Em um momento de especulação intensa no mercado de criptomoedas, a Arkham Intelligence — plataforma de rastreamento e análise on-chain — trouxe alívio e clareza ao revelar que o governo dos Estados Unidos ainda mantém o controle de mais de 198.000 Bitcoins (BTC), avaliados atualmente em cerca de US$ 23,4 bilhões.
EUA mantêm mais de 198 mil Bitcoins: Arkham dissipa pânico e reforça status de “baleia” do governo norte-americano
Arkham revela que o governo dos EUA ainda detém mais de 198 mil Bitcoins, desmentindo temores após divulgação parcial. Veja os detalhes.
O anúncio dissipou o pânico momentâneo que tomou conta de traders e analistas, após a publicação de documentos públicos que apontavam a posse de apenas 28.988 BTC por parte do Serviço de Delegados dos EUA.
De acordo com a Arkham, o volume real está fragmentado entre carteiras digitais sob custódia de diferentes agências federais, incluindo o FBI, o IRS, a DEA e o Departamento de Justiça (DOJ). Esses ativos são resultado de apreensões históricas em casos de fraude, lavagem de dinheiro, operações do mercado negro e hacks de plataformas cripto.
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Uma “baleia estatal”: o governo dos EUA como gigante silencioso do Bitcoin
O relatório da Arkham coloca o governo dos EUA entre as maiores “baleias de Bitcoin” do mundo — um termo popular usado para descrever entidades que controlam grandes quantidades do ativo e que podem, teoricamente, influenciar os mercados com movimentos significativos de venda ou transferência.
Apesar do volume expressivo, os dados mostram que as moedas não são movimentadas há mais de quatro meses, o que inicialmente gerou pânico entre traders que observaram apenas os dados restritos ao Serviço de Delegados.
A diferença entre o número publicado e o real levou a temores de que os EUA estariam se desfazendo discretamente de suas reservas.
“Foi um susto desnecessário. Houve um erro de interpretação ao considerar apenas uma das frentes de custódia dos Bitcoins apreendidos”, disse um analista da Glassnode.
O papel da Arkham: análise forense e rastreamento de carteiras públicas

A Arkham Intelligence, conhecida por seu trabalho de vinculação de endereços on-chain a entidades identificáveis, consolidou dados públicos e informações blockchain para compor o quadro completo. Segundo o relatório, pelo menos 198.012 BTC estão sob controle de órgãos federais dos Estados Unidos.
Essas posses incluem os montantes obtidos por meio de investigações que se estendem por quase uma década e que vão desde operações clandestinas na dark web até o colapso de plataformas centralizadas de grande porte, como a FTX.
Casos emblemáticos que compõem as reservas federais de Bitcoin
Bitfinex: o maior lote individual
Um dos principais blocos da reserva federal de BTC vem da investigação sobre o hack da exchange Bitfinex em 2016, que resultou na apreensão de 114.599 Bitcoins. O caso, que envolveu Ilya Lichtenstein e Heather Morgan, continua sendo uma das maiores recuperações de criptoativos da história, somando mais de US$ 13,65 bilhões em valores atuais.
Silk Road e o “Indivíduo X”
Outra parte significativa das posses do governo americano está ligada à operação Silk Road, mercado ilegal de drogas e serviços na dark web desmantelado em 2013. Entre os montantes apreendidos, destacam-se:
- 51.680 BTC tomados de James Zhong, envolvido em um roubo sofisticado de fundos;
- 69.370 BTC ligados a um hacker anônimo identificado como “Indivíduo X”.
Essas duas operações representam cerca de 121 mil BTC, ou seja, mais de 60% do total sob custódia federal.
Outros casos de destaque
- US$ 81,25 milhões em BTC foram apreendidos de contas da Alameda Research na Binance, após o colapso da FTX;
- US$ 79,5 milhões foram recolhidos de dois golpistas estonianos, Sergei Potapenko e Ivan Turogin, operadores do esquema HashFlare.
Esses episódios evidenciam a crescente presença dos órgãos de fiscalização norte-americanos no combate a crimes financeiros envolvendo criptoativos.
Vendas já realizadas: 30 mil BTC liquidados, mas sem impacto estrutural
Apesar do tamanho das reservas, o governo dos EUA já vendeu aproximadamente 30.000 BTC ao longo de 2023 e 2024. As vendas, no entanto, foram programadas e anunciadas previamente, o que reduziu impactos negativos no mercado.
Cronologia das vendas:
- Março de 2023: 9.861 BTC vendidos por cerca de US$ 215 milhões, relacionados ao caso Zhong;
- Agosto de 2024: 10.000 BTC vendidos por US$ 594 milhões;
- Dezembro de 2024: novo lote de 10.000 BTC vendidos por US$ 968 milhões.
Mesmo com essas liquidações, os maiores blocos apreendidos seguem intactos, em especial os relacionados ao Bitfinex e Silk Road.
Senadora Cynthia Lummis alerta: “erro estratégico” reduzir reservas
A senadora Cynthia Lummis, uma das principais vozes pró-Bitcoin no Congresso dos EUA, reagiu aos boatos recentes com um alerta contundente. Segundo ela, permitir que as reservas federais de BTC caíssem para abaixo de 30.000 moedas seria um erro estratégico grave para o país.
“Os Estados Unidos estão em posição única de liderar financeiramente o século XXI. Bitcoin pode ser um ativo geopolítico, não apenas especulativo”, afirmou Lummis em comunicado.
A senadora defende a tokenização de reservas soberanas e uma eventual adoção do Bitcoin como parte dos ativos estratégicos do Tesouro, a exemplo de ouro ou títulos do Tesouro.
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A falta de transparência alimenta rumores
Ausência de banco de dados unificado causa confusão no mercado
Um dos principais motivos para o pânico gerado recentemente é a ausência de um registro público e centralizado com as informações sobre os criptoativos em posse do governo. Cada agência mantém seus próprios registros, e a maioria das informações só vem à tona após decisões judiciais ou investigações jornalísticas.
Essa fragmentação abre espaço para interpretações errôneas e rumores recorrentes de vendas em massa, que frequentemente impactam o mercado cripto com quedas momentâneas.
“A divulgação de dados desconexos tende a amplificar o medo e a desinformação. Seria prudente que o governo adote uma política transparente e coordenada sobre os ativos digitais sob custódia”, afirma Jill Marcus, consultora regulatória da Blockchain Foundation.
A custódia governamental como teste para a política cripto dos EUA
Entre a repressão e a regulação
O fato de o governo dos EUA deter uma quantidade tão expressiva de BTC levanta questionamentos sobre o futuro da política pública em relação às criptomoedas.
Embora grande parte dos ativos tenha sido obtida por meio de repressão a crimes cibernéticos, o simples fato de mantê-los — e não vendê-los imediatamente — sugere uma mudança de postura estratégica.
Especialistas argumentam que os EUA poderiam usar essas reservas como:
- Reserva de valor soberana, diversificando ativos do Tesouro;
- Instrumento geopolítico, frente à adoção de moedas digitais por outros países;
- Fundo de inovação, para financiar startups blockchain.
No entanto, qualquer iniciativa nesse sentido dependeria de reformas legislativas e alinhamento político, algo ainda distante do cenário atual.
Conclusão: EUA seguem como peça-chave no tabuleiro do Bitcoin global

O relatório da Arkham Intelligence serviu como um importante antídoto contra o pânico momentâneo que tomou conta do mercado cripto. Ao confirmar que o governo dos Estados Unidos mantém mais de 198 mil BTC, a análise trouxe de volta ao centro do debate o papel da maior potência mundial como participante — ainda que indireto — do ecossistema Bitcoin.
Ainda que parte dessas moedas tenha sido adquirida por meio de ações judiciais e repressão a crimes, o fato de não terem sido liquidadas em sua totalidade indica cautela estratégica e reconhecimento do valor intrínseco do ativo digital.
À medida que o mercado amadurece e a pressão por regulamentação cresce, a relação entre o Estado e o Bitcoin tende a se tornar mais complexa — e potencialmente simbiótica. O governo dos EUA, ao que tudo indica, não é apenas um regulador ou réu em ações criminais envolvendo criptoativos — mas também, e cada vez mais, um verdadeiro hodler institucional.
