Uma conversa aparentemente inocente em um aplicativo de relacionamento pode esconder uma tentativa de fraude. Em algumas abordagens, o suposto pretendente insiste em levar o contato para outro aplicativo, pede uma videochamada e procura obter imagens do rosto, gravações de voz e informações pessoais da vítima.
Esse material pode ser utilizado para criar perfis falsos, aplicar golpes em familiares, produzir vídeos manipulados ou tentar contornar sistemas de identificação. No entanto, é importante esclarecer: atender a uma videochamada não significa que o criminoso conseguirá automaticamente acessar a conta bancária da vítima.
Os bancos e outras instituições costumam adotar diferentes camadas de segurança, como análise do aparelho, localização, histórico de comportamento e detecção de vivacidade. O risco aumenta quando as imagens são combinadas com CPF, telefone, documentos, senhas vazadas e outros dados pessoais.
A ameaça merece atenção porque explora justamente um ambiente no qual as pessoas procuram criar vínculos. A promessa de um relacionamento reduz a desconfiança e facilita pedidos que seriam considerados estranhos em outras circunstâncias.
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Como começa o golpe da biometria em aplicativos de relacionamento?

A abordagem geralmente começa com um perfil atraente e aparentemente legítimo. O golpista pode usar fotografias roubadas de redes sociais, inventar uma profissão e criar uma história pessoal detalhada para transmitir confiança.
Depois das primeiras mensagens, ele tenta retirar a conversa do aplicativo de namoro. A justificativa pode ser que raramente acessa a plataforma, prefere conversar pelo WhatsApp ou deseja fazer uma videochamada em um ambiente “mais reservado”.
Essa mudança é relevante porque muitos aplicativos de relacionamento oferecem ferramentas para denunciar perfis, bloquear usuários e identificar comportamentos suspeitos. Fora da plataforma, a empresa perde parte da capacidade de acompanhar a conversa e intervir.
Juliana Cunha, diretora da SaferNet Brasil e especialista em violência de gênero facilitada pela tecnologia, chama essa movimentação de etapa central dos golpes. Ao conduzir a vítima para um canal menos protegido, o criminoso ganha maior liberdade para fazer solicitações e coletar informações.
O que o criminoso pode capturar durante a videochamada?
Durante uma chamada de vídeo, é possível gravar o rosto da vítima em diferentes posições, além de sua voz e de elementos presentes no ambiente. Dependendo da duração da conversa, o criminoso também pode registrar expressões, movimentos da cabeça e palavras específicas.
Entre os dados potencialmente coletados estão:
- imagem frontal e lateral do rosto;
- movimentos dos olhos e da cabeça;
- diferentes expressões faciais;
- gravação da voz;
- nome completo, profissão e cidade;
- detalhes da residência ou do local de trabalho;
- informações sobre familiares e rotina;
- números, códigos ou palavras solicitados durante a conversa.
O risco não está necessariamente em uma imagem isolada. O problema surge quando esse material é cruzado com informações obtidas em redes sociais, vazamentos de dados ou outras etapas de engenharia social.
Engenharia social é o nome dado às técnicas de manipulação usadas para convencer uma pessoa a revelar dados ou realizar determinada ação. Em vez de invadir diretamente um sistema, o criminoso explora confiança, pressa, medo ou envolvimento emocional.
Uma videochamada é suficiente para roubar a biometria?
Não necessariamente. Uma gravação comum não garante que o criminoso conseguirá passar pela autenticação facial de um banco, de uma plataforma pública ou de outra empresa.
Sistemas mais avançados utilizam a chamada detecção de vivacidade. Essa tecnologia procura identificar se há uma pessoa real diante da câmera e pode analisar profundidade, textura da pele, reflexos, movimentos e outras características.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados alerta, porém, que deepfakes multimodais em tempo real — capazes de combinar imagem, movimento e áudio — podem tentar comprometer mecanismos de reconhecimento facial e detecção de vivacidade.
Isso não significa que todos os sistemas serão enganados. A eficácia da tentativa depende da qualidade do material coletado, da tecnologia empregada pelo fraudador e das barreiras adotadas pela instituição.
Por que o criminoso ainda insiste na chamada?
Mesmo quando não consegue usar a gravação diretamente em uma autenticação bancária, o golpista pode aproveitar o material de outras maneiras.
A imagem e a voz podem servir para criar uma identidade falsa mais convincente. O criminoso também pode editar o vídeo, simular uma situação de emergência ou entrar em contato com familiares pedindo dinheiro.
Outra possibilidade é a extorsão. Uma chamada íntima pode ser gravada sem autorização, e o conteúdo passa a ser usado para ameaçar a vítima. O criminoso exige pagamento sob a promessa de não divulgar as imagens.
Por isso, a videochamada deve ser entendida como uma possível etapa de coleta de dados, e não como garantia de que a conta bancária será imediatamente invadida.
Como os dados são combinados em uma tentativa de fraude?
A biometria facial, isoladamente, nem sempre é suficiente para concluir uma operação. Por essa razão, os criminosos procuram formar um conjunto maior de informações.
Um perfil de rede social pode revelar data de nascimento, cidade, parentes, local de trabalho e viagens recentes. Vazamentos anteriores podem acrescentar CPF, telefone, endereço ou e-mail.
Durante a conversa, o suposto pretendente tenta confirmar essas informações. Perguntas apresentadas como demonstrações de interesse podem, na verdade, servir para atualizar uma ficha da vítima.
Imagine, por exemplo, que a pessoa informe seu nome completo, banco utilizado e profissão. Depois, aceite uma videochamada e mostre um documento para “provar que é verdadeira”. Nesse caso, o golpista passa a reunir dados cadastrais, imagem facial e voz.
Esse material pode ser utilizado em tentativas de abertura de contas, recuperação de acesso, contratação de serviços ou convencimento de atendentes. A fraude dependerá, contudo, das medidas de segurança adotadas por cada empresa.
Por que mulheres podem se tornar alvos preferenciais?
Não há uma estatística nacional específica sobre o uso de videochamadas em aplicativos de relacionamento para capturar biometria. Os casos costumam aparecer dentro de categorias mais amplas, como estelionato eletrônico, falsidade ideológica, extorsão ou invasão de dispositivo.
Especialistas da SaferNet observam que mulheres são frequentemente atingidas por golpes baseados em vínculos afetivos. Nessas situações, o criminoso explora confiança, expectativa de relacionamento e dinâmicas de controle.
Isso não significa que homens estejam fora de risco. Pessoas de qualquer gênero, idade ou orientação sexual podem ser abordadas. O padrão da fraude muda de acordo com o perfil que o criminoso pretende atingir.
Em alguns casos, a estratégia é romântica. Em outros, envolve promessas de investimento, ajuda financeira, encontro presencial ou troca de imagens íntimas.
Estelionato eletrônico continua avançando no Brasil
O crescimento das fraudes digitais ajuda a explicar a preocupação com novas formas de coleta de dados.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o Brasil registrou 346.753 casos de estelionato por meio eletrônico em 2025, contra 286.226 em 2024. O aumento foi de 20,6% em um ano. Já os estelionatos em geral passaram de 2,19 milhões de registros. Os números são baseados em informações das secretarias estaduais de Segurança Pública e das polícias. Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Os dados não informam quantos casos começaram em aplicativos de namoro ou envolveram biometria. Ainda assim, revelam uma mudança importante no crime patrimonial brasileiro: o contato digital passou a ocupar um espaço cada vez maior nas fraudes.
A internet permite que o mesmo golpista aborde várias pessoas, teste diferentes histórias e esconda sua verdadeira localização. Perfis falsos também podem ser descartados e recriados rapidamente.
Quais sinais indicam que a conversa pode ser um golpe?
Um comportamento isolado não comprova a fraude. A combinação de vários sinais, porém, deve acender o alerta.
Desconfie quando a pessoa:
- tenta retirar imediatamente a conversa do aplicativo;
- insiste em videochamadas em horários ou condições incomuns;
- pede que você repita números, palavras ou movimentos;
- solicita fotografia de documento ou cartão;
- faz perguntas excessivas sobre banco, renda e patrimônio;
- evita encontros presenciais e sempre apresenta uma justificativa;
- demonstra intimidade intensa em pouco tempo;
- pede dinheiro, pagamento de passagem ou ajuda emergencial;
- envia links para supostas verificações de identidade;
- pede códigos recebidos por SMS ou notificações bancárias;
- ameaça divulgar imagens ou conversas privadas.
Também é recomendável observar inconsistências na história. Mudanças de profissão, cidade, idade ou rotina podem indicar que o golpista está usando informações copiadas de outra pessoa.
Como se proteger sem abandonar os aplicativos de relacionamento?
Não é necessário recusar todas as videochamadas. Elas podem até ajudar a confirmar que existe uma pessoa real por trás do perfil. O cuidado está na forma como a conversa é conduzida e nas informações fornecidas.
Mantenha o contato dentro do aplicativo durante a fase inicial. Isso preserva os mecanismos de denúncia e facilita a identificação do perfil caso algo aconteça.
Nunca mostre documentos, cartões, telas bancárias ou códigos recebidos pelo celular. Instituições financeiras não pedem confirmação de senha, token ou código de segurança por meio de um pretendente, atendente informal ou chamada de vídeo.
Outros cuidados importantes incluem:
- limitar informações pessoais disponíveis publicamente;
- evitar mencionar banco, renda ou patrimônio;
- ativar a autenticação em dois fatores;
- usar senhas diferentes em cada serviço;
- revisar aparelhos conectados às contas;
- manter celular e aplicativos atualizados;
- bloquear e denunciar perfis suspeitos;
- desconfiar de links enviados durante a conversa;
- não realizar movimentos ou repetir frases sob orientação de desconhecidos.
Uma busca reversa pela fotografia também pode ajudar a descobrir se a imagem foi retirada de outro perfil. Ainda assim, a ausência de resultados não comprova que a pessoa seja legítima.
O que fazer se você participou de uma chamada suspeita?
O primeiro passo é interromper o contato e guardar as provas. Faça capturas de tela do perfil, das mensagens, do número de telefone e de eventuais pedidos. Não continue a conversa apenas para investigar o criminoso.
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Em seguida, altere as senhas das contas que possam ter sido mencionadas ou expostas. Ative a verificação em duas etapas e encerre sessões abertas em aparelhos desconhecidos.
Entre em contato com o banco se tiver revelado informações financeiras, mostrado documentos ou percebido qualquer movimentação. Use somente os canais oficiais disponíveis no aplicativo, no site ou no verso do cartão.
Também é recomendável consultar o Registrato, sistema do Banco Central que permite verificar contas, empréstimos e outras relações financeiras vinculadas ao CPF. Operações desconhecidas devem ser contestadas diretamente com a instituição responsável.
Quando registrar um boletim de ocorrência?
O boletim de ocorrência deve ser registrado quando houver ameaça, extorsão, uso indevido de imagem, tentativa de fraude, movimentação financeira desconhecida ou criação de conta em nome da vítima.
A Polícia Civil de muitos estados permite o registro pela internet. É importante anexar ou preservar mensagens, datas, nomes de usuário, telefones, comprovantes e endereços de perfis.
O Banco Central esclarece que crimes devem ser comunicados à Polícia Civil. Ao mesmo tempo, a vítima precisa avisar imediatamente a instituição financeira para bloquear acessos e contestar operações.
Se houver transferência por Pix, o banco pode avaliar o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução, conhecido como MED. O procedimento não garante o ressarcimento, mas permite analisar a operação e tentar bloquear recursos ainda disponíveis na conta recebedora.
É possível trocar a biometria depois de uma exposição?
Esse é um dos principais problemas dos dados biométricos. Uma senha pode ser alterada, mas o rosto e a voz acompanham a pessoa durante grande parte da vida.
A Lei Geral de Proteção de Dados classifica a biometria vinculada a uma pessoa como dado pessoal sensível. Isso exige cuidados reforçados no tratamento e armazenamento dessas informações. Serpro
A vítima não consegue simplesmente “trocar de rosto”. No entanto, pode reduzir os riscos ao fortalecer as demais camadas de segurança, acompanhar contas abertas em seu nome e limitar a exposição pública de imagens e informações cadastrais.
Também vale revisar quais aplicativos possuem acesso à câmera, ao microfone e às fotografias do celular. Permissões desnecessárias devem ser removidas.
O principal cuidado é não entregar todas as peças
Uma videochamada isolada não representa, por si só, a perda automática de uma conta bancária. O perigo aumenta quando rosto, voz, documento, CPF, telefone, senhas e informações financeiras são reunidos pelo criminoso.
Por isso, o cuidado mais importante é impedir que uma conversa afetiva se transforme em uma coleta completa de dados. Pedidos incomuns devem ser recusados, mesmo quando a outra pessoa demonstra pressa, carinho ou indignação.
Se algo parecer estranho, interrompa o contato, preserve as provas e verifique suas contas. Agir rapidamente pode limitar os danos e ajudar as plataformas, os bancos e a polícia a identificar novas tentativas de fraude.
Perguntas frequentes

Criminosos conseguem roubar minha biometria em uma videochamada?
A videochamada pode fornecer imagens do rosto, movimentos e gravações de voz. Esse material pode ser usado em tentativas de fraude, mas não garante que o criminoso conseguirá superar os sistemas de segurança de bancos e aplicativos.
Atender a uma chamada de vídeo dá acesso à minha conta bancária?
Não. Uma chamada comum não fornece acesso automático à conta. O risco aumenta se a vítima também entregar documentos, senhas, códigos de SMS, dados bancários ou instalar aplicativos indicados pelo golpista.
O que é detecção de vivacidade?
É uma tecnologia que tenta confirmar se há uma pessoa real diante da câmera. O sistema pode analisar profundidade, textura, reflexos e movimentos para dificultar o uso de fotografias, vídeos gravados ou máscaras digitais.
O que fazer se mostrei meu rosto e documento durante a chamada?
Interrompa o contato, guarde as provas e avise seu banco. Troque senhas, ative a autenticação em dois fatores, consulte o Registrato e registre um boletim de ocorrência se houver tentativa de fraude ou uso indevido dos dados.
Como denunciar um perfil falso em aplicativo de relacionamento?
Use a ferramenta de denúncia disponível no próprio aplicativo e bloqueie o usuário. Antes disso, preserve capturas de tela, nome do perfil, mensagens, telefone e demais informações que possam ajudar na apuração.
É possível trocar a biometria facial depois de um vazamento?
Não da mesma forma que se troca uma senha. Por isso, a recomendação é reforçar outras barreiras de segurança, monitorar contas e empréstimos vinculados ao CPF e reduzir a exposição de dados pessoais.



