamento e inadimplência, houve um dado positivo: o comprometimento da renda das famílias com dívidas caiu.
- A proporção de famílias que comprometem mais da metade da renda com dívidas recuou para 19,7%, o menor nível desde julho de 2023.
- A média de comprometimento da renda familiar com dívidas também caiu, passando a representar 29,8% dos rendimentos totais.
Esses números sugerem que, apesar do aumento da quantidade de famílias endividadas, parte da população está conseguindo equilibrar melhor seu orçamento, o que pode ser fruto de renegociações ou mudança na escolha dos tipos de crédito utilizados.
Redução no tempo das dívidas contratadas
Outro dado relevante da pesquisa diz respeito ao prazo das dívidas. A proporção de famílias com compromissos acima de um ano recuou pelo quinto mês consecutivo, atingindo 32,8%, o menor patamar desde junho de 2024. Em contrapartida, aumentou a adesão a dívidas de curto e médio prazo.
Segundo a CNC, essa movimentação revela uma tendência à busca por créditos com vencimentos mais próximos, o que pode indicar maior cautela dos consumidores e, ao mesmo tempo, um reflexo das condições impostas pelas instituições financeiras.
Projeções para o restante de 2025
O economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, fez um alerta sobre o cenário futuro:
“As projeções da CNC indicam que o endividamento das famílias deve continuar crescendo ao longo de 2025. No entanto, a expectativa de alta também da inadimplência pode desacelerar esse movimento. O cenário se agrava com a perspectiva de novos programas de crédito do governo, que podem elevar ainda mais o comprometimento da renda dos lares brasileiros.”
O comentário aponta para um cenário de fragilidade crescente, especialmente se não houver contrapartidas adequadas como educação financeira, acesso a crédito consciente e mecanismos de proteção social.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Classe média é a mais impactada no momento
A análise por faixa de renda revela que a classe média foi a mais afetada pelo aumento do endividamento e da inadimplência entre abril e maio de 2025.
Endividamento por faixa de renda:
- Até 3 salários mínimos: caiu de 81,1% para 81,0%
- De 3 a 5 salários mínimos: subiu de 79,0% para 80,3%
- De 5 a 10 salários mínimos: subiu de 75,7% para 78,9%
- Acima de 10 salários mínimos: subiu de 67,3% para 67,6%
Inadimplência por faixa de renda:
- Até 3 salários mínimos: recuou de 37,0% para 36,9%
- De 3 a 5 salários mínimos: subiu de 27,8% para 28,9%
- De 5 a 10 salários mínimos: subiu de 21,3% para 22,8%
- Acima de 10 salários mínimos: caiu de 15,2% para 15,0%
Os dados sugerem que famílias com renda intermediária estão mais pressionadas pelo custo de vida, pelo acesso ao crédito e pelo enfraquecimento do poder de compra, o que exige atenção especial em políticas públicas direcionadas a esse grupo.
O que esperar do segundo semestre?

Com a perspectiva de novos programas de crédito anunciados pelo governo federal, o segundo semestre pode apresentar aumento no volume de financiamentos contratados, especialmente por famílias em situação de vulnerabilidade. Isso pode:
- Ampliar o acesso ao consumo;
- Elevar o endividamento de curto prazo;
- Exigir mecanismos de controle de risco mais robustos.
A CNC alerta que a sustentabilidade do crédito passa por ações que combinem educação financeira, regulamentação responsável e estímulo ao planejamento familiar.
Considerações finais
A elevação do endividamento e da inadimplência das famílias em maio de 2025, segundo a pesquisa da CNC, é um reflexo direto de um cenário econômico que combina inflação resiliente, juros altos e renda pressionada.
Embora o comprometimento da renda com dívidas tenha recuado, o crescimento da inadimplência acende um alerta importante sobre a fragilidade financeira da classe média e o risco de superendividamento, especialmente diante de novos incentivos ao consumo.
A resposta para esse quadro passa por conscientização no uso do crédito, ampliação de programas de renegociação e atuação coordenada entre governo, setor financeiro e sociedade civil. O equilíbrio entre acesso ao crédito e capacidade de pagamento será decisivo para a saúde econômica das famílias brasileiras nos próximos meses.
