O regime do Microempreendedor Individual (MEI), considerado uma das principais políticas públicas de incentivo à formalização de pequenos negócios no Brasil, voltou ao centro das discussões econômicas. Enquanto o governo federal estuda ampliar o limite de faturamento anual e permitir a contratação de mais um funcionário, especialistas e órgãos técnicos alertam para os efeitos que o modelo atual pode provocar nas contas da Previdência Social ao longo das próximas décadas.
Especialistas apontam custo elevado do MEI e sugerem mudanças nas regras
Estudo aponta impacto do MEI nas contas da Previdência enquanto governo analisa ampliar o limite de faturamento e os benefícios do programa.
Um estudo divulgado recentemente pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP) afirma que, nas regras atuais, o MEI poderá gerar um déficit atuarial de centenas de bilhões de reais no longo prazo. A análise vai ao encontro de conclusões apresentadas anteriormente pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), órgão do governo federal responsável por avaliar programas públicos.
Ao mesmo tempo, integrantes da equipe econômica defendem mudanças para ampliar o alcance do programa, reacendendo o debate entre incentivo ao empreendedorismo, formalização e equilíbrio fiscal.
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O que é o MEI e por que o programa foi criado?
Criado em 2008, o Microempreendedor Individual surgiu para facilitar a formalização de trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores.
O regime oferece diversas vantagens, entre elas:
- abertura simplificada de empresas;
- tributação reduzida;
- emissão de nota fiscal;
- acesso a benefícios previdenciários;
- menos burocracia para cumprir obrigações fiscais.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 16,6 milhões de MEIs ativos, tornando o programa um dos maiores instrumentos de inclusão produtiva do país.
Além da simplificação tributária, o regime integra o Simples Nacional e garante isenção de diversos tributos federais, como:
- Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ);
- Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL);
- PIS;
- Cofins.
Pelas regras da reforma tributária, o MEI também continuará dispensado da cobrança da CBS e do IBS, novos tributos sobre o consumo.
Como funciona a contribuição previdenciária do MEI
O microempreendedor contribui mensalmente para a Previdência Social por meio do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS).
A contribuição previdenciária corresponde atualmente a 5% do salário mínimo.
Em troca, o empreendedor pode ter acesso a benefícios como:
- aposentadoria por idade;
- aposentadoria por incapacidade permanente;
- auxílio por incapacidade temporária;
- salário-maternidade;
- pensão por morte para dependentes.
Entretanto, especialistas observam que a contribuição reduzida gera uma arrecadação inferior ao custo futuro dos benefícios previdenciários pagos pelo sistema.
Estudo estima déficit bilionário nas próximas décadas
Segundo o estudo elaborado pelo especialista em Previdência Social Rogério Nagamine para o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), o modelo atual pode provocar um déficit atuarial de aproximadamente R$ 711 bilhões ao longo de cerca de 70 anos.
O déficit atuarial representa a diferença entre o que o sistema deverá arrecadar e o valor projetado para pagamento dos benefícios futuros.
De acordo com o pesquisador, além da baixa contribuição previdenciária, existe a preocupação de que trabalhadores deixem regimes com maior arrecadação para aderir ao MEI, reduzindo ainda mais as receitas da Previdência.
O estudo destaca que esse movimento pode ocorrer principalmente em casos de substituição de empregos formais por contratos via pessoa jurídica, prática frequentemente associada ao debate sobre a chamada “pejotização”.
Governo pretende ampliar o limite do MEI
Enquanto especialistas defendem uma revisão do modelo, o governo federal estuda seguir caminho diferente.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Executivo pretende enviar ao Congresso Nacional um projeto para atualizar o limite anual de faturamento do MEI.
A proposta prevê:
- aumento do teto de faturamento de R$ 81 mil para aproximadamente R$ 130 mil anuais até 2028;
- autorização para contratação de um segundo empregado.
A medida acompanha o Projeto de Lei Complementar nº 108/2021, que já foi aprovado pelo Senado Federal e aguarda análise da Câmara dos Deputados.
Segundo o Ministério da Fazenda, os estudos técnicos sobre os impactos da proposta ainda estão em andamento.
Quais são as preocupações dos especialistas?
Para Rogério Nagamine, ampliar o programa sem alterar o modelo de contribuição pode aumentar ainda mais a pressão sobre a Previdência Social.
Entre os fatores apontados estão:
- envelhecimento acelerado da população brasileira;
- baixa contribuição previdenciária dos MEIs;
- possibilidade de migração de trabalhadores do regime CLT para o MEI;
- crescimento do déficit atuarial no longo prazo.
Pelas estimativas apresentadas no estudo, caso o limite de faturamento seja elevado para R$ 130 mil anuais mantendo as regras atuais, o déficit poderá aumentar em aproximadamente R$ 60 bilhões ao longo do período analisado.
Propostas para reduzir o impacto fiscal
O estudo do CDPP apresenta algumas sugestões para tornar o programa mais sustentável financeiramente.
Entre elas estão:
Restringir o acesso ao benefício
Uma das propostas é limitar o enquadramento como MEI a trabalhadores efetivamente de baixa renda, estabelecendo critérios mais objetivos para essa definição.
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Elevar a contribuição previdenciária
Outra recomendação é aumentar novamente a alíquota previdenciária de 5% para 11% do salário mínimo, percentual que vigorava até 2011.
Segundo os cálculos apresentados, essa alteração poderia elevar significativamente a arrecadação anual destinada à Previdência.
Criar contribuição patronal
O estudo também sugere a criação de uma contribuição previdenciária para empresas que contratam serviços prestados por MEIs.
A intenção seria reduzir incentivos para contratações que substituam vínculos formais exclusivamente com o objetivo de diminuir encargos trabalhistas.
Rever regras de aposentadoria
Outra proposta envolve futuras reformas previdenciárias que reduzam o déficit atuarial do regime, especialmente por meio da revisão de critérios relacionados à concessão de benefícios.
Relatório do governo também apontou riscos
As preocupações não são exclusivas de estudos independentes.
Em 2022, o Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), colegiado do governo federal, divulgou um relatório avaliando os impactos do programa.
Embora reconheça que o MEI desempenha papel importante na formalização de pequenos empreendedores e na inclusão social, o documento concluiu que a contribuição reduzida de 5% incorpora elevado subsídio previdenciário.
As projeções oficiais apresentadas indicavam déficits acumulados de:
- R$ 186,8 bilhões em 20 anos;
- R$ 437 bilhões em 30 anos;
- R$ 728,8 bilhões em 40 anos;
- R$ 1,07 trilhão em 75 anos.
O relatório recomendava estudos para avaliar a possibilidade de rever a alíquota previdenciária e aprimorar os mecanismos de fiscalização sobre a utilização do regime.
Governo também demonstra preocupação com fraudes

Outro ponto em discussão envolve o uso inadequado do MEI em relações de trabalho.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, já declarou que o regime não deve ser utilizado para mascarar vínculos empregatícios.
Segundo ele, situações em que empresas contratam profissionais como MEI para exercer funções típicas de empregados podem comprometer direitos trabalhistas, reduzir a arrecadação da Previdência, do FGTS e das contribuições destinadas ao Sistema S.
O tema também é acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que analisa processos relacionados à chamada pejotização.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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