O uso da biometria facial, antes visto como sinônimo de segurança e inovação, tornou-se uma porta de entrada para criminosos digitais no Brasil. Nos últimos meses, cresceu o número de fraudes cometidas contra aposentados por meio do uso indevido de fotos e dados biométricos.
O golpe é sofisticado, explorando não apenas falhas nos sistemas de autenticação, mas também a vulnerabilidade de uma população muitas vezes excluída digitalmente.
Leia mais:
Novas regras do Pix entram em vigor para aumentar segurança contra fraudes
Como funciona a fraude com biometria facial

Coleta de imagens sob pretexto de ajuda social
O golpe tem início com abordagens aparentemente inofensivas. Criminosos se apresentam como representantes de projetos sociais, distribuidores de cestas básicas ou facilitadores de benefícios públicos.
A partir disso, pedem aos aposentados que forneçam fotos do rosto e documentos, alegando ser necessário para o “cadastro”.
Uso de imagens para simular presença da vítima
Com essas imagens em mãos, os golpistas as utilizam em sistemas de reconhecimento facial de instituições financeiras.
Esses sistemas, baseados em inteligência artificial, identificam pontos específicos do rosto — como a distância entre os olhos e o contorno do queixo — para validar a identidade de uma pessoa.
Basta uma imagem de alta resolução para enganar a autenticação, liberando operações como empréstimos, financiamentos e até transferências bancárias.
Impressão facial: o que é e por que preocupa
A chamada “impressão facial” funciona como uma assinatura digital. Ela registra características únicas do rosto de uma pessoa e permite validar sua identidade em diversas plataformas.
Porém, a sofisticação dessa tecnologia ainda é limitada: ela pode ser enganada por uma simples imagem, caso os critérios mínimos de pontos faciais sejam atingidos.
Falta de controle sobre uso da imagem
O grande problema, segundo especialistas em cibersegurança, é que muitas instituições ainda não adotam ferramentas de verificação adicionais, como movimentos do rosto ou análise de vivacidade (que identifica se a imagem é de uma pessoa real ou de uma foto). Isso facilita a atuação dos golpistas, que exploram essa falha para aplicar o golpe.
Por que os aposentados são os mais vulneráveis
Desconhecimento digital
Grande parte da população idosa no Brasil não tem familiaridade com serviços digitais. Muitos ainda preferem o atendimento presencial e não compreendem plenamente os riscos de ceder uma simples foto do rosto para terceiros. A falsa sensação de segurança associada ao reconhecimento facial contribui para a eficácia da fraude.
Ausência de orientação
Faltam campanhas de conscientização voltadas a esse público. A maioria dos idosos não sabe identificar sinais de fraude e não recebe informações de como se proteger de abordagens suspeitas.
Sinais de alerta para evitar golpes com foto
Especialistas em segurança digital recomendam atenção a comportamentos comuns dos golpistas:
- Insistência em tirar fotos com boa iluminação e alta resolução;
- Pedidos para retirar acessórios como óculos, bonés ou máscaras;
- Orientações específicas para manter o rosto sério e imóvel.
Esses sinais indicam que o objetivo pode não ser apenas “cadastrar” a pessoa, mas obter uma imagem compatível com sistemas de autenticação facial.
Locais comuns de captura de imagens
- Portarias de condomínios;
- Consultórios médicos;
- Falsos cadastros sociais em espaços públicos;
- Atendimentos voluntários com promessas de benefícios.
Como se proteger de fraudes com biometria facial
Dicas de prevenção imediata
- Evite compartilhar fotos do rosto com desconhecidos;
- Desconfie de qualquer abordagem que exija foto ou documentos para “cadastro”;
- Utilize acessórios como óculos escuros ou bonés em ambientes públicos, dificultando capturas de imagem;
- Procure informações diretamente nos canais oficiais de programas sociais.
Cadastro em serviços bancários com segurança
- Prefira fazer o cadastro em agências físicas ou por meio de aplicativos oficiais, com autenticação em dois fatores;
- Solicite ajuda de familiares ou pessoas de confiança ao usar aplicativos bancários;
- Cancele imediatamente qualquer transação suspeita ao notar descontos indevidos na aposentadoria.
Falta de regulação agrava o cenário
Segundo o Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), ainda há uma lacuna regulatória grave em relação ao uso de biometria facial no Brasil.
A ausência de normas claras sobre a coleta, armazenamento e validação desses dados deixa o consumidor desprotegido e limita a responsabilização de instituições financeiras.
Investimentos não têm impedido fraudes
Apesar de o setor bancário investir cerca de R$ 5 bilhões anuais em segurança cibernética, como informou a Febraban, os casos de fraude com biometria continuam aumentando.
Isso revela que os investimentos, embora significativos, não estão acompanhando a velocidade de evolução dos crimes digitais.
Parcerias insuficientes
A colaboração entre bancos, governo, Anatel e Polícia Federal ainda não produziu resultados consistentes. Especialistas pedem a criação de uma legislação específica sobre uso de dados biométricos, além de auditorias frequentes nos sistemas de autenticação utilizados.
O que diz a lei sobre uso de dados biométricos
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica os dados biométricos como sensíveis, exigindo consentimento explícito para sua coleta e uso.
No entanto, na prática, essa proteção nem sempre é aplicada com rigor, especialmente quando os dados são obtidos por meio de fraude ou omissão de informação.
Lacunas jurídicas
A LGPD não trata de forma específica a responsabilidade de instituições que validam empréstimos usando imagens indevidamente coletadas. Isso abre brechas para a impunidade, já que as vítimas nem sempre conseguem identificar os responsáveis ou reverter os prejuízos financeiros.
Caminhos para fortalecer a proteção digital

Educação digital para idosos
Iniciativas públicas e privadas devem investir em programas de inclusão digital para idosos, ensinando-os a identificar golpes, usar ferramentas de verificação e denunciar práticas suspeitas.
Melhoria nos sistemas de autenticação
Empresas precisam adotar métodos mais robustos de validação facial, como:
- Detecção de vivacidade (liveness detection);
- Verificação cruzada com dados adicionais (como geolocalização ou voz);
- Alerta de movimentações suspeitas por meio de aplicativos.
Adoção de sanções para empresas negligentes
A regulação deve incluir penalidades para instituições que aprovam transações sem validação rigorosa ou que falham em proteger dados sensíveis dos usuários.
Considerações finais
A fraude com biometria facial é um problema urgente que coloca em risco não apenas aposentados, mas a confiança da sociedade nas tecnologias de segurança digital.
A vulnerabilidade dos idosos, aliada à falta de fiscalização eficaz, cria um cenário propício para a ação criminosa. Somente com educação, regulação e responsabilidade tecnológica será possível conter esse avanço e proteger quem mais precisa.
Imagem: Freepik
