Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) deixaram de ser um produto restrito a investidores qualificados e vêm consolidando espaço no mercado financeiro brasileiro. Impulsionados pela abertura ao investidor de varejo, pelo interesse crescente das empresas em buscar alternativas ao crédito bancário e pela evolução do mercado de capitais, esses fundos registraram forte expansão nos últimos anos e, na avaliação de especialistas, ainda têm amplo potencial de crescimento.
Mercado de FIDCs deve avançar muito além do crescimento atual, dizem gestores
FIDCs aceleram no Brasil, ampliam o crédito privado e atraem investidores. Entenda por que especialistas veem espaço para forte crescimento.
Durante um painel realizado na Expert XP 2026, gestores de algumas das principais casas de investimento do país defenderam que o segmento está apenas no início de um ciclo de expansão. Segundo eles, a combinação entre mudanças regulatórias, maior diversificação das fontes de financiamento e inovação na concessão de crédito deve continuar impulsionando os FIDCs.
Ao longo deste artigo, entenda por que esses fundos estão crescendo, quais fatores sustentam esse movimento, quais são os riscos envolvidos e o que o investidor deve analisar antes de aplicar recursos.
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O que são os FIDCs e como eles funcionam?

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) aplicam recursos na compra de direitos de recebimento de empresas e instituições. Esses direitos podem ser originados de diversos tipos de operações, como:
- duplicatas comerciais;
- financiamentos;
- empréstimos consignados;
- recebíveis de cartões;
- mensalidades escolares;
- contratos de prestação de serviços.
Na prática, empresas que precisam antecipar receitas vendem esses créditos ao fundo. Em troca, recebem recursos imediatamente, enquanto os investidores passam a receber os pagamentos futuros desses ativos.
Esse mecanismo amplia as alternativas de financiamento para empresas e cria novas oportunidades de investimento no mercado de crédito privado.
Especialistas avaliam que o potencial de crescimento permanece elevado
Apesar da expansão observada nos últimos anos e da aproximação de um patrimônio de R$ 1 trilhão, especialistas afirmam que os FIDCs ainda estão longe de atingir seu potencial máximo.
Bruno Spilberg, gestor de crédito da SPX Capital, afirmou durante a Expert XP 2026 que diversos agentes econômicos passaram a enxergar vantagens na estrutura dos fundos.
Segundo ele, os bancos perceberam que os FIDCs podem ser instrumentos eficientes para alocação de capital, enquanto empresas identificam alternativas ao crédito tradicional. Ao mesmo tempo, investidores encontram uma combinação de diversificação, planejamento tributário e uma relação entre risco e retorno considerada atrativa.
Essa convergência de interesses ajuda a explicar o avanço do setor.
Redução da concentração bancária impulsiona o mercado
Outro fator apontado pelos especialistas é a gradual descentralização do crédito no Brasil.
Historicamente, grande parte do financiamento às empresas esteve concentrada em poucos bancos de grande porte. Nos últimos anos, porém, o Banco Central vem adotando medidas para estimular maior concorrência e fortalecer o mercado de capitais como fonte alternativa de crédito.
Segundo Delano Macedo, sócio-fundador e diretor de crédito da Solis Investimentos, esse movimento favorece diretamente os FIDCs.
Além disso, a decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de ampliar o acesso aos FIDCs para investidores de varejo foi considerada um marco importante para a maturidade do segmento.
Na avaliação do executivo, a base de investidores vem crescendo de forma acelerada desde meados dos anos 2000 e a tendência é de continuidade desse processo.
Desbancarização amplia oportunidades de financiamento
Um dos conceitos centrais discutidos durante o evento foi a chamada desbancarização do crédito.
Na prática, isso significa que empresas deixam de depender exclusivamente dos bancos para captar recursos, recorrendo cada vez mais ao mercado de capitais.
Segundo Gustavo Cortes, sócio gestor de private credit da Vinci Partners, esse processo já ocorreu em economias desenvolvidas, como os Estados Unidos, e tende a ganhar força também no Brasil.
Para ele, os FIDCs exercem papel importante nesse cenário porque conseguem conectar investidores diretamente a diferentes segmentos da economia real.
Além disso, o avanço tecnológico tem permitido desenvolver modelos mais eficientes para análise, originação e concessão de crédito.
Bancos também passaram a utilizar os FIDCs
Ao contrário da percepção de que os FIDCs competem diretamente com os bancos, especialistas afirmam que muitas instituições financeiras passaram a atuar como parceiras desse mercado.
Segundo Delano Macedo, é cada vez mais comum que bancos encaminhem operações para gestoras especializadas quando determinados segmentos não fazem parte de sua estratégia principal.
Entre os exemplos citados estão:
- pequenas e médias empresas;
- crédito consignado privado;
- operações voltadas para pessoas físicas;
- nichos cuja escala não justifica atuação direta das instituições financeiras.
Além de originarem operações, alguns bancos também investem em cotas subordinadas dos próprios fundos e alocam recursos de suas tesourarias nos FIDCs.
Estrutura permite adaptar investimentos a diferentes perfis de ativos
Uma das principais características dos FIDCs é sua flexibilidade.
Delano Macedo comparou essa estrutura a um “canivete suíço”, justamente pela possibilidade de customização para diferentes tipos de recebíveis.
Essa característica amplia o universo de ativos que podem ser financiados e aproxima os recursos do mercado financeiro das necessidades específicas da economia real.
Com isso, empresas de diferentes setores conseguem acessar fontes de capital compatíveis com suas operações.
Como os FIDCs enfrentam períodos de crise
Embora o cenário econômico brasileiro apresente desafios recorrentes, especialistas destacam que os FIDCs já atravessaram diferentes momentos de instabilidade desde sua criação no início dos anos 2000.
Segundo Gustavo Cortes, um dos fatores que contribuem para essa resiliência é a estrutura dos fundos.
Em muitos casos, os FIDCs contam com diferentes classes de cotas e mecanismos de subordinação que ajudam a absorver parte das perdas decorrentes da inadimplência da carteira.
Isso não elimina os riscos, mas cria camadas adicionais de proteção para determinados investidores.
Ainda assim, o executivo alerta que cada fundo possui características próprias e que o desempenho depende diretamente da qualidade dos ativos adquiridos.
O investidor deve analisar mais do que a rentabilidade
Apesar do bom momento vivido pelo setor, especialistas recomendam cautela na escolha dos fundos.
Entre os principais pontos que devem ser observados estão:
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Histórico da gestora
A experiência da equipe responsável pela seleção dos créditos pode fazer diferença importante na qualidade da carteira.
Setor de atuação
Alguns segmentos da economia apresentam maior sensibilidade às crises econômicas do que outros.
Entender onde o fundo investe ajuda a dimensionar os riscos envolvidos.
Estrutura do fundo
A existência de cotas subordinadas, mecanismos de proteção e critérios de seleção dos ativos pode aumentar a segurança da operação.
Liquidez
Também é necessário verificar se o prazo de resgate do fundo é compatível com o vencimento dos recebíveis adquiridos.
Especialistas ressaltam que um descasamento entre esses prazos pode gerar dificuldades para a gestão da carteira.
Crescimento exige governança e disciplina
O avanço acelerado do mercado também traz novos desafios.
Delano Macedo destacou que o crescimento precisa ser acompanhado por critérios rigorosos na concessão de crédito, fiscalização constante e boa governança.
Segundo ele, é fundamental que os ativos adquiridos mantenham as características originalmente previstas no regulamento do fundo.
Mudanças no perfil dos recebíveis ou falhas na originação podem aumentar significativamente os riscos para os investidores.
Além disso, o acompanhamento permanente da carteira torna-se essencial para preservar a qualidade dos investimentos.
FIDCs ainda podem ganhar participação no mercado brasileiro

Mesmo diante da popularização do segmento, Bruno Spilberg acredita que o crescimento observado até agora representa apenas uma etapa da evolução do mercado.
Embora reconheça que o aumento da procura desperte questionamentos sobre eventual excesso de otimismo, ele lembra que os FIDCs já enfrentaram crises importantes e demonstraram capacidade de absorver impactos graças à própria estrutura das securitizações.
A expectativa compartilhada pelos participantes do painel é que o crédito privado continue ampliando sua participação na economia brasileira, oferecendo novas alternativas tanto para empresas quanto para investidores.
Conclusão
Os FIDCs vêm assumindo papel cada vez mais relevante no mercado financeiro brasileiro ao ampliar as fontes de crédito para empresas e oferecer novas oportunidades de diversificação aos investidores. A abertura ao varejo, a evolução regulatória e a busca por alternativas ao financiamento bancário reforçam essa tendência.
Apesar das perspectivas positivas, trata-se de um investimento que exige análise criteriosa. Avaliar a qualidade da gestora, o perfil dos ativos, a estrutura de proteção do fundo e os riscos envolvidos continua sendo fundamental antes de investir.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
