Nos últimos anos, a pejotização tem ganhado destaque no mercado de trabalho brasileiro. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) identificou fortes indícios de fraude trabalhista em milhares de contratos que migraram do regime CLT para o modelo de pessoa jurídica (PJ), especialmente através do Microempreendedor Individual (MEI). O governo acredita que muitos trabalhadores foram obrigados a abrir CNPJ para continuar exercendo suas funções, o que reduz a arrecadação de tributos e enfraquece direitos trabalhistas.
A fraude do pj: veja os 4 sinais de “pejotização” que o governo vai punir
overno identifica fraudes na pejotização e promete punir empresas que obrigam funcionários a virar PJ para reduzir custos e tributos.
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O crescimento alarmante da pejotização

Entre 2022 e julho deste ano, 5,5 milhões de trabalhadores deixaram o regime formal de emprego e se tornaram pessoas jurídicas. Segundo o MTE, em 80% desses casos — cerca de 4,4 milhões — a transição foi feita para o modelo de MEI, o que acende o alerta sobre a possível utilização irregular desse regime.
De acordo com o ministério, é possível rastrear a migração analisando os CPFs dos trabalhadores que saíram da CLT e, logo em seguida, ingressaram no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). Essa correlação direta entre desligamento e formalização como PJ é o principal indício de que muitos não tomaram essa decisão de forma voluntária.
O impacto fiscal e trabalhista
A pejotização irregular tem um custo bilionário para o país. Estimativas do MTE apontam que a perda de arrecadação previdenciária ultrapassa R$ 70 bilhões, considerando apenas os trabalhadores que migraram para o modelo PJ ou MEI.
Enquanto um empregado CLT contribui com cerca de R$ 400 mensais ao INSS, um MEI paga apenas R$ 70, o que reduz significativamente o volume de recursos destinados à Previdência Social.
Essa diferença de contribuição afeta diretamente a sustentabilidade do sistema previdenciário e coloca em risco o financiamento de benefícios como aposentadorias e auxílios.
As motivações por trás da pejotização
O fenômeno da pejotização não é novo, mas ganhou força nos últimos anos com a busca das empresas por redução de custos e flexibilização das leis trabalhistas.
Custo elevado da contratação formal
De acordo com estudos da Escola de Administração de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV), o custo de contratação formal no Brasil pode chegar a 70% sobre o salário do empregado. Esse encargo inclui contribuições previdenciárias, FGTS, férias, 13º salário e demais obrigações legais.
Para escapar desses custos, muitas empresas passaram a incentivar ou impor a abertura de CNPJs aos seus colaboradores, que, na prática, continuam exercendo a mesma função e cumprindo a mesma jornada.
A perda de poder dos trabalhadores
Com a pejotização, o trabalhador perde direitos fundamentais garantidos pela CLT, como férias remuneradas, 13º salário, FGTS e seguro-desemprego. Além disso, passa a arcar sozinho com o pagamento de tributos e não tem garantia de estabilidade.
Especialistas do MTE afirmam que essa assimetria de poder entre empregadores e empregados torna muitos casos de pejotização verdadeiras fraudes trabalhistas.
A visão do Ministério do Trabalho
A diretora do Departamento de Fiscalização do Trabalho, Lorena Guimarães, afirma que a pejotização se torna um problema grave quando há fraude na relação de trabalho.
Segundo ela, há casos absurdos de garis e trabalhadores da limpeza pública contratados como MEIs individuais por prefeituras, o que é uma distorção completa da finalidade do programa.
“Nestes casos, são trabalhadores sem condições de negociar com os empregadores, caracterizando uma relação de subordinação típica da CLT”, explica Guimarães.
O MTE tem intensificado a fiscalização eletrônica de vínculos empregatícios, cruzando dados do eSocial, CNPJ e Cadastro de Empregadores, para identificar empresas que têm transformado empregados formais em prestadores de serviço.
O debate jurídico e o papel do STF
A discussão chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá definir os limites legais da pejotização e quando ela configura fraude.
O ministro Gilmar Mendes recebeu recentemente um relatório do MTE com os dados de migração de CLT para PJ. Desde abril, ele determinou a suspensão de todos os processos trabalhistas que tratam da legalidade da contratação via pessoa jurídica até que o Supremo estabeleça um entendimento unificado.
De 2020 a março deste ano, 1,2 milhão de ações trabalhistas foram ajuizadas pedindo o reconhecimento de vínculo empregatício — o que representa 8,3% de todas as reclamações no período.
Essa judicialização crescente mostra o tamanho do problema e a insegurança jurídica que a pejotização tem causado.
A proposta de revisão nas contribuições
Para Leonardo Rolim, ex-presidente do INSS, é possível reduzir o impacto fiscal da pejotização criando faixas diferenciadas de contribuição previdenciária.
Ele defende que trabalhadores mais vulneráveis, inscritos no Cadastro Único, possam pagar uma alíquota menor, de 5%, enquanto os demais contribuiriam com 11%, conforme sua capacidade de renda.
Rolim também propõe um novo enquadramento tributário para MEIs com faturamento próximo do limite de R$ 81 mil anuais, permitindo sua transição para regimes intermediários, como o Simples Nacional.
A preferência dos trabalhadores pela autonomia
Apesar das irregularidades, parte dos profissionais opta pela pejotização por vontade própria. A pesquisa Datafolha, divulgada em junho, mostrou que 59% dos brasileiros preferem trabalhar por conta própria.
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Entre os jovens, o índice sobe para 68%, demonstrando uma mudança de mentalidade em relação à estabilidade e à liberdade profissional.
O fator da escolaridade e da renda
De acordo com o economista Nelson Marconi, da Eaesp-FGV, a pejotização tende a ser mais vantajosa para trabalhadores com maior escolaridade e poder de negociação.
Em muitos casos, profissionais que atuam como PJ chegam a ganhar o dobro de quem é CLT, especialmente em setores de tecnologia, comunicação e consultoria.
“Há uma preferência crescente pela autonomia e pela flexibilidade de jornada entre profissionais qualificados”, afirma Marconi.
Esses trabalhadores veem na pejotização uma forma de empreender, gerenciar o próprio tempo e ampliar os ganhos, mesmo abrindo mão de garantias formais.
O desafio do equilíbrio entre autonomia e proteção
O grande desafio do governo é equilibrar o incentivo ao empreendedorismo com a proteção dos direitos trabalhistas. O modelo do MEI, criado em 2008 para formalizar autônomos e microempreendedores, acabou sendo desvirtuado em muitos casos.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho moderno exige flexibilidade, especialmente em áreas digitais, o que torna o debate mais complexo.
Para o MTE, a prioridade agora é punir empresas que utilizam a pejotização como meio de burlar a CLT, sem prejudicar aqueles que de fato são autônomos.
O futuro da pejotização no Brasil

O governo federal pretende endurecer a fiscalização e revisar as regras da pejotização nos próximos meses. A expectativa é que o STF defina parâmetros claros para diferenciar o trabalho autônomo legítimo das fraudes que mascaram vínculos formais.
Enquanto isso, o MTE continua rastreando indícios de irregularidade e promete aplicar multas e sanções severas às empresas que se beneficiarem da pejotização ilegal.
O debate, no entanto, está longe do fim. De um lado, há a necessidade de proteger o trabalhador; de outro, a busca por um ambiente de negócios menos oneroso. Encontrar o ponto de equilíbrio entre flexibilidade e justiça social será o grande desafio das políticas trabalhistas nos próximos anos.
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