Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

EUA traçam nova rota para criptoativos, mas evitam falar sobre reserva estratégica de Bitcoin

A Casa Branca publicou relatório com diretrizes para o setor de criptomoedas nos EUA. Texto avança na regulação, mas omite detalhes sobre reserva de Bitcoin.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
bitcoin

No dia 30 de julho, a Casa Branca publicou um relatório abrangente de 163 páginas sobre políticas públicas voltadas ao setor de ativos digitais. O documento é considerado o mais importante já produzido por um governo dos EUA sobre o tema e representa um divisor de águas para a regulação das criptomoedas.

A proposta detalha diretrizes sobre regulação de exchanges, tributação de transações, stablecoins e incentivo à inovação. No entanto, chamou a atenção do mercado a completa ausência de informações sobre a chamada “reserva estratégica de Bitcoin”, anunciada meses antes com grande expectativa pelo próprio governo Trump.

Leia mais:

Bitcoin em alerta: analistas identificam 3 sinais de divergência técnica que podem sinalizar queda em agosto

O relatório: estrutura e autores

O relatório foi elaborado por um grupo interagências coordenado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, e pelo presidente da SEC, Paul Atkins. Ambos lideraram uma força-tarefa criada por ordem executiva de Donald Trump, em janeiro de 2025, com o objetivo de alinhar políticas de Estado em relação aos ativos digitais.

O documento teve prazo de elaboração de 180 dias e foi apresentado como um “roteiro” regulatório que dará forma à legislação e às ações do Poder Executivo no setor cripto.

1. Estabilidade jurídica para exchanges e stablecoins

Um dos pontos centrais do documento é a tentativa de encerrar a disputa de competências entre a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) e a Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CFTC).

A proposta é que ambas colaborem de forma coordenada para aprovar o funcionamento de exchanges, corretoras e emissores de stablecoins, utilizando as leis atuais.

O texto também recomenda a aplicação acelerada do GENIUS Act — legislação já aprovada pelo Congresso — que regula o funcionamento de stablecoins lastreadas em dólar. A lei exige lastro 1:1, transparência na divulgação de reservas e adesão a normas contra lavagem de dinheiro (KYC e AML).

2. Mudanças tributárias para facilitar uso cotidiano de cripto

Bitcoin
Imagem: Freepik

O relatório propõe alterações importantes nas regras de tributação sobre transações em criptoativos. Um dos destaques é a proposta de isenção fiscal para pequenas compras, seguindo sugestão da senadora Cynthia Lummis.

O texto também propõe mudanças na forma de taxar atividades como staking, mineração e yield farming, que atualmente enfrentam dupla tributação.

A nova abordagem tributária sugere que ganhos provenientes dessas atividades só sejam tributados no momento da venda dos ativos, e não em sua geração, o que poderá simplificar a vida do usuário comum.

3. Estímulo à inovação e DeFi

O relatório dedica uma seção considerável ao incentivo à inovação no setor de finanças descentralizadas (DeFi). Uma das propostas é a criação de “safe harbors” — ambientes regulatórios temporários que permitem o funcionamento experimental de novos projetos, sem a imposição imediata de regras completas. Também se propõe o fortalecimento das chamadas sandboxes regulatórias.

O documento recomenda que agências como o OCC (que regula bancos federais) estabeleçam diretrizes claras para facilitar o acesso de empresas cripto ao sistema financeiro tradicional, inclusive com licenças bancárias para emissores de stablecoins e contas no Federal Reserve.

4. Segurança, lavagem de dinheiro e privacidade sob análise

O relatório reconhece que o setor de criptoativos apresenta riscos ligados à lavagem de dinheiro e financiamento ilícito. Contudo, o texto não propõe a criação de novas sanções. A estratégia é reforçar a cooperação entre FinCEN, FBI e IRS e aplicar os padrões existentes de KYC e AML.

Um ponto sensível é a menção explícita ao uso de mixers e criptomoedas focadas em privacidade. Segundo o documento, esses recursos podem representar risco à integridade financeira do país e devem ser objeto de novas obrigações de reporte e transparência.

A jornalista independente Lola L33tz criticou essa abordagem, afirmando que o relatório pode ser o prenúncio de uma cruzada contra tecnologias de proteção de dados pessoais, como Zcash, Monero e ferramentas como Tornado Cash.

No entanto, o texto não chega a propor banimentos, apenas indica que o tema será analisado com cuidado pela equipe do FinCEN e poderá gerar normas futuras.

O silêncio sobre a reserva de Bitcoin

Apesar do conteúdo robusto em temas regulatórios, o relatório ignora completamente a prometida reserva estratégica de Bitcoin dos EUA. O plano havia sido anunciado em março por meio de uma ordem executiva assinada por Donald Trump.

Segundo o decreto, o governo utilizaria BTCs confiscados em operações judiciais para formar uma espécie de cofre digital sob gestão do Tesouro Nacional. A proposta também previa estudar mecanismos para adquirir mais bitcoins sem impactar o orçamento público — como parcerias com o setor privado e mecanismos de recompra via mercado secundário.

Entretanto, nas 163 páginas do relatório, a palavra “reserva” sequer aparece. A omissão causou estranheza em analistas e investidores. Em entrevistas concedidas após a divulgação do documento, Bo Hines, Diretor Executivo do Conselho Presidencial sobre Ativos Digitais, foi evasivo.

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Indagado sobre a ausência do tema, Hines limitou-se a dizer que “a infraestrutura está sendo construída” e que “mais informações serão publicadas no futuro”.

Não há prazos, metas ou números oficiais sobre quanto BTC o governo já detém, nem quais seriam os próximos passos.

Repercussão entre especialistas e mercado

Apesar da ausência da reserva estratégica, o relatório foi bem recebido pelos principais atores do setor. A Blockchain Association declarou que o texto inaugura “uma nova fase” para os ativos digitais nos EUA. A Chamber of Digital Commerce o descreveu como uma “bíblia regulatória” e sinalizou que o clima institucional para criptoativos está claramente melhorando.

Federico Brokate, diretor da 21Shares nos EUA, afirmou que o relatório foca corretamente em eliminar barreiras regulatórias, o que favorece a expansão de produtos financeiros baseados em cripto.

Já analistas do Morningstar e do MarketWatch destacaram que a falta de detalhes sobre a reserva de Bitcoin pode ser estratégica: ao não revelar informações, o governo mantém margem de manobra e evita pressões políticas e de mercado.

A visão estratégica por trás da omissão

Especialistas em políticas públicas acreditam que a ausência da reserva estratégica do relatório não significa abandono do plano. Pelo contrário: o silêncio pode ter sido uma decisão deliberada.

Segundo Leandro Noel, da Avenia, emissora da stablecoin BRLA, “quanto mais sensível o tema, maior a chance de que seja tratado em instrumentos separados, como ordens executivas reservadas ou legislações específicas”.

Para Noel, o governo pode estar evitando dar sinais ao mercado que poderiam gerar especulação em torno do preço do Bitcoin ou alimentar narrativas políticas contrárias à política monetária atual.

Conclusão: avanço institucional, mas com pontos cegos

Bitcoin
Imagem: REDPIXEL.PL / Shutterstock.com

O relatório da Casa Branca representa um avanço institucional significativo. Ao sistematizar propostas sobre regulação, tributação e inovação no setor de criptoativos, o documento oferece um mapa regulatório mais claro para empresas, usuários e investidores.

No entanto, a ausência de qualquer menção à reserva estratégica de Bitcoin levanta dúvidas sobre o grau de prioridade real do projeto.

Se os EUA querem liderar a nova economia digital, como declarou Trump em diversos discursos, será necessário também demonstrar transparência e compromisso com os planos públicos anunciados. A omissão estratégica pode ser apenas uma etapa no caminho da construção da reserva — mas para os olhos atentos do mercado, cada silêncio também fala muito.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

Topicos relacionados