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Estudo aponta que gastos de estados e municípios no Brasil cresceram mais que os da União

Estados e municípios ampliaram despesas mais que governo federal, dificultando controle da inflação, revela estudo da FGV-IBRE.

Fernanda RamosPor Fernanda Ramos5 min de leitura
corte de gastos

Um recente estudo divulgado em junho pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela que os gastos públicos dos estados e municípios brasileiros cresceram muito mais que as despesas do governo federal desde o início da pandemia da Covid-19. Essa expansão expressiva das despesas subnacionais traz desafios para o controle da inflação e dificulta a coordenação das políticas econômicas no país.

Elaborado pelos economistas Bráulio Borges e Manoel Pires, o levantamento mostra que as despesas dos governos regionais aumentaram cerca de 37% desde 2021, enquanto os gastos federais subiram apenas 15% no mesmo período. A disparidade evidencia um processo de descentralização fiscal, que, apesar de ter aspectos positivos, pode acarretar riscos fiscais e comprometer o ajuste das contas públicas.

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Crescimento expressivo dos gastos subnacionais

Imagem do mapa do Brasil
Imagem: Alexander Peskov/Shutterstock.com

Os dados trimestrais e dessazonalizados da FGV indicam que, no quarto trimestre de 2024, as despesas dos estados e municípios chegaram a R$ 643 bilhões — valor que chegou a ultrapassar R$ 660 bilhões em trimestres anteriores. Esse montante é significativamente maior que as despesas do governo federal, que cresceram de forma modesta na última década, com picos relacionados à pandemia.

Os economistas destacam que, embora o governo federal realize transferências importantes para estados e municípios — como via Fundeb, Lei Kandir e Fundos Constitucionais —, os recursos próprios e empréstimos desses entes também aumentaram, contribuindo para a alta nas despesas.

Fontes de financiamento e aumento da arrecadação

Segundo o estudo, a elevação das receitas locais foi sustentada principalmente por:

  • Transferências federais, que aumentaram com o crescimento das alíquotas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em 2007, 2014 e 2021, além da expansão do Fundeb a partir de 2021;
  • Arrecadação duplicada no setor extrativo, que destina parte dos recursos aos governos regionais;
  • Empréstimos garantidos pela União, que saltaram de R$ 2,6 bilhões em 2015 para R$ 42,1 bilhões em 2024;
  • Incremento na arrecadação própria, que passou de 10,4% para 10,9% do PIB entre 2020 e 2024, superando os níveis pré-pandemia.

Com o aumento da receita, os estados e municípios ampliaram significativamente as despesas com folha salarial, custeio e investimentos.

Disparidade nas despesas entre níveis de governo

Os dados revelam que a folha de pagamento de funcionários ativos e inativos nos estados e municípios é cerca de três vezes maior que a federal. De 2021 a 2024, essa despesa subiu de R$ 219,6 bilhões para R$ 271,5 bilhões, enquanto a federal permaneceu estável ou recuou no período.

Além disso, os gastos com custeio nos governos regionais quase dobraram, passando de R$ 139 bilhões para R$ 216 bilhões no último trimestre de 2024. Já os investimentos subiram de R$ 24,8 bilhões para R$ 54,8 bilhões, contrastando com os investimentos federais que oscilaram entre R$ 6 bilhões e R$ 10 bilhões desde 2016.

Por sua vez, o governo federal tem concentrado o crescimento de despesas em benefícios previdenciários e programas sociais, como Bolsa Família e BPC, que cresceram de R$ 298 bilhões para R$ 379 bilhões no período.

Descentralização fiscal: avanços e desafios

O aumento dos gastos regionais reflete uma mudança na organização política do Brasil, com maior protagonismo do Legislativo e maior autonomia dos governos locais. Essa “descentralização fiscal”, ocorrida de forma descoordenada e majoritariamente via transferências federais, possui vantagens como o conhecimento local das necessidades da população.

Porém, os economistas alertam para riscos associados:

  • Maior probabilidade de crises fiscais regionais;
  • Subtributação local em impostos como ITR, IPTU e ITCMD;
  • Possível necessidade de socorro financeiro da União aos entes subnacionais;
  • Complexidade na coordenação das políticas macroeconômicas.

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Impacto sobre o ajuste fiscal e controle da dívida pública

Banco
Imagem: pch.vector – Freepik

Bráulio Borges e Manoel Pires ressaltam que o aumento expressivo das despesas estaduais e municipais torna mais difícil o esforço nacional para equilibrar as contas públicas. O governo federal, por sua vez, enfrenta um cenário desafiador, com alta dívida pública, necessidade de ajustes e alta pressão para controlar a inflação.

O que se vê até o momento, no entanto, é o lado negativo da descentralização, ou seja, a fragmentação. Há maior dificuldade de o governo federal organizar as políticas públicas e coordenar ações, e maior rivalidade entre entes federativos, mesmo em políticas de interesse comum. Principalmente, com o país diante do enorme desafio de realizar um necessário ajuste fiscal estrutural, é complicado que esse esforço hoje esteja limitado à União, que já tem uma agenda pesada com Previdência, benefícios sociais, indexação à receita de políticas de saúde e educação e gastos tributários“, afirmam os pesquisadores.

Eles destacam que o ajuste fiscal, essencial para evitar o crescimento descontrolado da dívida e reduzir a pressão sobre a taxa de juros, depende do alinhamento do Congresso, dos governos estaduais e dos municípios, muitos dos quais ainda não adotaram medidas para estabilizar as contas públicas.

O papel do Congresso e perspectivas futuras

Entre as decisões recentes, estão a renegociação das dívidas estaduais e a criação de fundos de repasse na reforma tributária, que devem ampliar a capacidade de gasto dos governos regionais. Por outro lado, a falta de coordenação pode agravar os desafios fiscais.

Os economistas concluem que é imprescindível maior alinhamento entre os entes federativos para garantir a estabilidade econômica do país e evitar desequilíbrios que comprometam o crescimento e o controle da inflação.

Com informações de: Economia | G1

Fernanda Ramos

Autor

Fernanda Ramos

Fernanda é graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com sólida formação em língua portuguesa. Atua na estruturação, revisão e aprimoramento textual dos conteúdos do portal Seu Crédito Digital, garantindo clareza, coesão e qualidade editorial. Apaixonada por comunicação, tem como missão facilitar o acesso à informação com linguagem acessível e confiável.

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