Antes vistas como sinônimo de inovação, agilidade e ruptura com a burocracia bancária tradicional, as fintechs atravessaram um dos períodos mais delicados de sua história recente em 2025. Investigações conduzidas pela Receita Federal, Polícia Federal e outros órgãos revelaram a suposta participação de algumas dessas startups financeiras em esquemas ligados ao crime organizado, envolvendo lavagem de dinheiro e fraudes de grande escala.
Novas regras do BC para fintechs começam a valer, veja o que muda no seu uso diário
Após investigações e novas regras do BC, fintechs enfrentam 2026 focadas em compliance, segurança, IA antifraudes e retomada da credibilidade.
Embora os casos investigados representem uma parcela minoritária do ecossistema, o impacto reputacional foi amplo. Especialistas ouvidos pelo mercado avaliam que a confiança do consumidor foi abalada, criando um desafio coletivo para um setor que, até então, crescia impulsionado pela credibilidade digital e pela promessa de serviços mais transparentes e acessíveis.
Com a entrada em vigor de regras mais rígidas do Banco Central e um acompanhamento mais atento do Fisco, 2026 surge como um ano decisivo para que as fintechs recuperem espaço, confiança e previsibilidade diante de clientes e investidores.
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Operações revelaram fragilidades no modelo de algumas fintechs
Entre agosto e setembro de 2025, uma série de operações, como Carbono Oculto, Quasar e Tank, expôs estruturas consideradas pouco transparentes. Segundo as autoridades, mecanismos como as chamadas “contas-bolsão” e arranjos operacionais via empresas de Tecnologia da Informação foram explorados por organizações criminosas para ocultar recursos e dificultar o rastreamento de transações financeiras.
O papel das contas-bolsão nas investigações
As contas-bolsão funcionam como contas abertas por fintechs em bancos tradicionais, nas quais são centralizados recursos de diversos clientes finais sob um único titular, a própria fintech. Esse modelo, segundo os investigadores, dificultava a identificação da origem e do destino dos valores, criando um ambiente propício para irregularidades.
Um dos casos mais emblemáticos foi o da BK Bank, apontada pela Receita Federal como tendo movimentado cerca de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2025 em operações supostamente ligadas ao crime organizado. O episódio escancarou o chamado “vácuo regulatório” que existia em relação às obrigações de reporte dessas instituições.
Especialistas apontam impacto direto na imagem do setor
Para o advogado especialista em direito bancário e tributário Rafael Guazelli, a descoberta de que algumas fintechs teriam facilitado práticas ilícitas afetou profundamente a percepção pública sobre o setor.
Segundo ele, o uso de modelos como as contas-bolsão fez com que essas empresas deixassem de ser associadas à inovação e passassem a ser vistas como permissivas, frágeis em controles e pouco rigorosas do ponto de vista ético e de segurança.
Consumidor mais cauteloso com plataformas digitais
Guazelli avalia que os escândalos levaram muitos consumidores a questionar a segurança de seus dados pessoais e financeiros. A reação regulatória do governo, ao equiparar as obrigações das fintechs às dos grandes bancos, reforçou a ideia de que o período de menor fiscalização chegou ao fim.
O especialista também alerta para o temor de que o aumento dos custos de compliance seja repassado aos clientes, reduzindo a principal vantagem competitiva das fintechs: serviços financeiros mais baratos e acessíveis.
Setor reage e pede cautela contra generalizações
Do outro lado, representantes das fintechs defendem que os casos investigados não refletem a realidade da maioria das empresas. Para Diogo Perez, presidente da Associação Brasileira de Fintechs (AB Fintechs), o setor tem sido vítima da crescente sofisticação do crime organizado.
Ele afirma que, assim como bancos tradicionais e outros segmentos econômicos, as fintechs também são alvo de esquemas criminosos complexos. Segundo Perez, generalizações acabam penalizando empresas sérias, reguladas e comprometidas com elevados padrões de compliance.
Banco Central endurece regras e antecipa exigências
Como resposta aos episódios revelados em 2025, o Banco Central publicou a Resolução nº 494/2025, considerada um marco no fortalecimento da supervisão sobre fintechs. A norma determina que todas as instituições de pagamento devem obter autorização prévia para operar e declarar, já no pedido inicial, todas as modalidades de serviço que pretendem oferecer.
Prazo mais curto para adequação
Um dos pontos mais relevantes da resolução foi a antecipação do prazo para regularização. Antes previsto para 2029, o novo limite passou a ser maio de 2026. A mudança sinaliza a urgência do BC em fechar brechas regulatórias exploradas por organizações criminosas.
Para Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB), a medida foi necessária diante do avanço e da complexidade das práticas ilícitas. Ele destaca que a regulamentação brasileira tem evoluído de forma alinhada às melhores práticas internacionais, equilibrando inovação e prudência.
Iniciativas do mercado para reforçar boas práticas
Além da atuação do regulador, o próprio mercado tem buscado mecanismos para elevar os padrões de governança. A AB Fintechs lançou o selo “Fintech Segura”, que certifica empresas comprometidas com um guia de boas práticas.
O que prevê o selo Fintech Segura
Entre as diretrizes estão políticas de transparência com o consumidor, regras claras de relacionamento com órgãos reguladores e incentivo à adoção de boas práticas de governança corporativa. A entidade também trabalha na formalização de convênios para colaboração estruturada com autoridades no combate a ilícitos.
Tributação e custos no radar dos consumidores
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Outro ponto sensível para 2026 é o impacto da maior tributação e do aumento das exigências regulatórias. Para o consultor em Gestão de Riscos e Compliance Rodrigo Provazzi, é provável que parte desses custos seja repassada aos clientes, especialmente em produtos de margem reduzida, como contas gratuitas, transferências e microcrédito.
Concorrência pode limitar repasses
Provazzi explica que o nível de concorrência, a escala das empresas e a sensibilidade do consumidor ao preço serão determinantes para definir o quanto desse aumento será absorvido pelas fintechs. Já Diogo Perez avalia que as novas regras do Banco Central não devem elevar significativamente os custos operacionais, mas reconhece que mudanças tributárias podem favorecer a concentração do mercado.
Inteligência artificial ganha protagonismo no combate a fraudes
A aposta em tecnologia avançada é vista como um dos caminhos para fortalecer a segurança. Segundo especialistas, a inteligência artificial será central na prevenção a fraudes, lavagem de dinheiro e golpes digitais.
Modelos híbridos devem prevalecer
De acordo com Diogo Perez, a tendência é a adoção de modelos híbridos, nos quais algoritmos identificam padrões complexos e priorizam riscos, enquanto decisões críticas continuam sob supervisão humana. Essa combinação promete aumentar eficiência sem abrir mão do controle.
Fiscalização mais robusta e agenda para 2026
Para elevar o nível da supervisão, a ANBCB defende investimentos em pessoal qualificado, tecnologia e infraestrutura. Thiago Cavalcanti aponta três prioridades para 2026: consolidação do perímetro regulado, ampliação da supervisão digital e fortalecimento da resiliência do ecossistema financeiro.
Segundo ele, temas como segurança em cadeias terceirizadas, governança de provedores de tecnologia e amadurecimento do Open Finance estarão no centro da agenda regulatória.
Um novo ciclo para as fintechs
O consenso entre especialistas é que 2026 será um divisor de águas. As fintechs que se adaptarem às novas regras, investirem em governança e demonstrarem compromisso com a transparência tendem a sair mais fortes. Já aquelas que insistirem em operar nas brechas regulatórias dificilmente sobreviverão.
Para os consumidores, o cenário aponta para um ambiente mais seguro, com instituições mais sólidas e responsáveis.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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