“Para sua segurança, este contato será gravado.” A frase, comum em chamadas de telemarketing, se transformou em porta de entrada para um dos maiores esquemas de fraude contra aposentados e pensionistas no Brasil. Estima-se que mais de R$ 6 bilhões tenham sido desviados por meio de descontos indevidos em folhas de pagamento do INSS, afetando milhões de idosos em todo o país.
Áudios revelam como idosos foram enganados por ligações fraudulentas do INSS
Golpe com gravações falsas causou R$ 6 bilhões em descontos indevidos em aposentadorias. INSS bloqueia débitos e inicia devoluções.
Uma investigação do programa Fantástico, da TV Globo, revelou os bastidores do esquema, com áudios forjados, manipulação de atendentes e indução ao erro, tudo planejado para confundir e enganar cidadãos idosos, em sua maioria com pouca instrução e dificuldades auditivas.
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Fraude estruturada: o script da enganação

O golpe começa com uma ligação rotineira, conduzida por operadores de call centers treinados com roteiros prontos e técnicas de persuasão agressiva. A ordem era não deixar o idoso pensar, apenas responder.
“Era um script pronto. A gente falava sem parar, sem deixar o cliente raciocinar”, revelou uma ex-funcionária do telemarketing envolvido no esquema. Segundo os relatos, muitos atendentes nem sabiam exatamente o que estavam vendendo — o foco era obter um “sim” do outro lado da linha.
Esses “sins” serviam como base falsa para adesão a associações ou contratos de empréstimos travestidos de vantagens. Em muitos casos, os descontos apareciam sem que a vítima soubesse sequer o nome da entidade que estava retirando dinheiro da aposentadoria.
Vozes falsificadas e gravações forjadas
O caso do aposentado Neacir Serrano de Oliveira, de 83 anos, escancara a ousadia da fraude. Por 10 meses, ele teve R$ 45 descontados por uma associação chamada Cebap. Ao questionar a origem da cobrança, o Procon de Minas Gerais solicitou a gravação da suposta autorização. A surpresa veio no áudio: uma voz feminina dava o consentimento.
“Achou que eu era mulher. Minha voz é rouca, grossa. Tá longe de ser a minha voz, não tá?”, afirmou indignado. Ex-funcionários de call centers confirmaram que essas gravações eram falsificadas intencionalmente. Quando um órgão oficial pedia uma prova de consentimento, alguém dentro da operação imitava a voz de um idoso e simulava a autorização.
Quase 500 mil reclamações em dois anos

Segundo dados da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, foram registradas cerca de 500 mil queixas formais entre 2023 e 2024 por descontos não autorizados em aposentadorias e pensões.
“Os principais alvos são idosos e pessoas com baixa escolaridade”, destacou Valter Portalete, diretor do Procon de Santo Ângelo (RS). Ele acompanha de perto a situação de moradores locais como Piragibe Jesus de Abreu, de 79 anos, que viu sua renda mensal cair drasticamente.
“No mês passado, recebi só R$ 700. Era pra vir R$ 1.700. Eu nem sabia o porquê”, conta o aposentado. Além dos descontos legítimos por empréstimos, surgiram cobranças inesperadas, como R$ 79 para o Sindicato Nacional dos Aposentados do Brasil (Sinab) — entidade que ele diz jamais ter autorizado.
Venda casada disfarçada de benefício
Outro recurso do golpe era a chamada venda casada. O aposentado acreditava estar contratando um empréstimo com juros menores, mas, sem perceber, estava aderindo a uma associação com mensalidades que começavam a ser descontadas diretamente da aposentadoria.
“Ele achava que estava reduzindo os juros, mas estava fazendo um novo empréstimo”, relatou uma ex-atendente, confirmando a prática.
Além disso, os áudios usados para a suposta autorização são extensos e confusos, segundo a presidente da Associação Nacional de Procons, Márcia Regina Moro da Rocha. “São gravações cansativas, pouco explicativas, o que dificulta ainda mais o entendimento de idosos com perda auditiva ou cognitiva.”
Ações do INSS e devolução de valores
Diante da avalanche de denúncias, o INSS bloqueou todos os descontos feitos por entidades associativas na folha de pagamento dos beneficiários. Os valores cobrados indevidamente estão sendo devolvidos, segundo nota oficial do Instituto.
A solicitação de ressarcimento pode ser feita por três canais:
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A primeira etapa do reembolso já devolveu R$ 292 milhões aos aposentados lesados.
Investigação federal e megaoperação

Em abril de 2025, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram uma megaoperação para desmantelar a rede criminosa por trás dos golpes. A estimativa é de que mais de 4 milhões de pessoas tenham sido prejudicadas.
Os responsáveis podem responder por fraude, estelionato, falsidade ideológica e formação de quadrilha. A investigação segue em curso, com novos desdobramentos previstos nos próximos meses.
Prejuízo emocional e indignação
Para os aposentados, além do prejuízo financeiro, há um sentimento de impotência. “A gente trabalha a vida inteira, aposenta com uma mixaria danada… Devia prender essa gente toda”, desabafa seu Piragibe, inconformado com o rombo em seu benefício.
Enquanto as instituições avançam no bloqueio e na reparação, os casos revelam a necessidade urgente de mais fiscalização, educação digital e proteção aos idosos, cada vez mais vulneráveis em um cenário de serviços cada vez mais digitalizados e automatizados.
Conclusão
O golpe das gravações falsas é mais do que uma fraude financeira. É um ataque sistemático à dignidade e aos direitos de quem trabalhou por décadas e deveria viver a aposentadoria com tranquilidade. Com o alerta aceso, é fundamental que familiares, órgãos públicos e entidades civis estejam atentos para orientar e proteger nossos idosos.
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