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Especialistas apontam custo elevado do MEI e sugerem mudanças nas regras

Estudo aponta impacto do MEI nas contas da Previdência enquanto governo analisa ampliar o limite de faturamento e os benefícios do programa.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Especialistas apontam custo elevado do MEI e sugerem mudanças nas regras

O regime do Microempreendedor Individual (MEI), considerado uma das principais políticas públicas de incentivo à formalização de pequenos negócios no Brasil, voltou ao centro das discussões econômicas. Enquanto o governo federal estuda ampliar o limite de faturamento anual e permitir a contratação de mais um funcionário, especialistas e órgãos técnicos alertam para os efeitos que o modelo atual pode provocar nas contas da Previdência Social ao longo das próximas décadas.

Um estudo divulgado recentemente pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP) afirma que, nas regras atuais, o MEI poderá gerar um déficit atuarial de centenas de bilhões de reais no longo prazo. A análise vai ao encontro de conclusões apresentadas anteriormente pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), órgão do governo federal responsável por avaliar programas públicos.

Ao mesmo tempo, integrantes da equipe econômica defendem mudanças para ampliar o alcance do programa, reacendendo o debate entre incentivo ao empreendedorismo, formalização e equilíbrio fiscal.

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O que é o MEI e por que o programa foi criado?

Criado em 2008, o Microempreendedor Individual surgiu para facilitar a formalização de trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores.

O regime oferece diversas vantagens, entre elas:

  • abertura simplificada de empresas;
  • tributação reduzida;
  • emissão de nota fiscal;
  • acesso a benefícios previdenciários;
  • menos burocracia para cumprir obrigações fiscais.

Atualmente, o Brasil possui cerca de 16,6 milhões de MEIs ativos, tornando o programa um dos maiores instrumentos de inclusão produtiva do país.

Além da simplificação tributária, o regime integra o Simples Nacional e garante isenção de diversos tributos federais, como:

  • Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ);
  • Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL);
  • PIS;
  • Cofins.

Pelas regras da reforma tributária, o MEI também continuará dispensado da cobrança da CBS e do IBS, novos tributos sobre o consumo.

Como funciona a contribuição previdenciária do MEI

O microempreendedor contribui mensalmente para a Previdência Social por meio do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS).

A contribuição previdenciária corresponde atualmente a 5% do salário mínimo.

Em troca, o empreendedor pode ter acesso a benefícios como:

  • aposentadoria por idade;
  • aposentadoria por incapacidade permanente;
  • auxílio por incapacidade temporária;
  • salário-maternidade;
  • pensão por morte para dependentes.

Entretanto, especialistas observam que a contribuição reduzida gera uma arrecadação inferior ao custo futuro dos benefícios previdenciários pagos pelo sistema.

Estudo estima déficit bilionário nas próximas décadas

Segundo o estudo elaborado pelo especialista em Previdência Social Rogério Nagamine para o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), o modelo atual pode provocar um déficit atuarial de aproximadamente R$ 711 bilhões ao longo de cerca de 70 anos.

O déficit atuarial representa a diferença entre o que o sistema deverá arrecadar e o valor projetado para pagamento dos benefícios futuros.

De acordo com o pesquisador, além da baixa contribuição previdenciária, existe a preocupação de que trabalhadores deixem regimes com maior arrecadação para aderir ao MEI, reduzindo ainda mais as receitas da Previdência.

O estudo destaca que esse movimento pode ocorrer principalmente em casos de substituição de empregos formais por contratos via pessoa jurídica, prática frequentemente associada ao debate sobre a chamada “pejotização”.

Governo pretende ampliar o limite do MEI

Enquanto especialistas defendem uma revisão do modelo, o governo federal estuda seguir caminho diferente.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Executivo pretende enviar ao Congresso Nacional um projeto para atualizar o limite anual de faturamento do MEI.

A proposta prevê:

  • aumento do teto de faturamento de R$ 81 mil para aproximadamente R$ 130 mil anuais até 2028;
  • autorização para contratação de um segundo empregado.

A medida acompanha o Projeto de Lei Complementar nº 108/2021, que já foi aprovado pelo Senado Federal e aguarda análise da Câmara dos Deputados.

Segundo o Ministério da Fazenda, os estudos técnicos sobre os impactos da proposta ainda estão em andamento.

Quais são as preocupações dos especialistas?

Para Rogério Nagamine, ampliar o programa sem alterar o modelo de contribuição pode aumentar ainda mais a pressão sobre a Previdência Social.

Entre os fatores apontados estão:

  • envelhecimento acelerado da população brasileira;
  • baixa contribuição previdenciária dos MEIs;
  • possibilidade de migração de trabalhadores do regime CLT para o MEI;
  • crescimento do déficit atuarial no longo prazo.

Pelas estimativas apresentadas no estudo, caso o limite de faturamento seja elevado para R$ 130 mil anuais mantendo as regras atuais, o déficit poderá aumentar em aproximadamente R$ 60 bilhões ao longo do período analisado.

Propostas para reduzir o impacto fiscal

O estudo do CDPP apresenta algumas sugestões para tornar o programa mais sustentável financeiramente.

Entre elas estão:

Restringir o acesso ao benefício

Uma das propostas é limitar o enquadramento como MEI a trabalhadores efetivamente de baixa renda, estabelecendo critérios mais objetivos para essa definição.

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Elevar a contribuição previdenciária

Outra recomendação é aumentar novamente a alíquota previdenciária de 5% para 11% do salário mínimo, percentual que vigorava até 2011.

Segundo os cálculos apresentados, essa alteração poderia elevar significativamente a arrecadação anual destinada à Previdência.

Criar contribuição patronal

O estudo também sugere a criação de uma contribuição previdenciária para empresas que contratam serviços prestados por MEIs.

A intenção seria reduzir incentivos para contratações que substituam vínculos formais exclusivamente com o objetivo de diminuir encargos trabalhistas.

Rever regras de aposentadoria

Outra proposta envolve futuras reformas previdenciárias que reduzam o déficit atuarial do regime, especialmente por meio da revisão de critérios relacionados à concessão de benefícios.

Relatório do governo também apontou riscos

As preocupações não são exclusivas de estudos independentes.

Em 2022, o Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), colegiado do governo federal, divulgou um relatório avaliando os impactos do programa.

Embora reconheça que o MEI desempenha papel importante na formalização de pequenos empreendedores e na inclusão social, o documento concluiu que a contribuição reduzida de 5% incorpora elevado subsídio previdenciário.

As projeções oficiais apresentadas indicavam déficits acumulados de:

  • R$ 186,8 bilhões em 20 anos;
  • R$ 437 bilhões em 30 anos;
  • R$ 728,8 bilhões em 40 anos;
  • R$ 1,07 trilhão em 75 anos.

O relatório recomendava estudos para avaliar a possibilidade de rever a alíquota previdenciária e aprimorar os mecanismos de fiscalização sobre a utilização do regime.

Governo também demonstra preocupação com fraudes

Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

Outro ponto em discussão envolve o uso inadequado do MEI em relações de trabalho.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, já declarou que o regime não deve ser utilizado para mascarar vínculos empregatícios.

Segundo ele, situações em que empresas contratam profissionais como MEI para exercer funções típicas de empregados podem comprometer direitos trabalhistas, reduzir a arrecadação da Previdência, do FGTS e das contribuições destinadas ao Sistema S.

O tema também é acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que analisa processos relacionados à chamada pejotização.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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